Covas recua em fala sobre emendas e diz ser 'ingênuo'

Tucano afirmou que se referia a caso hipotético ao dizer que prefeito lhe teria oferecido propina

Ricardo Galhardo e Nara Alves, iG São Paulo |

O secretário estadual do Meio Ambiente e pré-candidato pelo PSDB à Prefeitura de São Paulo, Bruno Covas, afirmou, em ofício ao Conselho de Ética da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), que se referia a um caso hipotético quando afirmou ter recebido oferta de propina pela venda de emendas parlamentares. No documento de uma página e meia, o preferido do governador Geraldo Alckmin para a disputa municipal admitiu ser ingênuo.

Divilgação
Secretário não quis comparecer pessoalmente à reunião do Conselho de Ética da Alesp
“Alguns me acusam de ingenuidade e inexperiência. E isso me conforta. Afinal, o problema central que afeta a imagem dos políticos em nosso País não é a ingenuidade, mas a falta de probidade e de caráter”, diz o texto.

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Covas disse em entrevista a O Estado de S. Paulo que teria recebido um prefeito do interior em seu gabinete, quando ainda era deputado estadual, com R$ 5 mil em espécie referentes aos 10% de propina pela liberação de uma emenda parlamentar. O secretário, em vez de denunciar o caso às autoridades, teria encaminhado o dinheiro para uma Santa Casa.

Covas foi convidado a explicar o caso no Conselho de Ética que apura as denúncias do deputado Roque Barbiere (PTB) de venda de emendas na Alesp . Para a oposição, o secretário cometeu crime de prevaricação por não denunciar a irregularidade.

O secretário se recusou a comparecer pessoalmente e enviou sua explicação por escrito. No texto, diz que usava o caso do prefeito como exemplo hipotético em palestras e conversas. “Acabei narrando o exemplo como fato”, justificou. O secretário chegou a evocar a memória do avô, o ex-governador Mário Covas, morto em 2001, em sua defesa ao dizer que conviveu com o exemplo de probidade desde a “mais tenra idade”.

Alguns me acusam de ingenuidade e inexperiência. E isso me conforta.

As explicações de Covas provocaram indignação na oposição. “Isso é um escárnio com a Alesp e com a própria sociedade que espera dele um esclarecimento. Ele poderia colaborar com as investigações em vez de se esconder atrás de um ofício”, disse o deputado Simão Pedro (PT).

Mobilização por CPI

Para a oposição, as ausências de Bruno Covas nesta terça-feira, e de Barbiere, na sessão da semana passada, mostram que o Conselho de Ética está desmoralizado para investigar as denúncias de venda de emendas, o que reforça a necessidade de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar o caso.

A bancada do PT marcou para quinta-feira uma reunião com sindicatos e movimentos sociais. O objetivo é fazer uma mobilização nas ruas para pressionar a base governista na Alesp e assinar o pedido de CPI. O PT tem 28 assinaturas e precisa de mais quatro.

Segundo líderes da oposição, parlamentares governistas tem manifestado irritação com a postura do governo de tentar resumir as denúncias à Alesp e estariam dispostos a assinar o pedido de CPI. No entanto, dirigentes do próprio PT admitem que a instalação da comissão é praticamente impossível.

Contradição

A reunião de hoje explicitou uma contradição entre tucanos em torno do convite feito a Bruno Covas para que prestasse esclarecimentos sobre as declarações sobre a suposta oferta de propina. O presidente do Conselho de Ética, Helio Nishimoto (PSDB), justificou que nenhum convite foi oficialmente encaminhado ao secretário porque a liderança do PSDB havia acertado verbalmente a data dos esclarecimentos. Já o líder Orlando Morando (PSDB) alegou que a data não havia sido estipulada na última reunião do conselho.

Ontem, a assessoria do Bruno Covas já havia comunicado a ausência do secretário, alegando que não havia data no convite feito pelo conselho. “O convite não foi encaminhado porque a liderança do PSDB fez a solicitação pessoalmente e verbalmente. Houve um entendimento de que ele (Bruno Covas ) viria hoje”, disse Nishimoto. Já o líder tucano nega que a data tenha sido estipulada. “Foi um erro não ter a data”, afirmou.

Ainda hoje, o presidente do Conselho pretende formalizar e encaminhar o convite, a pedido do deputado Luiz Claudio Marcolino (PT). “A administração vai levar pessoalmente porque estamos com problemas nos Correios ( causados pela greve )”, disse.

A confusão tem sido vista pela oposição como uma manobra da base governista para ganhar tempo e evitar desgaste do secretário estadual em meio aos preparativos para a sucessão do prefeito Gilberto Kassab (PSD). O Conselho de Ética, instaurado no último dia 26 de outubro, tem 30 dias para apurar as denúncias de venda de emendas parlamentares.

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