Depois de Delúbio, Silvio Pereira articula volta ao PT

Ex-secretário-geral pediu desfiliação no auge da crise do mensalão, após receber um jipe Land Rover de presente de um empresário

Clarissa Oliveira e Ricardo Galhardo, iG São Paulo |

Depois do ex-tesoureiro Delúbio Soares, o antigo secretário-geral do PT Silvio Pereira ensaia nos bastidores seu retorno aos quadros partidários. Nas últimas semanas, Silvinho, como é chamado pelos colegas, avisou que vai apresentar à direção petista um pedido de refiliação, na esperança de reverter o processo que o levou a deixar a sigla no auge do escândalo do mensalão.

A articulação repete o movimento comandado por Delúbio, que tentou sem sucesso retornar à sigla no fim de 2009 e avisou à direção nacional que retomaria neste ano a iniciativa . O ex-tesoureiro tinha esperança de que seu caso fosse apreciado na reunião do Diretório Nacional que acontece nesta quinta-feira, em Brasília. Preocupado com o impacto de temas polêmicos neste início do governo da presidenta Dilma Rousseff , o partido achou melhor restringir o evento à comemoração de seu aniversário de 31 anos e à festa pela volta do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à presidência de honra da sigla.

Assim como Delúbio, Silvinho já deu início às conversas informais com integrantes da direção do PT, segundo relatos feitos ao iG por aliados do ex-petista e dirigentes do partido. Ficou acertado, entretanto, que qualquer medida formal será tomada somente mais adiante. O objetivo é aguardar até que a administração de Dilma esteja consolidada, evitando assim que a memória da crise vivida pelo governo Lula em 2005 acabe se transformando em um fator de instabilidade para o novo governo. Oficialmente, o discurso de dirigentes é o de que não há nada definido sobre o assunto. “Estou sabendo disso agora. Formalmente não chegou nada sobre o Silvinho no PT”, disse o secretário de Organização do partido, Paulo Frateschi.

Agência Estado
Acordo com a Justiça retirou nome de Silvio Pereira da lista de réus do mensalão
Diferentemente de Delúbio, Silvinho não foi expulso do PT. Pediu espontaneamente sua desfiliação em julho de 2005, diante do agravamento das denúncias de que teria recebido favores de empresas que mantinham contratos com o governo. Ele ganhou o noticiário no auge da crise daquele ano, quando veio à tona a notícia de que dirigia um jipe Land Rover que ganhou de presente do vice-presidente da GDK. A empresa prestava serviços para a Petrobrás.

Na época, Silvinho preferiu se antecipar a um parecer da Executiva Nacional em favor de sua expulsão e encaminhou uma carta pedindo sua saída do partido. “Cometi um erro. Não me esconderei sob o manto da hipocrisia”, escreveu, no documento entregue em 2005 ao comando petista. “Nada ofereci ou me foi pedido em troca, minha consciência está tranquila. Tenho clareza, no entanto, de que falhei com minhas obrigações partidárias ao aceitar esta situação”, completou, em referência ao fato de ter recebido o carro de presente.

Embora tenha se afastado voluntariamente do PT, Silvinho nunca cortou os laços com o partido e com o governo. Em 2007 sua empresa, a DNP Eventos, foi subcontratada por R$ 55 mil pela Petrobrás para gerir um projeto de cinema na praia em Vitória (ES). Quem repassou o contrato foi o empresário Julio Cesar Santos, sócio do deputado cassado José Dirceu.

No passado, Silvinho chegou a dizer que não tinha a pretensão de retomar sua vida partidária, mas passou a embalar o projeto de refiliação no final de 2010. O anúncio do possível retorno de Delúbio desencadeou o processo. Antes de se decidir pela refiliação, Silvinho chegou a desempenhar funções políticas delegadas pelo comando em São Paulo das campanhas de Aloizio Mercadante e Dilma. Mas quando a cúpula petista em Brasília soube de sua participação determinou imediatamente o afastamento, temendo que isso trouxesse desgaste para os candidatos.

Castigo

Entre aliados de Silvinho, predomina o discurso de que ele tem mais direito de voltar a militar no PT do que qualquer outro envolvido no escândalo do mensalão. Isso porque o ex-secretário-geral é o único dos 40 réus do processo que corre no Supremo Tribunal Federal que respondeu até agora na Justiça pelas acusações. Em 2009, ele fez um acordo com a Procuradoria-Geral da República por meio do qual obteve a retirada de seu nome da lista de réus.

Como havia sido denunciado por apenas um crime – o de formação de quadrilha – Silvinho aceitou prestar 750 horas de serviços comunitários. Ele concluiu a prestação dos serviços em maio do ano passado e aguarda os trâmites de seu caso na Justiça, que avalia se foram cumpridos todos os requisitos para a extinção de punibilidade. “Não existe crime sem castigo. E ele pagou o dele”, disse um petista próximo ao ex-secretário-geral e defensor de sua volta ao PT.

A condição imposta ao ex-petista para que deixasse de ser réu foi trabalhar na subprefeitura do Butantã. Silvinho queixou-se inicialmente das atribuições, que envolviam desde a fiscalização da varrição de ruas até funções administrativas. Ele tinha a esperança de cozinhar para crianças da rede pública, aproveitando que passou a trabalhar no restaurante de sua família depois de deixar a vida partidária. Até hoje, dizem amigos do ex-secretário do PT, é ele quem comanda a cozinha do estabelecimento.

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