Chefe da Rio-2016 valoriza mais legado esportivo do que obras

Fortes, que acaba de ser aprovado para presidir APO, diz que zelará também por finanças e por infraestrutura deixada pelos jogos

Adriano Ceolin e Danilo Fariello, iG Brasília |

Fellipe Bryan Sampaio, iG Brasília
Presidente da APO: É importante que haja fiscalização permanente, para não ter de complementar recursos
Márcio Fortes será o principal responsável pela execução da Olimpíada de 2016 e por suas contas. Como presidente da Autoridade Pública Olímpica (APO), cargo para o qual foi aprovado pelo Senado na terça-feira, o carioca deseja que o maior legado dos jogos seja em ouro, prata e bronze para o Brasil. “Um evento desse tipo desperta vocações, desenvolve a mentalidade esportiva e temos que aproveitar esse momento”, diz ao iG na sua primeira entrevista após ter sido escolhido para o cargo.

O ex-ministro das Cidades do governo de Luiz Inácio Lula da Silva também destaca que o Rio ganhará com uma melhor infraestrutura de transportes e habitação após os jogos, mas diz que parte do que será construído poderá ser removido após o desligamento da pira olímpica. “Nem todas as instalações serão permanentes.”

Como presidente da APO, Fortes responderá a um conselho formado por representantes da União (Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central), Estado (o governador do Rio) e Município (o prefeito). Sua missão também inclui evitar que, após o evento, exista um rombo financeiro similar ou maior aos R$ 3 bilhões que a União teve de assumir em imprevistos após o Pan-americano de 2007.

Veja, a seguir, os principais trechos da entrevista exclusiva:

iG: O que o senhor vê como principal legado dos Jogos Olímpicos?
Fortes:
Em primeiro lugar, uma Olimpíada vai despertar vocações. Muita gente vai começar a querer praticar esportes. O desempenho do Brasil estimula a população. Por isso, para mim, a primeira coisa é a mentalidade esportiva. Um evento desse tipo desperta vocações, desenvolve a mentalidade esportiva e temos que aproveitar esse momento. Não quero que o Brasil seja conhecido com a Olimpíada dos melhores equipamentos. Tem de ser os jogos em que o País começou a ganhar mais medalhas.

iG: Então é mais importante um legado esportivo do que o de obras de infraestrutura?
Fortes: Para mim, sim. Agora, o segundo legado é exatamente o da mobilidade urbana. O terceiro legado é a parte habitacional. Vai ter uma disponibilidade muito grande de novas casas, e não só na Barra. São cerca de 8 mil unidades para abrigar a Vila Olímpica e 4 mil para abrigar profissionais de mídia. Mas nem todas as instalações serão permanentes. Há coisas que serão desmontadas depois dos Jogos.

iG: O que vai ser provisório, por exemplo?
Fortes:
Eu não sei ainda. Está sendo estudado. Outro legado é a parte ambiental. Vamos controlar o esgoto que chega nas lagoas da Barra. E tem também a questão da segurança, que é muito importante para alavancar o turismo.

iG: Há risco de, ao fim dos jogos, sobrar um custo muito grande para a União, como no Pan-2007?
Fortes:
Haverá dois tipos de investimento na Olimpíada. Serão R$ 5,6 bilhões em recursos ligados ao Comitê Olímpico em si e outros R$ 23,2 bilhões em gastos sem relação direta com os jogos, mas necessários, como o Bus Rapid Transit (BRT), para transporte até os eventos. É para estes últimos que existe o compromisso de se cobrir déficit, caso ele ocorra. Quem assume isso, se ocorrer? A lei diz que temos (a APO) de administrar e acompanhar essa execução. É importante que haja fiscalização permanente, com vistas de não ter necessidade de complementar recursos. Não queremos fazer isso. Não vamos deixar isso acontecer.

