'Deveriam pedir desculpas', diz Lula sobre imprensa

Em sua última viagem oficial, presidente afirma que imprensa estava acostumada com governos que ficam com 'bunda na cadeira'

Nara Alves, enviada a Salvador |

Em sua última viagem oficial antes de deixar o cargo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a subir o tom contra a imprensa e governos que o antecederam. Num discurso em que evidenciou mais uma vez sua insatisfação com o tratamento que recebeu dos meios de comunicação durante o governo, Lula teceu sucessivos elogios a sua administração, comparou-se a chefes de Estado estrangeiros e disse que a imprensa lhe deve "desculpas". 

A cobrança veio em referência a notícias de que o governo teria dificuldade de cumprir a meta de chegar a 1 milhão de moradias contratadas por meio do programa Minha Casa Minha Vida, uma das bandeiras de campanha da presidenta eleita Dilma Rousseff .

Ricardo Stuckert/PR
Apartamentos entregues hoje pertencem a conjunto que só será concluído em 2011
Lula, que entregou apartamentos financiados programa em Salvador (BA), queixou-se logo na abertura de sua fala: "Alguns companheiros dos meios de comunicação disseram há algumas semanas que não íamos conseguir fazer o contrato de 1 milhão de casas. Talvez alguns estivessem acostumados com governos que ficavam sentados com a bunda na cadeira e não chamavam seus companheiros para cobrar o que tinham que cobrar", disse Lula. "Deveriam pedir desculpas", cobrou.

Lula voltou a dizer que "valeu a pena" ter passado oito anos no Palácio do Planalto. "Eles diziam que era difícil ser presidente. Mas é fácil, se você fizer exatamente o que o povo pede para você fazer", disse. A passagem pelo Planalto, acrescentou, ainda lhe deu voz na cena internacional, enquanto chefes de Estado estrangeiros custavam para lidar com a crise econômica. Ainda assim, disse, não deixou de receber todos os representantes da sociedade. "Nunca me chamaram de excelência", disse.

Lula relembrou a crise econômica e, em um auto-elogio, comparou o desempenho do Brasil frente a países desenvolvidos. "Foi gostoso passar pela presidência vendo os EUA, Europa, Japão em crise. (...) Foi um torneiro mecânico, pernambucano, presidente do Brasil, que soube lidar com a crise com sua equipe econômica".

Em uma referência indireta ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, Lula citou a última pesquisa sobre sua popularidade. "Enquanto uns com 2 anos de mandato já não tinha mais muro para pichar “fora não sei quem”, nós vamos terminar com 87% de aprovação", disse.

Lula brincou ao dizer que não tem a intenção de disputar nenhum cargo no futuro e, portanto, pretende aproveitar as férias, quem sabe na Bahia. "Pode escrever, que Lulinha vem para arrasar no Carnaval. É Lulinha 2011", disse o presidente, repetindo o discurso feito mais cedo no Ceará, de que "pobre também gosta de luxo".

Emocionado, Lula voltou a afirmar que um bom governo não depende de diploma acadêmico, mas sim de líderes que saibam "enxergar" o que o povo mais precisa. "Valeu a pena ser presidente para provar que a inteligência não está ligada à quantidade de anos que passou em uma universidade. A inteligência de saber o que é prioridade é uma mistura de massa encefálica com o coração".

Plateia

Lula entregou apartamentos de um conjunto habitacional do Minha Casa Minha Vida. A obra, entretanto, só deve ser concluída em dezembro de 2011 . Antes de chegar à capital baiana, Lula telefonou a auxiliares, para pedir que esvaziassem suas gavetas no escritório que ocupou durante os últimos oito anos no Palácio do Planalto.

Nara Alves, enviada a Salvador
A recicladora de lixo Yêda de Souza Bonfim, 58 anos, que não foi contemplada pelo programa Minha Casa Minha Vida
Enquanto Lula discursava sobre o programa, circulavam pelo local do evento personagens como a recicladora de lixo Yêda de Souza Bonfim, de 58 anos. Ela diz ter pedido a Deus, mas não foi contemplada pelo programa Minha Casa Minha Vida. Saiu do evento como presidente apenas com o boné e a camiseta da Caixa Econmica Federal que ganhou de brinde. Yda e seus dois filhos, Jonas, de 17 anos, e Francisco, de 24, vivem na Cidade Baixa, periferia de Salvador, junto com outras 150 famlias do Movimento Sem Teto do Brasil.

A recicladora perdeu há quatro anos na Justiça a casa onde morava. "Comprei por R$ 5 mil, mas não tinha a escritura. Quando a proprietria morreu, a casa ficou para os filhos e eu fui despejada", conta. Desde então, vive no acampamento com salário de R$ 200 e diz ter condições de pagar as prestações do programa federal, que ficariam em torno de R$ 50 mensais, sem contar luz e água.

"Apesar de tudo, minha vida melhorou", disse, tecendo elogios ao presidente. "O Lula é nota mil, maravilhoso. Meus filhos agora têm muita oportunidade", diz. Yêda acabou de concluir o curso de merendeira e agora pretende prestar concurso pblico para melhorar a renda.  E diz dar um voto de confiança a Dilma. "Até que ela mostre o contrário, vou dar um voto de confiança para ela", afirma.

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