"Dilma tem de ter uma colaboração com Aécio", diz Tarso ao iG

Futuro governador Rio Grande do Sul defende aproximação do Planalto com ala tucana ligada ao senador eleito

Leandro Beguoci, iG São Paulo |

O governador eleito do Rio Grande do Sul, Tarso Genro afirma em entrevista ao iG que o fortalecimento do tucano Aécio Neves é bom para a presidenta eleita Dilma Rousseff . Ele avalia que o senador eleito por Minas Gerais - que ele classifica como centrista em contraposição a José Serra, que chama de direitista - será uma peça-chave para que Dilma tenha um relacionamento melhor com o Parlamento do que teve o presidente Luiz Inácio Lula da Silva . Diferente de Serra, ele afirma que Aécio não é hostil ao governo. Genro não descarta, inclusive, apoiar o nome do tucano à Presidência do Senado, desde que isso seja acertado com a base aliada.

Além disso, Tarso lista três prioridades essenciais para o sucesso do governo e avalia que não há espaços para mudanças na política externa do Brasil, embora Dilma tenha discordado de algumas posições do governo no campo dos direitos humanos. Por fim, vê na sua eleição ao governo do Rio Grande do Sul um marco histórico, algo semelhante ao “nunca antes na história deste País” de Lula. Genro afirma que, pela primeira vez, foi possível romper a tradicional polarização política gaúcha - que ele chama de artificial.

Caco Argemi/Divulgação
Ao defender aproximação, petista procura diferenciar Aécio do candidato derrotado ao Planalto José Serra
Na prática, a partir de janeiro o PT vai governar com partidos com os quais tinha sérios problemas no passado, como PTB e PDT. “Essa polarização artificial foi rompida agora, em cima de um programa de governo de outra natureza e com um discurso ideológico de formação de um novo bloco social dirigente aqui no Estado, tanto partidário como na estrutura de classes da sociedade”, explica o petista, que vai suceder a tucana Yeda Crusius.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista com Tarso, realizada no Centro de Treinamento da Companhia de Processamento De Dados do Rio Grande do Sul, onde trabalha a equipe de transição do governo.

O senhor vai governar com o PTB, que durante anos foi um grande adversário do PT no Estado. Pesquisas mostram que os eleitores gaúchos votaram no senhor e em José Serra, do PSDB. Um dos seus objetivos políticos é diminuir a polarização política no Rio Grande do Sul?

Sim. A polarização aqui já tinha se tornado artificial.

Por que artificial?

Ela é mais marcada por antagonismos ideológicos longínquos do que por diferenças em relação ao conteúdo de um projeto para o Estado. O Rio Grande do Sul tem uma história de polarização originária, desde a sua formação passando pelo futebol. No plano da política, isso cristalizou determinadas posições que impediram o surgimento de um centro político no Estado, que transitasse ora para um lado ora para outro, dando apoio em torno de questões programáticas e pragmáticas.

Faltou um partido, no Rio Grande do Sul, que faça o que o PMDB faz na esfera federal?

O PMDB gaúcho sempre foi, 90% dele, contra o PT. Ele sempre se pautou contra o PT e contra o governo do presidente Lula. São raros os líderes do PMDB que apóiam o presidente Lula. Isso gerou uma polarização artificial. A consequência disso são políticas demarcatórias tanto à esquerda quanto à direita. Demarcar, para nós do PT, significava isolar determinados setores, tendo uma hegemonia cristalizada pela esquerda, e a direita demarcava tentando isolar o PT. Essa polarização artificial foi rompida agora, em cima de um programa de governo de outra natureza e com um discurso ideológico de formação de um novo bloco social dirigente aqui no Estado, tanto partidário como na estrutura de classes da sociedade. Nós mostramos que isso é possível.

Quem é esse centro? PTB e PP?

O centro é representando pelo PTB, por setores do PP e por setores do PDT. O PDT tem lideranças de centro e de centro-esquerda. Hoje, temos um regime de diálogo com o PP. Eles não compõem o governo, mas vamos conversar. Já o PTB e o PDT compõem o governo conosco. Nós construímos uma frente política que tem como núcleo os partidos da esquerda, mas que dialoga e respeita o centro. Com isso, o centro também passou a nos respeitar. Isso nos permitiu reorganizar o sistema político do Estado, o sistema de alianças do Estado, com a vantagem de que a referência passa a ser o programa, e não as que elas ideológicas anteriores.

O senhor acha que algo semelhante está acontecendo no Brasil? Aécio Neves está procurando justamente os partidos que são aliados tradicionais do PT, como o PSB, e está se afastando de antigos aliados, como o DEM.

O governo Dilma tem de procurar ter uma relação de colaboração com o Aécio e com os liderados do Aécio. Esse regime de colaboração não quer dizer neutralizá-los como oposição nem trazê-los para o governo. Eles têm de buscar pontos que interessam a ambas as formações políticas em uma perspectiva em direção ao futuro. Os interesses do Aécio não são os mesmos interesses do José Serra. O Serra representa muito mais aquela elite paulista retrátil ao resto do Brasil do que o Aécio. O Aécio, ideologicamente, é próximo ao Serra. Porém, ele representa um bloco social, um bloco político-ideológico, que pensa o Brasil de uma maneira mais universal. Ele não pensa igual a nós, mas pensa de uma maneira mais universal. Então, tem de haver um diálogo que possibilite o credenciamento do Aécio como líder da oposição, mas que produza, a partir daí, algum tipo de responsabilidade comum para que a democracia no Brasil continue se reforçando, o Estado de Direito continue operando e as eleições periódicas sejam o momento de confronto.

