Economia e política externa evidenciaram guinadas de Dilma

Presidenta mostrou diferença em relação a Lula na visão de Estado mais intervencionista e na postura diplomática mais humanista

Danilo Fariello, iG Brasília |

Os primeiros 100 dias foram suficientes para provar que o governo de Dilma Rousseff tem diferenças relevantes em relação ao de seu antecessor. As mais perceptíveis, na visão de alguns ministros ouvidos pelo iG , são duas: uma econômica, com a proposta de uma nova interpretação na relação entre agentes públicos e privados; e outra diplomática, com sinalizações de rompimento com o perfil externo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu chanceler Celso Amorim.

No âmbito econômico, a guinada é tida principalmente por uma visão de Dilma que tende à maior atuação do governo para levar a um crescimento econômico mais sustentável e com maior desenvolvimento social.

Divulgação
Com postura mais humanista que a de seu antecessor, Dilma foi a primeira a receber um presidente americano antes de visitar os EUA
Enquanto no governo Lula o foco das políticas de distribuição de renda estavam mais restritas ao pagamento de benefícios, como o Bolsa Família, agora a presidenta Dilma tem dito a assessores que as empresas também têm um papel relevante na distribuição de riqueza, inclusive as privadas. O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, chegou a dizer, por exemplo, que a Vale deve contribuir mais com o “interesse nacional” e o “desenvolvimento do País”. Posição similar era defendida por Lula, mas foi Dilma que, de fato, atuou nesse sentido.

As discussões acerca da definição do novo presidente da Vale, por sinal, foram a principal evidência de que o governo de Dilma vai interferir mais em questões corporativas. O nome de Murilo Ferreira para ocupar o lugar de Roger Agnelli foi incensado por Dilma e o próprio Ferreira já foi avisado de que, a partir de agora, a empresa terá de investir mais no País em processamento do minério de ferro, que hoje é fundamentalmente exportado.

Nelson Barbosa, secretário-executivo do Ministério da Fazenda e economista muito próximo de Dilma, é expoente dessa visão mais nacionalista do papel das empresas na economia, principalmente as que exploram recursos naturais. A interlocutores, ele já questionou o fato de empresas gigantes lucrativas e estáveis recusarem um papel mais ativo na economia brasileira. Parte exatamente dessa visão a exigência de que a Vale invista em siderúrgicas ou de que as empresas agrícolas que venham a ser apoiadas pelo BNDES ofereçam uma contrapartida maior em termos sociais para o Brasil.

A mesma interpretação, de que a exploração de recursos naturais do País por grandes empresas deve compartilhar parte do ganho com a sociedade em geral, estabelece os critérios para exploração do petróleo no pré-sal, concebidos ainda no governo Lula. A mudança do governo anterior para este está exatamente em essa visão de extrapolar para novos setores além do petróleo, que é e um mercado praticamente monopolizado por uma estatal, conta um representante do governo.

Essa discussão sobre a maior intervenção dos governos nas economias foi inflada nas últimas semanas, depois que o Fundo Monetário Internacional (FMI), antes um libelo do pensamento neoliberal, passou a recomendar o uso de medidas de controle de capitais pelos países

Nova diplomacia

No campo diplomático, diversos fatores mostram uma mudança fundamental do governo Dilma, em direção a um perfil mais humanista. O primeiro foi a condenação do apredrejamento da Sakineh Ashtiani pelo governo do Irã, ainda no período de transição para o novo governo – o que era evitado por Lula por afinidades bilaterais com aquele país. Essa avaliação particular culminou em uma votação do governo brasileiro no Conselho de Direitos Humanos da ONU a favor de uma investigação no país.

Lula procurava tratar o Irã e seu líder, Mahmoud Ahmadinejad, com pouca agressividade, evitando condenações mesmo quando o ditador evitou investigações da ONU sobre seu aparato nuclear. Agora, Dilma, que foi torturada na ditadura brasileira, busca principalmente ratificar seu compromisso com os direitos humanos.

Outro sinal de alteração na política externa de Dilma em relação à de Lula pôde ser percebida na visita do presidente dos EUA, Barack Obama, ao Brasil no mês passado. Pela primeira vez, um presidente dos EUA visitou o Brasil antes de o inverso ocorrer. Durante a visita, Dilma também não economizou nas declarações em favor de um assento permanente para o Brasil no Conselho de Segurança da ONU, mesmo com as esquivas de Obama em tratar do tema.

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo no fim de semana, o assessor para assuntos internacionais da Presidência nos governos de Lula e Dilma, Marco Aurélio Garcia, assumiu que há diferenças na política externa entre os dois governos. Segundo ele, Lula sempre teve mais ênfase nas questões sociais, enquanto que Dilma “manterá essa sensibilidade do governo anterior, mas quer enfatizar as questões ligadas ao seu passado de prisioneira política”.

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