'Dilma se precipitou', diz deputado sobre suspensão de kit contra homofobia

Jean Wyllys (PSOL) diz que bancada evangélica teve reação histérica e compara ao ocorrido no 2º turno das eleições de 2010

Flávia Salme, iG Rio de Janeiro |

Divulgação/ Agência Câmara
Deputado afirma que campanha contra kit que combate homofobia tem como alvo o PLC 122, que criminaliza a homofobia: "Querem criar uma onda de terrorismo", acusa
Assumidamente gay e um dos maiores defensores das causas LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Travestis e Transsexuais) na Câmara, o deputado federal Jean Wyllys, do PSOL, recorre à máxima de Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto) para comentar a decisão da presidenta Dilma Rousseff de suspender a distribuição de cartilhas contra homofobia nas escolas públicas. “Me lembra o Febeapá, o Festival de Besteiras que Assola o País”, revolta-se.

Wyllys diz que a bancada evangélica, com o apoio de “setores da imprensa”, detonou uma “histeria coletiva sobre o tema”, por conta da “maneira mentirosa” como a proposta do kit contra a homofobia foi apresentada à sociedade. “( O deputado ) Garotinho e companhia apresentaram um material do Ministério da Saúde para a redução de danos entre travestis como se fosse o projeto Escola sem Homofobia. Isso é agir de má fé”.

Para o parlamentar, a presidenta Dilma Rousseff agiu açodadamente sobre o tema. “Achei precipitado a presidenta tomar uma decisão sem ouvir os atores em questão. Ela devia ter conhecimento de todos os pareceres favoráveis ao projeto . Os pareces da Unesco, do Conselho Federal de Psicologia, da UNE, e do próprio Conselho de Classificação Indicativa. Não é possível que essas instituições estejam erradas”, sustenta.

Wyllys acredita que a “grita” da bancada evangélica em torno do kit contra a homofobia tem um alvo: o PLC 122 (que criminaliza a homofobia). “Essa campanha já está em curso. Tentam criar uma onda de terrorismo, uma histeria coletiva, como fizeram no segundo turno das eleições.”

Eleito com 13.016 votos, graças aos 240.671 mil votos que seu colega de legenda, o deputado Chico Alencar, cabalou no último pleito, o parlamentar Jean Wyllys (PSOL) está certo de que seu mandato ganhou vida própria. “Meu partido alcançou um número de votos suficiente para eleger dois deputados. Fui o segundo mais votado, não vim na rabeira de ninguém”, avalia. “Faço meu trabalho com muita honestidade”.

A seguir, o político – e ex-BBB – analisa em detalhes a polêmica em torno do kit contra homofobia, comenta sobre seu mandato e diz que ainda não pode aproveitar a decisão do STF que reconheceu a união estável entre casais homoafetivos. “Parece que as pessoas perderam o interesse sexual em mim. Estou solteiro”, informa. Veja mais:

iG: Como o senhor recebeu a declaração da presidenta Dilma de que “não concorda” com o kit contra homofobia?
Jean Wyllys : Achei precipitado a presidenta Dilma tomar uma decisão sem ouvir os atores em questão. Muitos representantes do PT entraram no meu Twitter para falar que fui imperito politicamente por pressionar a presidenta. Que mecanismos nós temos no Estado Democrático de Direito senão as pressões? E olha que estou falando da grande política, não da política suja feita por aqueles que apresentaram um material que não é verdadeiro. A presidenta tinha que ter ouvido o ministro Fernando Haddad, a secretária Cláudia Dutra, as entidades parceiras, a frente LGBT. E deveria ter conhecimento de todos os pareceres favoráveis a esse projeto. Os pareceres da Unesco, do Conselho Federal de Psicologia, da UNE, e do próprio conselho de classificação indicativa. Não é possível que essas instituições estejam erradas.

iG: O senhor acusa “alguns deputados” da bancada evangélica de “mentir” sobre o kit.
Jean Wyllys:
Houve um seminário LGBT e o ( deputado ) Garotinho (PR) e companhia estavam apresentando um material aos outros deputados presentes na Câmara. Vi o material, fui alertado pela deputada Jô Moraes, do PC do B. E o que estava nas mãos deles não era kit do “Escola sem Homofobia”. Pegaram o material do Ministério da Saúde de redução de danos entre travestis e apresentaram como se fosse kit, provocando terrorismo. Agiram de má fé deliberadamente.

iG: O que o senhor classifica como terrorismo?
Jean Wyllys:
Deputados da bancada evangélica e o Bolsonaro (PP) diziam que o kit ia seria liberado para crianças de seis anos. Não é verdade. O projeto foi criado para ser distribuído para alunos do ensino médio, professores e monitores. As escolas não seriam obrigadas a receber o kit, teriam que solicitar as cartilhas e os vídeos, que teriam manual de uso. Aí eu lhe pergunto: Como a mentira pôde prevalecer?

