Confronto com integralistas em 1934 inspira antifacistas

Revoada dos Galinhas Verdes, ocorrida há 77 anos, é a matriz histórica da perseguição à extrema direita

Nara Alves e Ricardo Galhardo, iG São Paulo |

Praça da Sé, São Paulo, manhã do dia 7 de outubro de 1934. Militantes dos movimentos anarquista, comunista, sindicalista e trotskista organizados na Frente Única Antifacista enfrentam, armados com revólveres e até metralhadoras, uma passeata de facistas e nacionalistas promovida pela Ação Integralista Brasileira, espécie de versão tupiniquim do facismo italiano comandada por Plínio Salgado.

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O jornalista, filósofo, político e fundador da Ação Integralista Brasileira Plínio Salgado (centro)

O confronto deixou um saldo de seis mortos, cinco deles guardas civis. A sexta vítima foi o militante da juventude comunista Décio Pinto de Oliveira, alvejado com uma bala na cabeça enquanto discursava.

Apesar da baixa, os antifacistas venceram a batalha, que ficou conhecida como a Revoada dos Galinhas Verdes, em referência à cor das camisas usadas pelos integralistas.

Corta para a madrugada do dia 4 de setembro de 2011, rua Cardeal Arcoverde, Pinheiros. Cerca de 200 jovens punks e skinheads transformam em praça da guerra a frente da boate Carioca Club, onde a banda inglesa Cook Sparrer se apresentava. O saldo foi a morte do estudante Johni Raoni Falcão Galanciak, 25 anos, esfaqueado, e um traumatismo crânio-encefálico em Fábio Santos Medeiros, de 21 anos .

Pergunta: o que um evento ocorrido quase 80 anos atrás, quando a ideologia política era motivo para matar ou morrer nas trincheiras da Guerra Civil Espanhol tem a ver com uma briga de gangues de arruaceiros em pleno século 21?

Resposta: muita coisa.

Segundo punks e skinheads das mais diversas facções ouvidos pelo iG , a Revoada dos Galinhas Verdes é a matriz do confronto que levou à morte de Johni Raoni, uma tragédia anunciada há cinco meses.

De um lado estavam skinheads antifacistas e punks agregados, entre eles Johni. Do outro, grupos de extrema-direita com Resistência Nacionalista, White Power e Kombart RAC, entre os quais Medeiros.

O confronto começou no dia 15 de abril, uma semana depois de skinheads de extrema-direita apoiarem a passeata em favor do deputado Jair Bolsonaro, na avenida Paulista. Naquele dia, o coletivo RASH (Red Anarchist Skinheads – carecas vermelhos e anarquistas, em português) publicou em seu blog um texto intitulado “Revoada dos Galinhas Verdes II”, no qual conclamava todos os grupos antifacistas a combater nas ruas os nacionalistas.

“Se quando os fascistas começaram a se reunir, a contramanifestação tivesse 1% das pessoas que se reúnem no 1º de Maio, por exemplo, o ato fascista não chegaria onde chegou”, diz o texto.

Em um texto no qual negam a responsabilidade pela briga que resultou na morte de Johni, o RASH diz ter informado oficialmente à Polícia Civil sobre o risco de violência no show do Cook Sparrer.

Por e-mail, a delegada Margarete Barreto, da delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), disse que a polícia tem acompanhado de perto a ação das gangues mas reconhece que nem sempre é possível evitar a violência.

A delegada adverte que a violência é crime, independentemente da motivação ideológica, e dá dicas para os pais que desejam impedir que seus filhos se envolvam com estes grupos.

“É muito importante que os pais prestem atenção nas amizades, nos sites frequentados na internet, nas tatuagens, símbolos, roupas, mudança de comportamento. Saber o que os filhos lêem. Existem pactos de silêncio nas gangues. Elas não revelam a doutrina, o que pensam, muito menos os pontos de encontro. Esses garotos acabam fazendo uma vida paralela. Adotam membros do grupo como se fossem a própria família. Os pais devem conversar com os filhos. Se tiverem dúvidas e acharem necessário, procurem nossa delegacia”, disse a delegada.

Após publicação da reportagem, a Frente Integralista Brasileira escreveu carta em resposta ao Último Segundo.

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