Dilma inova em discurso de posse e prefere investimento a sonho

Nuvem de palavras do iG mostra termos mais usados por Dilma, FHC e Lula e deixa clara diferença entre presidenta e antecessores

Leandro Beguoci, iG São Paulo |

A presidenta Dilma Rousseff não inovou apenas ao falar de etanol no seu discurso de posse e fazer uma homenagem às mulheres, que com ela chegam pela primeira vez ao principal posto da República. Diferente dos seus antecessores Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso , a sucessora de Lula fez do discurso de posse uma lista de obras e projetos em andamento e que precisam melhorar ou continuar. Em seus primeiros discursos ao Congresso, tanto Lula quanto FHC preferiram falar do País dos seus sonhos.

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As palavras mais usadas por Dilma em seu discurso ao Congresso
Na “nuvem de palavras” feita pelo iG essa mudança de padrão fica bem clara. Na nuvem aparecem os termos mais usados por Dilma, Lula e FHC quando eles se tornaram inquilinos do Palácio do Planalto. Quanto maior a palavra, mais vezes ela apareceu no discurso. No caso de Dilma, “qualidade”, “investimento”, “política”, “força”, “governo” e “crescimento” estão entre as palavras mais citadas. Também aparece na lista, com destaque, sua homenagem às mulheres: termos como “brasileiras”, “queridas” e “mulher” também são alguns dos destaques do seu texto.

O discurso de Dilma fica no meio do caminho entre o discurso de posse de Lula e de FHC, no primeiro mandato, e dos dois ex-presidentes, no segundo mandato. Se o primeiro discurso mostra o que eles querem fazer, no segundo eles enfatizam o que podem fazer. O primeiro é o do sonho. O segundo, o da realidade. Dilma chegou a se emocionar falando de sonhos e da importância de concretizar sonhos na Presidência, mas seu discurso teve menção a alguns assuntos ausentes nos textos inaugurais dos seus antecessores, como política tecnológica. Temas deste tipo geralmente aparecem no texto do segundo mandato.

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Principais termos que Lula empregou em seu discurso, de 2007
O Lula de 2007, que ganhou o direito de ficar mais quatro anos no Planalto após sobreviver ao escândalo do mensalão, é bem diferente do Lula de 2002. Entre as palavras mais presentes no discurso de 2002 estão “sonho”, “fazer”, “povo”, “abraço”, “fome” e o tradicional “companheiro”, para agradecer a quem lhe ajudou a chegar à Presidência.

No de 2007, os “companheiros” continuam, agora do mesmo tamanho que “companheiras”. Isso é bastante simbólico, uma vez que Dilma deixara o Ministério das Minas e Energia em 2005 para se tornar a principal assessora de Lula, na Casa Civil. Também continuam termos como “sonho”, “povo” e “fome”, agora acompanhados por palavras como “crescimento”, “contas”, “internacional” e “crise”. Um adendo: a palavra companheiro só aparece uma vez no discurso de Dilma, ao falar sobre o ex-vice-presidente, José Alencar.

Entre os dois governos, Lula fez nascer o “Fome Zero”, viu o seu fracasso, gestou o “Bolsa Família” e superou a maior crise do seu mandato, o escândalo do mensalão. Driblou a desconfiança internacional

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As principais palavras do discurso de Lula ao Congresso, em 2003
em relação à política econômica, melhorou as contas do País e criou o Plano de Aceleração do Crescimento, o PAC. O Lula de 2003 agradeceu à imprensa por ajudar na consolidação da democracia no Brasil. O Lula de 2007 diz que mudou nos últimos anos, lamenta o que não conseguiu realizar e critica, sem citar nomes, as pessoas e instituições que, segundo ele, tentam falar em nome da opinião pública, um ataque velado à mídia.

FHC segue a mesma linha. O que muda é apenas o tom. O tucano, mais professoral, fala da importância das reformas que tornem o Brasil um País mais justo, antecipa os Brics (em 1995, ele já falava da importância de dialogar com países como China, Índia e Rússia), cita o patriarca da Independência, Joaquim Nabuco, e abusa de conceitos emprestados da sociologia e da política. Os discursos de Lula são mais centrados na sua história, no autoelogio de que a sua trajetória de vida o credencia a fazer as mudanças que, ele avalia, o Brasil precisa. FHC não cita Deus. Lula cita Deus nos dois discursos. Dilma também, ao final do seu discurso de posse.

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A nuvem de palavras do discurso de Fernando Henrique Cardoso, em 1999
As palavras mais citadas por FHC em seu discurso, em 1995, são “desenvolvimento”, “povo”, “grande”, “cidadania”, “inflação” e, para dar lenha a quem diz que ego é uma das condições para assumir a Presidência da República: a palavra “eu” é uma das mais presentes no discurso do tucano. Também estavam bastante representados naquela tarde de 1995 termos como “liberdade” e “economia”. Em seu discurso, o tucano enfatizou a transição entre a ditadura militar e a a democracia, argumentando que sua eleição era um sinal claro de que o Brasil havia superado o período autoritário. Além disso, aquele foi um discurso em que o tucano celebrou o fim da inflação e as medidas econômicas tomadas no governo de seu antecessor, Itamar Franco, de quem FHC foi ministro da Fazenda.

Em 1999, cresce o número de vezes que a palavra “congresso” é citada, “políticas” aparece com destaque e “estabilidade” se impõe como um dos termos mais caros ao então presidente. As inflexões ocorridas entre os dois discursos de Fernando Henrique Cardoso contam como seu governo passou da esperança do Plano Real, em 1994, para as sucessivas crises internacionais que enfrentou, como as da Rússia e a do México, e as domésticas, com o Congresso. Foram momentos em que a ameaça à estabilidade política e econômica, conquistadas com o Plano Real, estiveram sob risco.

Em seu primeiro mandato, FHC conseguiu aprovar as privatizações e algumas das reformas que modernizaram o País. Contudo, também foi neste mandato

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Os termos mais usados por FHC em seu discurso ao Parlamento, em 1995
que ele aprovou a emenda que lhe deu o direito de concorrer à reeleição, um processo marcado por denúncias de compras de voto. Tal como Lula, ele passou do elogio à imprensa no primeiro discurso para a crítica às pessoas e instituições que, segundo ele, tentavam falar em nome da “maioria silenciosa” do Brasil.

Ao final, por mais diferentes que sejam os presidentes, seus planos de governo e seus estilos, do acadêmico FHC, do boleiro Lula e da Dilma obcecada com projetos estruturantes, existe uma certa liturgia do discurso. Primeiro, prometa e projete o futuro. Corrija o rumo depois, caso consiga a reeleição.

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