Concentração de poder nos 'três porquinhos' irrita setores do PT

Presidente do partido, José Eduardo Dutra precisou se justificar diante das críticas em reunião da Executiva petista

Adriano Ceolin e Ricardo Galhardo, enviado a Brasília |

A concentração de poder nas mãos de um trio petista na gestação do futuro governo Dilma Rousseff repete a fórmula usada por Luiz Inácio Lula da Silva após a vitória em 2002. Naquela época o núcleo decisório era formado por Luiz Gushiken, José Dirceu e Antonio Palocci. Agora, é a vez de José Eduardo Dutra, José Eduardo Cardozo e o mesmo Palocci. O excesso de poder desse trio que foi apelidado de “os três porquinhos” por Dilma durante a campanha tem incomodado setores do PT.

Agência Estado
Presidente do PT é um dos três petistas que lideraram a coordenação da campanha de Dilma e agora foram incorporados à equipe de transição
O assunto guiou boa parte das discussões da Executiva Nacional do partido, que se reuniu nesta quinta-feira, em Brasília. O encontro é parte de uma série de reuniões preparatórias para as discussões que serão feitas amanhã, no Diretório Nacional petista. Em meio às conversas sobre os resultados da eleição e a participação do PT no governo Dilma, correntes internas queixaram-se de Dutra, Cardozo e Palocci, alegando que o trio não tem ouvido as reivindicações do restante da legenda.

Dutra passou a maior parte da reunião da se justificando diante das cobranças. “O meu papel é de ouvidor. Eu não decido nada”, disse Dutra, aos colegas no encontro. Nos bastidores, alguns petistas chegaram a classificar o presidente do PT como “despachante”, pois não estaria levando até Dilma as vontades do partido.

Cotado para ocupar um ministério, o senador Aloizio Mercadante (PT-SP) tentou amenizar as críticas. “Eles ( Dutra, Cardozo e Palocci ) abriram mão de mandatos para coordenar a campanha. Mas eles não decidem. Quem decide é a Dilma”, disse ao iG ao deixar a reunião.

Outra cotada para o ministério, a deputada Maria do Rosário (PT-RS) também tentou contemporizar. Ela pertence à corrente partidária chamada Movimento PT, que apresentou uma lista de seis nomes para compor a equipe ministerial de Dilma. “É natural que eles estejam mais próximos da presidenta. O restante do partido estava concentrado nas suas próprias campanhas”, afirmou a deputada gaúcha.

Ainda durante a corrida eleitoral, diferentes setores do partido já haviam se mostrado descontentes com o excesso de poder dos “três porquinhos”. O trio sofreu seu momento mais difícil na passagem no fim do primeiro turno, quando houve o crescimento da candidatura de Marina Silva (PV) e, depois, a realização do segundo turno contra José Serra (PSDB). Os aliados PMDB e PSB também reivindicaram mais espaço nas decisões de campanha.

Oficialmente, no entanto, os petistas têm sido cautelosos nas críticas aos “três porquinhos”. Isso porque Dutra e Cardozo são considerados homens de confiança de Dilma. Já Palocci foi indicado para a coordenação de campanha por Lula, responsável articulador da candidatura da ex-ministra da Casa Civil. O presidente vê Palocci o melhor interlocutor do partido junto ao empresariado e o mercado financeiro.

Transição 2002

Uma cena clássica do documentário “Entre Atos”, de João Moreira Salles, ocorre após a vitória de Lula, em 2002, quando o então presidente do PT, José Dirceu, diz a Mercadante como seria o desenho do início do governo: “Você fica no Senado e a gente governa”.

Eleito senador com 10 milhões de votos, Mercadante soube ali que não teria vaga em ministério, apesar de ser um dos pensadores do partido na área econômica. Ganhou como consolação a liderança do governo do Senado, posto que nunca conseguiu se firmar principalmente por causa da ação do PMDB - maior bancada na Casa.

No processo de transição do governo Fernando Henrique Cardoso para o governo Lula, Dirceu, Gushiken e Palocci formaram o núcleo duro do governo. Eles eram os homens do PT que partilhavam as principais decisões do início do governo Lula.

Na montagem daquele ministério, Dirceu, porém, viveu um momento de descrédito quando negociou a participação do PMDB no governo mediante a entrega do Ministério de Minas e Energia e da Integração Nacional para o partido.

A aliança chegou até ser anunciada. Hélio Costa, então senador eleito, ficaria com o comando da pasta de Minas e Energia. Para a Integração Nacional, o indicado era Eunício Oliveira (CE). Um dia depois, Lula desautorizou Dirceu e nomeou a técnica Dilma Rousseff para Minas e Energia. Oito anos depois, ela é a presidenta eleita.

Colaborou Andréia Sadi, iG Brasília

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