iG: Acredita que o governo cedeu à chantagem, já que parlamentares contrários ao projeto ameaçaram convocar o ministro-chefe da Casa Civil, Antônio Palocci, para dar explicações na Câmara?
Jean Wyllys
: Mas é claro! Não sou ingênuo. É obvio que ficou muito mais fácil de chantagear a presidenta, e aí não há outra palavra, com o material falso. Mas eles também tinham outras moedas de troca, como a votação do Código Florestal e o caso Palocci. Está todo mundo vendo, está posto. Não gostaria de ver o governo Dilma desestabilizado, mas também não posso deixar de fazer a minha parte nessa história. Sou oposição ao governo, e faço uma oposição responsável. Não posso me calar diante desse absurdo.

iG: O senhor faz coro com os que defendem que o ministro Palocci tem que dar explicações sobre sua evolução patrimonial?
Jean Wyllys:
Claro. As pessoas públicas não têm que ter senões. Se tudo é lícito, não tem por que não aceitar a convocação para se explicar. Não estou dizendo que o que ele tá fazendo é ilícito. Estou dizendo que esse enriquecimento em tão pouco tempo numa atividade que de alguma maneira mistura interesses públicos e privados precisa ser esclarecido. É normal que o governo esteja pressionado por esse motivo. O que é absurdo é que isso seja usado por determinados grupos de parlamentares como moeda de troca.

iG: Na sua avaliação, ainda há tempo de salvar o kit contra a homofobia?
Jean Wyllys:
Não há motivo para a presidenta ter suspendido esse projeto. Eu sei que ela não cancelou. Mas suspendeu por quê? Como suspendeu um projeto que já recebeu verba pública e foi aprovado por várias instâncias? Não pode. Apesar de todas as críticas que possamos ter ao governo do PT, é inegável que foi ele o que mais avançou no sentido de estender a cidadania para os homossexuais. O Lula fez um trabalho interessante. Claro que há a expectativa de que a presidenta Dilma dê continuidade a esse trabalho e avance ainda mais. Esse projeto é importantíssimo para uma política publica de educação que erradique o bullying homofóbico entre garotos e garotas adolescentes nas escolas públicas brasileiras.

iG: O senhor acha que a polêmica em torno do kit pode refletir na votação do Projeto de Lei Complementar 122 (que classifica a homofobia como crime) no Senado?
Jean Wyllys:
O alvo dessa celeuma é o PLC 122. A cartilha é apenas um meio. Eu já recebi no meu e-mail institucional uma mensagem apócrifa pedindo para que os deputados não votem nesse projeto porque ele vai legalizar a “pedofilia, a imoralidade e o fim da família brasileira”. Se eu recebi, todos os outros deputados também receberam. Essa campanha já está em curso. É criar uma onda de terrorismo, uma histeria coletiva, como fizeram no segundo turno das eleições.

iG: Já foi vítima de preconceito em Brasília?
Jean Wyllys:
As pessoas me tratam bem, me respeitam. Pelo menos na minha frente, não sei por trás. Tenho relação excelente com alguns deputados evangélicos. Até mesmo o Garotinho. Semana passada tivemos uma conversa na cantina da Câmara. Contundente, mas civilizada. Fui reclamar da política que ele estava fazendo, apresentar outro material. Claro que ele fugiu do assunto e veio me cobrar questões conceituais. Perguntou se a homossexualidade era genética ou opção. Na cabeça dele é uma opção. A gente simplesmente acorda um dia e fala “Oi, eu vou ser homossexual, vou experimentar toda a sorte de violência, porque eu gosto”. Apesar disso, há respeito. A única pessoa com quem eu não tenho nenhuma relação é com o deputado Jair Bolsonaro, porque é impossível ter qualquer relação com as pessoas que tratam as coisas da maneira como ele trata.

iG: O senhor foi eleito com pouco mais de 13 mil votos. Muitos creditam sua eleição à expressiva votação do deputado Chico Alencar, que obteve mais de 240 mil votos?
Jean Wyllys
: Primeiro, as pessoas não compreendem o processo eleitoral nosso, que é injusto. Empresas botam rios de dinheiro nas mãos de determinados candidatos, não porque acreditam no programa daquele candidato, mas por razões que eu não quero me alongar aqui para discutir. Fiz uma campanha barata, invisível, e, mesmo sem cartaz nas ruas, adesivos, outdoor, comes e bebes, e tempo de TV, consegui ser o segundo mais votado no partido. Tem que levar em conta isso. O meu partido fez um número de votos suficiente para eleger dois deputados. Não vim na rabeira de ninguém. Agora, a votação expressiva do deputado Chico Alencar, mas os votos recebidos pelo meu partido, mais os meus próprios votos, garantiram a minha eleição. Tenho de fazer o meu trabalho. E faço com muita honestidade.

iG: Com a decisão do STF, que passou a reconhecer a união estável entre casais gays, o senhor pretende casar?
Jean Wyllys
: Pretendo, claro. Mas no momento estou solteiro. Acho que a figura pública e o engajamento nas questões sociais fizeram com que as pessoas perdessem o interesse sexual em mim. Parece que quando você vira a representação de uma luta você perde a sexualidade, de modo que as pessoas chegam para mim e falam “Bacana, Jean, obrigada por você representar a gente tão bem”. Mas ninguém diz “Oi, tudo bem? Bacana, mas vamos tomar um drink?” (risos).

    Leia tudo sobre: kithomofobiadilma rousseffjean wyllysgarotinho

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG