'É tudo muito caro. Não é uma vida fácil', diz Walter Feldman

Enviado pela administração Kassab para Londres por R$ 12 mil ao mês, ex-tucano diz também estar a serviço do Rio e do Brasil

Flávia D'Angelo e Nara Alves, iG São Paulo |

Escalado como uma espécie de correspondente da cidade de São Paulo em Londres, por um salário mensal de aproximadamente R$ 12 mil, o ex-tucano Walter Feldman diz estar a serviço do Brasil. O ex-tucano ficará pelo menos seis meses em solo europeu, estudando iniciativas dos Jogos Olímpicos na cidade. Em meio a críticas da oposição à iniciativa, o secretário diz ter se colocado à disposição do Rio de Janeiro, que vai sediar a próxima competição, em 2016.

"Encontrei com o prefeito do Rio. E falei: ‘Eduardo ( Paes ), eu sei que você vai mandar um representante, mas quero que você saiba que Rio de Janeiro para 2016 é Brasil. Então, todo mundo que puder ajudar o Rio está ajudando o Brasil, então use-me à vontade’. (...) Eu particularmente estou aqui com a ideia de ‘nem tudo para o Rio’, entende? Quero muito ajudar, mas tem muita coisa que São Paulo pode ter. E deve", afirmou Feldman.

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Feldman, em Londres, onde assumiu a função de secretário especial da gestão Kassab
Ao iG , o ex-tucano disse receber da prefeitura apenas seu salário de secretário. "É tudo muito caro. Não é uma vida fácil', disse. Ele negou que tenha planos de aderir ao PSD de Kassab e comparou a decisão da prefeitura de tê-lo como representante em Londres à ação do Itamaraty e das embaixadas brasileiras no exterior. Leia os principais trechos da entrevista:

iG - Como o senhor avalia primeira etapa da viagem?
Walter Feldman – Está excepcional. Cheguei no dia 28 de abril, portanto, faz três semanas. Já fui na semana passada para a Suíça participar de uma reunião mundial das cidades olímpicas. Encontrei lá o secretário de alto rendimento do Ministério dos Esportes, Ricardo Leyser, e passamos três dias juntos lá, ouvindo depoimentos de um negócio incrível chamado ‘Legado Olímpico’. Aqui se tem uma preocupação com o legado. Já fiz o primeiro relatório da primeira etapa da viagem. É tão surpreendente o aproveitamento desses eventos para deixar um patrimônio definitivo para os próximos 100 anos. Se incorporar de fato essas coisas, nós teremos ao final dos jogos olímpicos de 2016 uma cidade do Rio de Janeiro diferente, seguramente as grandes cidades brasileiras terão paradigmas melhores, e como elas podem se transformar. É incrível.

iG - Como o senhor recebeu o convite? É para ser correspondente em Londres? Como foi criado o cargo e como foi o processo para a nova função?
Feldman – Na verdade, o que aconteceu foi o seguinte. Eu recebi o telefonema do ( Carlos Arthur ) Nuzman, do Comitê Olímpico Brasileiro, sobre a possibilidade de ter um representante de São Paulo e do Rio de Janeiro aqui em Londres para acompanhar o desenvolvimento, o gerenciamento, a organização e a construção do legado da cidade pós-2012. O prefeito ( Gilberto Kassab ) imediatamente recebeu uma carta do Nuzman, e eu disse ao Nuzman que achava interessante o convite e por estar licenciado da Câmara Federal. É um período curto, com seis ou sete meses no máximo. Já estou recebendo convite para ficar aqui até a realização dos jogos, em julho. (...) O Rio de Janeiro está tendo uma chance única. Se soubermos aproveitar podemos ter uma cidade do Rio de Janeiro que sempre quisermos ter. Infelizmente não é. É preciso melhor segurança, transportes. Para os jogos e pós-jogos.

iG - O senhor então está representando o Rio de Janeiro também?
Feldman – Na verdade, o Nuzman pediu para que um membro do Rio de Janeiro fosse, mas eu, nesse encontro da Suiça, me encontrei com o prefeito do Rio. E falei: ‘Eduardo ( Paes ), eu sei que você vai mandar um representante, mas quero que você saiba que Rio de Janeiro para 2016 é Brasil. Então, todo mundo que puder ajudar o Rio está ajudando o Brasil, então use-me à vontade’. (...) Eu particularmente estou aqui com a ideia de ‘nem tudo para o Rio’, entende? Quero muito ajudar, mas tem muita coisa que São Paulo pode ter. E deve.

