Código Florestal trinca as relações no Congresso

Racha entre ambientalistas e ruralistas causou brigas em quase todos os partidos, no governo e na oposição

Fred Raposo e Ana Paula Leitão, iG Brasília |

A conturbada aprovação do Código Florestal deixou um rastro de terra arrasada e bandeiras queimadas na coalizão governista no Congresso e até entre partidos de oposição. O fim da lua de mel de quatro meses na Câmara dos Deputados foi marcado, antes e depois da votação do novo código, por rachas na bancada petista, ataques do PMDB à presidenta Dilma Rousseff, críticas veladas do Planalto ao relator do texto e ex-articulador político de Lula, deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), e mal-estar entre tucanos e PPS, de um lado, e o Partido Verde, de outro.

O recado mais duro partiu do principal aliado do governo na Casa. Em discurso ontem à noite na tribuna da Câmara, o líder do PMDB, deputado Henrique Eduardo Alves (RN), se disse ressentido por Dilma de não tê-lo procurado para conversar sobre o texto.

“Em todo o período de discussão desta matéria, não troquei uma palavra sequer com a presidenta Dilma. Não houve sequer uma conversa, nem pessoal nem por telefone, nem direta nem indiretamente”, reclamou o líder peemedebista aos demais parlamentares.

Segundo ele, as negociações passaram pelos ministros Antonio Palocci (Casa Civil) e Luiz Sérgio (Relações Institucionais) e pelo líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP).Em retaliação, Alves mobilizou a bancada para votar contra a orientação de Dilma sobre a emenda 164, que anistia pequenos produtores que desmataram área de reserva legal até 2008.

“O meu partido dará 78 votos para a votação da emenda 164”, anunciou o peemedebista, que, no entanto, recusou a pecha de que estaria contrariando o governo. “Não aceito que se diga aqui que está se derrotando o governo. Como que um Líder de uma base importante do governo derrotaria o seu governo, se a proposta é nossa?”.

Após as críticas, o líder do PT, deputado Paulo Teixeira (SP), disse ao iG que as relações do PMDB com o governo ficaram “abaladas”, pois o peemedebista teria responsabilizado diretamente a presidente Dilma pelo episódio. “O deputado Henrique Eduardo Alves subiu o tom mais do que deveria. Tem que ser governo no bônus e no ônus”, assinalou.

Racha no PT

Porém, as divergências sobre o novo Código Florestal atingiram também o próprio PT. Até três horas antes da votação, a bancada petista ainda discutia se seguiria ou não a orientação do Planalto. Na reunião, Teixeira chegou a defender voto contrário ao relatório. Mas, no final a bancada decidiu, por 27 votos a 24, seguir a orientação do governo.

O episódio representa mais uma rusga entre Teixeira e Vaccarezza, que estão a frente de correntes do PT que desde o ano passado disputam espaço na Casa. Teixeira ajudou a articular a eleição do deputado Marco Maia (PT-RS) à Presidência da Câmara, cargo que havia sido inicialmente prometido a Vaccarezza.

Nos corredores do Planalto, contudo, comenta-se que a traição na aprovação do código teria começado na raiz, com o relator Aldo Rebelo. A avaliação é que o comunista, que durante o governo Lula foi presidente da Câmara e depois articulador político do Planalto, desta vez atuou como oposicionista na relatoria do código.

Dilma x Ruralistas

Resultado disso é que o desgaste do Executivo com a bancada ruralista deve se estender mesmo após a aprovação do projeto na Câmara. “Durante todo o processo a presidenta Dilma esteve muito mal informada, foi mal assessorada”, afirma o deputado Moreira Mendes (PPS-RO), presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA).

“Os ruralistas passaram dois meses e meio tentando falar com o Palocci, mas só conseguiram falar com o Luiz Sérgio. Enquanto isso, receberam ONGs ambientalistas e a Marina (Silva, ex-ministra do Meio Ambiente) falava direto com Palocci. É uma soberba, um nariz empinado que não tem tamanho”, reclamou Mendes.

Irritada com a aprovação do texto, Dilma afirmou que deve vetar trechos da proposta que considera equivocados. Mas o presidente da FPA adianta que tentará barrar eventuais vetos no Congresso. “A presidenta tem poder de veto, mas primeiro tem que ouvir o pessoal que votou pelo código e pela emenda 164. Temos poder de vetar o veto dela”, ameaçou.

Divisão no bloco PV-PPS

Apesar da vitória contra o Planalto, nem a oposição escapou das fissuras. O mini-bloco que o PPS de Mendes integra, com o PV, por pouco não se dissolveu, na noite de ontem, após as duas legendas caírem novamente em trincheiras opostas da apreciação da matéria.

O PV queria aprovar requerimento para adiar a votação, posição não adotada pelo PPS. No plenário,o deputado Alfredo Sirkis (PV-RJ) chegou a anunciar o rompimento, mas recuou após o líder do bloco, Sarney Filho (PV-MA), recorrer ao microfone para dizer que o PPS estava liberado para votar como achasse melhor.

Os verdes reclamam que, exatamente no assunto que consideram mais importante, a ecologia, encontraram maior receptividade na presidenta Dilma Rousseff - com quem a principal líderança do partido, a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva encontrou-se no Planalto - do que entre seus aliados na oposição.

    Leia tudo sobre: código florestalcongressodilmapmdbaldo rebelopt

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG