'Dinamizador' da Unasul, Lula se despede do bloco

Lula, que ajudou a construir a Unasul em seus dois mandatos, participará de jantar em sua homenagem

BBC Brasil |

O presidente Luiz Inácio da Silva viaja a Georgetown, na Guiana, nesta quinta-feira, para participar da 4ª Reunião do Conselho de Chefes de Estado e de Governo da Unasul, seu último encontro com o bloco sul-americano que ajudou a construir em seus dois mandatos à frente da Presidência. "A despedida de Lula tem como símbolo essa construção", afirmou à BBC Brasil Luis Fernando Ayerbe, diretor do instituto de estudos Econômicos e Internacionais da Unesp. "A Unasul é o ponto culminante do processo de promoção de autonomia da região frente a atores externos e de resolução de crises regionais", acrescentou.

Para o analista político Juan Gabriel Tokatlián, da Universidade San Andrés, de Buenos Aires, Lula se converteu "no principal gestor" da Unasul e, a seu ver, foi o presidente quem "aprofundou" e "dinamizou" a iniciativa de integração da América do Sul que vinha sendo desenhada ainda no governo de seu antecessor Fernando Henrique Cardoso.

"Lula confirmou o interesse do Brasil de consolidar sua presença e sua influência na América do Sul e mostrou que o Brasil não só lança, mas também coloca suas iniciativas diplomáticas em prática", afirmou Tokatlián.

União no subcontinente
Criada em 2008, em Brasília, a Unasul é sucessora direta da Comunidade Sul-Americana de Nações (Casa), iniciativa lançada pelo Brasil, em 2004, com a intenção de concretizar a integração regional no âmbito econômico e social. O processo marcou a primeira iniciativa de colocar em prática a ideia de união no subcontinente, e não da América Latina como um todo.

A despedida de Lula da Unasul será marcada pela ausência da presidente eleita Dilma Rousseff, que na quarta-feira cancelou a participação no jantar em homenagem a Lula, programado para esta quinta-feira.

Sua participação no jantar chegou a ser divulgada no início da semana. A assessoria de Dilma informou que a presidente eleita não viajará ao encontro da Unasul alegando problemas de agenda cheia. A princípio, ela deverá passar o dia em Brasília em reuniões com a equipe de transição do governo. Seria o primeiro encontro de Dilma com os líderes sul-americanos.

Institucionalização
Apesar dos avanços obtidos com a Unasul, para Tokatlián, a política externa brasileira no novo governo deverá "olhar mais" à América do Sul. Ele cita como focos de preocupação "o crime organizado, os desafios de limitar tensões binacionais que possam se derramar sobre o Brasil, o desafio de fazer da América do Sul uma zona de paz ". "Dilma vai continuar com uma agenda internacional importante, mas terá necessariamente que prestar mais atenção à região", acrescentou.

Para Ayerbe, o desafio da Unasul agora é consolidar-se como instituição, "capaz de construir uma agenda própria", que possa ir além da "arbitragem" de conflitos entre os vizinhos. "Isso deverá se consolidar na gestão da presidente Dilma", afirmou.

Projetos de integração em infraestrutura e mecanismos de compensação para a redução das assimetrias econômicas entre os países são apontados como os principais desafios do bloco.

Cláusula democrática
Na reunião desta sexta-feira, o Equador, que entrega a presidência temporária do bloco à Guiana, deve apresentar uma proposta de protocolo adicional da chamada cláusula democrática da Unasul. A iniciativa foi aprovada na reunião de emergência do bloco, realizada em setembro, em Buenos Aires, para avaliar a crise política no Equador, interpretada pela região como uma tentativa de golpe de Estado contra o presidente equatoriano, Rafael Correa.

A medida deve prever sanções políticas, como a expulsão dos países cujos governos eleitos sofram um golpe de Estado, e econômicas, como a suspensão imediata do comércio, tráfego aéreo, e o fechamento das fronteiras dos países limítrofes.

Outro assunto que os presidentes devem discutir, mas que dificilmente tomarão uma decisão nesta sexta-feira, será a candidatura do novo secretário-geral da Unasul, cargo que era ocupado pelo ex-presidente da Argentina, Néstor Kirchner, que faleceu em outubro.

Havia rumores na região que Lula poderia ser o substituto de Kirchner, mas essa hipótese foi rejeitada pelo Planalto.

Sem Lula, o nome mais cotado, por enquanto, é o do ex-presidente do Uruguai Tabaré Vasquez, que tem presença e trânsito entre os chefes de Estado da região e "disponibilidade" para exercer o cargo, indicaram fontes do governo do Brasil e Venezuela. Outro nome que pode aparecer no debate é o da ex-presidente chilena Michelle Bachelet.

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