Controle da inflação tornou-se maior desafio do governo Dilma

Em nome do combate ao aumento dos preços, programas prometidos em campanha e investimentos são postergados

Danilo Fariello, iG Brasília |

O controle da inflação foi assumido pela administração federal como o maior desafio a ser combatido nesses primeiros 100 dias de governo da presidenta Dilma Rousseff . A preocupação chegou a tal ponto que ontem o governo adotou uma medida bastante impopular: elevou o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) diretamente no crédito à pessoa física, aumentando o spread bancário e reduzindo a oferta de empréstimos. Dilma, assim, preserva o pensamento de seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva , que dizia que nenhum elemento é tão nocivo à popularidade e estabilidade de um governo do que o aumento excessivo da inflação.

AE
Medo da inflação fez Planalto baixar regra informal a todos os ministros: decisões envolvendo mais de R$ 1 bilhão, só com aval da Casa Civil

A alta, que se observa nos preços, ameaça seriamente o cumprimento da meta de inflação para o ano, de 4,5%, mesmo se considerada a tolerância de dois pontos percentuais. Para o Banco Central, a inflação oficial, medida pelo IPCA, deve encerrar o ano em 5,6% pelas condições atuais. Para o mercado financeiro, porém, o número será de mais de 6% e as previsões devem piorar depois do anúncio do IPCA de março feito ontem, em 0,79%.

O medo da inflação fez com que o Palácio do Planalto baixasse uma regra informal aos ministros: nenhuma decisão envolvendo mais de R$ 1 bilhão é tomada sem passar pela Casa Civil. Esse é um exemplo do cuidado redobrado com o controle dos gastos, que teve como principal medida o corte de R$ 50 bilhões no Orçamento de 2011.

As principais negociações do Palácio do Planalto até agora se pautaram principalmente pelo combate à alta dos preços, como a definição do salário mínimo e o corte de R$ 50 bilhões. Até a principal bandeira da campanha, a erradicação da miséria, sofre seus controles. A ministra Tereza Campello, do Desenvolvimento Social, teve de pisar no freio na elaboração do PAC Miséria, que ainda não tem uma proposta formal apresentada.

Sem "clima" para projetos

Medidas em discussão dentro do governo têm sido retardadas pela falta de “clima” para propostas que impliquem mais gastos, diz um ministro. Outro projeto anunciado e não lançado por esse motivo foi a desoneração da folha de pagamentos, para estimular os empregos formais. Nesse sentido, a medida na verdade poderia mais reduzir a arrecadação do governo do que elevar os gastos.

A correção da tabela do imposto de renda em 4,5%, que também reduz a arrecadação, só foi aprovada com o anúncio de medidas compensatórias, como o aumento dos impostos sobre a produção de bebidas. Nem mesmo as decisões judiciais foram poupadas dos cortes, porque o Ministério do Planejamento conteve pagamentos de reajustes a 1 milhão de aposentados após decisão já tomada pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Também o fluxo de despesas com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e o Minha Casa, Minha Vida têm sofrido por causa do contingenciamento. O desafio de Dilma é calibrar o controle de gastos, para não estimular a inflação, e a manutenção de investimentos estruturais. Segundo ministros ouvidos pelo iG , porém, a contenção de gastos que mirava apenas custeio já comprometeu investimentos relevantes neste ano.

EFE
Com trânsito livre no gabinete presidencial, Mantega assumiu papel de interlocutor
Credibilidade em xeque

O governo sabe que os próximos meses serão de agonia em relação à credibilidade da política monetária brasileira. Senão por outros motivos, porque no segundo e terceiro trimestres do ano passado a inflação foi muito baixa, o que tende a pressionar o número acumulado para cima daqui em diante. Essa tendência deve agravar a relação entre o mercado financeiro e os líderes da política monetária, o que nunca é bom para a popularidade de um presidente.

Se a realidade da inflação já indica temores para o governo, o futuro pode ser realmente assustador. A forte aceleração do crescimento da economia em 2010 deverá levar a um aumento do salário mínimo de quase 15% em 2012, o que pressionará muito os preços, reconhece um economista do governo. A torcida é para que os preços internacionais de commodities recuem, aliviando o choque de preços que hoje atinge o mundo todo.

Nesse contexto de temor com a inflação, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, assumiu o papel de interlocutor relevante da presidenta Dilma para qualquer grande projeto do governo. Ministro com audiências mais frequentes com a presidenta, os momentos em que Mantega esteve com Dilma nas últimas semanas foi intensificado, enquanto que outros ministros passaram três meses sem uma audiência pessoal com ela.

    Leia tudo sobre: dilma rousseff100 dias

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG