Demora em nomeações é natural, diz Carvalho

Em meio a pressões por 2º e 3º escalões, ministro, que lembra broncas de Lula, diz que definições podem sair nesta semana

Adriano Ceolin, iG Brasília |

O governo deve acelerar nesta semana a composição do segundo e terceiro escalões da administrações por meio de uma série de conversas com os partidos da base aliada no Congresso. Poderão haver ainda "trepidações", mas a demora até agora foi natural. A opinião é do ministro da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, que concedeu entrevista ao iG .

Chefe do gabinete pessoal da Presidência entre 2003 e 2010, Carvalho comentou os estilos de governar do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da presidenta Dilma Rousseff. Confessou já ter tomado bronca da atual chefe, mas disse que "ela é carinhosa". "O Lula falava muito! Em 23 de março (de 2003), eu já havia levado 30 vezes mais bronca do Lula do que da Dilma", disse.

Leia os trechos:

iG: Esta semana uma coluna política citou que o PMDB estaria com saudade do presidente Lula. Carvalho: Risos...

iG: Porque o Lula tem estilo diferente da Dilma. O senhor podia comentar esses estilos de cada um.
Carvalho:
Não posso responder pelo PMDB evidentemente. Mas eu sempre digo: é o mesmo projeto com estilos diferentes. O que é mais marcante na presidenta Dilma? Ela é mais preocupada com a gestão interna. Ela vai mais ao detalhe. Permanece no gabinete conduzindo todo o processo. Não quer dizer que ela não delegue, mas ela chama muito para si. O Lula ia mais para rua. Não quer dizer a Dilma não vá. Na relação com os partidos, sinceramente, eu não vejo grandes diferenças. Todos os partidos que sentam com a Dilma saem muitos satisfeitos porque ela conversa bem. Ela não quer fazer uma espécie de hegemonia absoluta do PT. Ela está preocupada. Acho que ela convive com o Temer hoje.

iG: Pelo fato de conhecer muito bem a gestão, a presidenta Dilma é mais rigorosa na escolha dos nomes que vão compor o governo?
Carvalho:
Ela tem uma grande vantagem sobre o Lula. São oito anos de vivência dentro do governo. Herdou algo que já conhecia. Por exemplo, essa coisa de botar gente mais técnica nas agências. É uma conclusão de uma experiência que ocorreu. Essa é a diferença. Tem a vantagem de ter a experiência anterior.

iG: Nos bancos públicos também deverá ser assim?
Carvalho:
Sim, mas não quer dizer que não vai haver composição política. Vai ter sim composição política (na escolha de nomes para os cargos em bancos públicos).

iG: Mas o critério...
Carvalho:
O critério principal, claro, vai ser na questão da competência.

iG: Durante a formação do ministério da presidenta Dilma, houve uma disputa entre o PMDB e PSB por algumas pastas. O senhor acha que, agora, as coisas já estão mais ajustadas?
Carvalho:
Penso que sim. É claro que agora é que vai ser constituído o segundo, terceiro escalão e as empresas estatais. Podemos ter ainda trepidações. Mas acho que as relações estão bem mais assentadas. O PMDB é maior partido aliado nosso, depois o PSB e outros partidos. Por isso não vejo tanta briga entre os partidos da base aliada.

iG: O senhor acha que esta semana deve acelerar um pouco mais a formação do segundo e terceiro escalões?
Carvalho:
Essa é a tendência de o governo: sentar com os partidos e terminar a montagem do governo. Até porque quanto mais demora isso é pior para o governo.

iG: O senhor acha que demorou muito?
Carvalho:
Demorou, mas é típico de começo de governo. Em 2003, foi a mesma coisa. Até em 2007 (segundo mandato do Lula) a gente também demorou um pouco. É natural, porque tem de estudar bem.

iG: Conhecendo a presidenta, o senhor não acha que ela já tem uma avaliação dos ministros? Quem está indo bem, quem está indo mal.
Carvalho:
Ela não tem externado isso. Eu observo que ela faz comentários, mas são pontuais. Já fez comentários bons sobre mim, ruins também. Já me deu uma...

iG: Já tomou bronca?
Carvalho:
Uai, natural.

iG: O que é mais difícil: tomar bronca do Lula ou da Dilma?
Carvalho:
Igual. Bronca nunca é bom.

iG: Mas bronca de mulher...
Carvalho:
Não, não. Ela é super carinhosa. Ao contrário da imagem...

iG: Está acabando esse mito de durona?
Carvalho:
Ela é muito exigente. Qual é a vantagem? Ela fala na lata. Pá, pá, pá e acabou.

iG: Mas o Lula também falava, não é?
Carvalho:
O Lula falava muito! Em 23 de março (de 2003), eu já havia levado 30 vezes mais bronca do Lula do que da Dilma.

iG: O senhor fica mais à vontade na função de ministro do que na função de chefe de gabinete pessoal?
Carvalho:
Não.

iG: Por quê?
Carvalho:
Pelo temperamento, pela minha história, eu prefiro bastidor. Prefiro ajudar por trás da cortina. Confesso que custa um pouco a função. Claro, é tudo novo, estou me adaptando agora.

iG: O governo prepara algum pacote de medidas econômicas? O senhor irá fazer a intermediação com os movimentos sociais?
Carvalho:
É natural que haja sempre medidas do governo que precisam ser discutidas com centrais sindicais. A presidenta pediu para mim que eu fizesse com os movimentos sociais um diálogo permanente. Eu já recebi a Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores de Agricultura), o MST (Movimento do Sem Terra) e vou receber os demais. Isso será permanente. Não está previsto nenhum pacote. Salvo a apresentação de um programa de combate à erradicação da pobreza -- que não é um pacote, é um programa. Deve ser anunciado em maio. Mas não tem nenhum pacote previsto. Sempre o diálogo será nossa ferramenta.

iG: O senhor foi quase presidente do PT. O senhor continua com muita relação com o partido, fazendo esse canal entre o partido e o governo?
Carvalho:
Agora muito mais do que antes. Porque nesses oito anos eu era um pouco monge aqui dentro (do Palácio do Planalto). Eu ficava recolhido e não tinha condição para sair e ir nas reuniões do partido. Agora eu aproveito os fins de semana para retomar o contato com o partido. Vários ministros vão fazer isso, mas eu tenho um papel importante de fazer um ponte com o PT.

iG: Por causa disso o senhor tem conversado bastante com o presidente Lula?
Carvalho:
A cada dez dias, quinze dias. Fala, a gente troca idéias. Ele está muito contente. Pessoalmente, ele está muito bem. Está muito tranquilo.

iG: Ele já desencarnou do cargo de presidente?
Carvalho:
Está desencarnando. Está muito agitado, a mil por hora. Fazendo viagens, palestras e reuniões. Está se interessando pela política em São Paulo, para ajudar. Ele não tem jeito.

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