Esse regime de colaboração passa por apoiar o Aécio à Presidência do Senado, como defende Cid Gomes, governador do Ceará?

Tudo depende da correlação de forças no Senado. O governo deve prospectar suas bases no Senado para saber se isso dá estabilidade para o governo funcionar, para que não exista na cabeça do Senado uma estrutura hostil de poder. Essa é a questão essencial.

O Aécio seria hostil a Dilma?

Não, em princípio não. Agora, isso tem de ser verificado pontualmente porque um regime de diálogo com a oposição não pode ser também a criação de um obstáculo para o governo governar, um governo que tem maioria. Tudo depende do pacto que for realizado. Identifico na figura do Aécio não uma pessoa que tenha maior proximidade ideológica ou programática conosco, senão ele teria nos apoiado. Vejo no Aécio uma pessoa que tem uma visão diferente do Brasil do que tem o Serra. Serra foi um candidato que tentou fazer todo o serviço da direita, desde os preconceitos ideológicos que ele disseminou durante a campanha até o apoio maciço que ele teve de grande parte da imprensa do Brasil. Essa imprensa sempre foi hostil ao projeto que nós representamos. Isso, claro, não é nenhuma irregularidade. É normal que a imprensa tenha suas preferências. Mas ele, como candidato, representou um pólo claramente direitista em contraposição à Dilma.

O senhor acha que o Aécio está no centro?

Sim, ele é um centrista. Ele tem condições de dar consistência para uma oposição democrática no Brasil, sem radicalizar e sem estabelecer confrontos institucionais irrelevantes, como foram esses confrontos que a Câmara e o Senado tiveram com o presidente Lula nos últimos anos. Esses confrontos se mostraram irrelevantes e desnecessários, cristalizaram posições irracionais, artificiais.

O senhor falou sobre a criação de consensos entre governo e oposição. Qual deve ser a agenda da presidenta Dilma para os próximos anos?

Ela deve manter o financiamento, pelo Estado, do desenvolvimento descentralizado, por meio de investimentos públicos, induções tributárias regionalizadas pelo País. Ela deve enfrentar pesadamente a questão da saúde no Brasil, que é uma questão não resolvida, apesar do trabalho brilhante feito pelo meu amigo, o ministro Jose Gomes Temporão. Ele fez um bom trabalho, mas contou com poucos recursos. Por fim, ela deve enfrentar, de maneira definitiva, a questão da segurança pública, que o governo do presidente Lula já começou a enfrentar. Esses são os três grandes eixos de políticas públicas que a presidenta Dilma deve desenvolver. E eu estou identificando no discurso dela esses eixos.

Dilma tem dado sinais de que haverá mudanças em relação ao governo Lula. Uma dessas mudanças é na política em relação ao Irã. Como o senhor avalia essa mudança?

Em relação ao Irã, o que pode haver é inflexões sobre questões como as políticas em relação às mulheres. Mas não haverá mudanças na política externa brasileira, até pelo que eu conheço dos dois personagens, o Celso Amorim e o Antonio Patriota, dois dos mais brilhantes integrantes do nosso Itamaraty. Eles têm muita identidade. Inflexões acontecerão, isso sempre ocorre de um governo para outro. A base pela qual se toma decisões de política internacional é muito movediça. O presidente Lula teve, durante quase todo o seu mandato, o George Bush. Dilma provavelmente terá Obama como interlocutor.

O senhor acredita que o governo Dilma vai propor um marco regulatório para a mídia, como ela tem sinalizado?

Não há um intento do governo em relação à regulamentação da mídia. Há um intento do governo de discutir uma política geral de comunicação que aumente a pluralidade, que dê vazão à pluralidade, inclusive com o surgimento de novos meios de comunicação e informação, mas sem destinação de regulamentar a produção e a circulação de opinião. Essa é uma discussão que ocorre em todo o mundo, de estimular a pluralidade da informação, dos meios de informação, e dar vazão cada vez maior a uma opinião pública cada vez mais aberta e livre, essa é uma preocupação de todos os governos e não deve ser tida como regulamentação da mídia.

A população do Rio Grande do Sul tem uma média de escolaridade superior à do País. Nos últimos anos, muitas dessas pessoas têm migrado para outros Estados e para o exterior por conta do baixo crescimento econômico do Estado. Como o senhor pretende oferecer melhores oportunidades às pessoas que moram aqui?

A questão-chave que originou esse processo foi a falta de um projeto de indução da base produtiva local. A base produtiva do Rio Grande do Sul se origina da Segunda Revolução Industrial e da agroindústria da agricultura familiar. A falta de qualificação produtiva desse setor é que gerou essa migração de mão de obra. Todos os grandes incentivos que o Estado deu, por meio de incentivos tributários e políticas fiscais, são incentivos de grandes investimentos de fora que se acoplam a uma determinada região metropolitana e não são distribuídos territorialmente.

O senhor pode dar um exemplo?

A indústria automobilística. Nós não pretendemos romper com essa política de atração de empresas de fora, mas precisamos criar uma política para alocar investimentos pautados regionalmente. O Estado tem de dizer onde tem de fazer e criar infraestrutura para isso. Então você vai ter condições de estimular a base produtiva local e chamar empresas de fora, que se aloquem nessas regiões. Em vez de dar um estímulo fiscal de R$ 500 milhões, nós preferimos dar dez estímulos de R$ 50 milhões, alocá-los regionalmente, em vez de dar um estímulo único para uma região metropolitana já saturada.

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