iG - Então é necessário, na sua avaliação, estar aí presencialmente?
Feldman – Olha, aí seria uma questão que a gente poderia perguntar: será que os embaixadores precisariam estar presentes ( nos países )? Será que não daria para através do Ministério de Relações Exteriores no Brasil e através da internet e correspondência construir essa relação global? Bom, se tem uma coisa boa no Brasil de longa data é o Itamaraty, não é? (...) Eu hoje defendo que São Paulo, além do Itamaraty, precisa ter firmes pontos de contatos em outros pontos do planeta para poder captar coisas importantes que estão acontecendo, porque são oportunidades únicas que não voltam mais. Acho que São Paulo deveria ter estado em Pequim para ver a grandiosidade do evento, deveria ter ido a Copenhagen. Porque o que aconteceu em termos de evento, de mobilização da sociedade, de cultura, de práticas ambientais é algo que a gente precisa. Estou aqui há três semanas, até por uma questão de visão pessoal, analisando o uso da bicicleta.

iG - O senhor anda de bicicleta por aí ?
Feldman - Já estou andando sim. Tem um sistema muito bom aqui ligado a um banco com um sistema de aluguel na cidade inteira. Eu posso marcar, se quiser, uma audiência com o prefeito de Londres e levo isso em dois dias ao Brasil. (...) O Brasil precisa viver os Jogos Olímpicos do Rio como se fosse o Brasil inteiro se movimentando e se transformando. Senão vai ficar uma coisa só para o Rio, o que não é uma boa coisa para nós. Estou fazendo aqui uma experiência de vanguarda e modelo que pode dar certo ou não dar, mas estou absolutamente encantado com as portas que estão se abrindo.

Secretário, o senhor recebe um salário de R$ 12 mil?
Feldman – Este é meu salário de secretário.

O custo de suas despesas é pago pela prefeitura?
Feldman – Não, não. Só recebo meu salário. Nada além do meu salário.

Sem ajuda de custo para despesas?
Feldman - Não, não tem ajuda de custo. O prefeito me convidou para participar de conselhos de empresa para tentar trazer experiência tanto para a área tecnológica como para as áreas de transportes e logística. Também estou participando. Já participei de reuniões antes mesmo de vir para cá.

Quais empresas?
Feldman - Prodam e CET. Então, não tenho nenhuma ajuda de custo aqui. Digo para você que não é uma vida barata.

O senhor já está instalado por aí?

Feldman – Estou em um apartamento que eu aluguei. O aluguel é cobrado por semana. Dá em média 1.500 ( libras ) por semana. É um negócio muito caro. Uma passagem de metro dá mais de R$ 10. Aluguei por seis meses e consegui um abatimento, mas é tudo muito caro. Não é uma vida fácil.

Dizem também que o Kassab transferiu o senhor como uma manobra política para atrair o PMDB. É verdade?
Feldman – O pessoal fica especulando se eu vou ou não para o PSD. Eu não precisaria de nenhum arranjo político ( para ir a Londres ). Eu tenho mandato e é muito visível que eu nunca participei de arranjo nenhum. Nunca fui objeto, ou vítima, ou beneficiado de qualquer arranjo. O PMDB foi para o governo por uma decisão do prefeito, mas veja bem, que arranjo que o prefeito precisaria fazer tendo em vista que logo em seguida se anunciaria a ida do ( Gabriel ) Chalita para o PMDB como candidato a prefeito, portanto uma oposição ao prefeito. Que arranjo estranho é esse em que se traz um partido para dentro aonde terá um candidato a prefeito de uma legenda que se será adversária?

O senhor então vai para o PSD do Kassab? Qual é o rumo após essa experiência?
Feldman – Não. Nunca pensei nessa possibilidade. O Kassab nunca me constrangeu para que como um secretário dele eu tivesse que ir. Ele me deu toda a liberdade para escolher.

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