iG: Mas, no Pan-2007, no fim das contas, foi a União que teve de assumir o prejuízo.
Fortes:
Naquele momento, o governo federal e município não se falavam. O Cesar Maia (do DEM, então prefeito do Rio de Janeiro) só falava comigo, que era ministro das Cidades (do governo Lula). Eu não tenho aresta com ninguém. Flutuo com todo mundo.

iG: Esse valor de R$ 28,8 bilhões, portanto, é o investimento total nos jogos?
Fortes:
A pretexto de deixar um legado maior, é possível expandir esses investimentos. Por exemplo, se eu faço um BRT até determinado lugar, porque eu não faço também até outro, mais longe, para atender uma população maior? Há investimentos adicionais que são pleitos do governo e do município. Esses são projetos de grande magnitude que têm de ser selecionados em função da disponibilidade. A minha função é saber qual o teto que o governo federal pode chegar em função desses projetos. Esse teto ainda vai ser definido.

Sem dizer exatamente no que, Dilma me disse que eu voltaria a trabalhar com ela

iG: Como o senhor pretende lidar com o desafio de gerir eventuais conflitos na APO, que é um consórcio de União, Estado do Rio e Prefeitura carioca? É algo totalmente novo no País?
Fortes:
O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), de certa maneira, já é isso. Nós definíamos prioridades do governo federal e depois chamávamos os governos estaduais e municipais para uma rodada de negociação. Aí fazíamos uma seleção. Em seguida, pedíamos a apresentação dos projetos aos Estados e municípios. Então, a gente já sabe como faz essa relação União, Estados e municípios. No Ministério das Cidades, fizemos isso muito bem, de forma estreita. Várias obras das Olimpíadas são obras que estão no PAC.

iG: Mas a União sempre teve mais força nessa relação. No caso da APO, será igual?
Fortes:
A função da APO é justamente coordenar essa relação federativa em três níveis. Mas o maior aporte de recursos é federal.

iG: Mas, com a APO, o Estado e o município têm um peso maior se comparado a uma parceira num projeto como o PAC. Esse fator dificulta?
Fortes:
Nesse tipo de relacionamento, a gente sempre deve jogar com a relação pessoal e política dos titulares. Primeiro a minha relação com o governador (Sérgio Cabral) e com o prefeito (Eduardo Paes) é mais do que excelente. Já vem do trabalho do PAC. Eles ficaram muito satisfeitos com minha indicação. Não existe problema. Sempre sentaremos juntos os três.

Fellipe Bryan Sampaio, iG Brasília
Sempre joguei futebol e continuo com as minhas peladas. Jogo com o pessoal do Fluminense
iG: Mas, antes da Olimpíada de 2016, haverá eleições em 2012 e 2014. Isso pode mudar alguma coisa nos governos, não?
Fortes:
Você já viu meu currículo? Para que governos eu já trabalhei? Assistiu à manifestação de todos os senadores na sabatina? Viu a oposição? Eu recebi o voto de senador do PSOL (Randolfe Rodrigues), do José Agripino (DEM-RN), do Demóstenes Torres (DEM-GO) e do Aloysio Nunes (PSDB-SP). Eu já fui secretário-executivo no governo Collor (1990-1992). Depois passei com o Itamar Franco (1992-1994), onde fui ministro interino de Minas e Energia. Fui ministro interino da Agricultura no governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), quando substitui o ministro Pratini de Morais. E fui ministro do presidente Lula. Então, não tenho nenhum problema de relacionamento. Qualquer um que se torne prefeito no Rio... Por exemplo, digamos que o Fernando Gabeira se torne prefeito. Não tem problema. Me dou muito bem com ele. No PSDB, tem o meu xará Márcio Fortes (ex-deputado do PSDB)...

iG: Como a presidenta Dilma fez o convite para o senhor ser o presidente da APO?
Fortes:
Quando eu deixei o ministério das Cidades em janeiro deste ano, ela já havia dado um recado para mim. Pediu para eu não assumir nenhum compromisso. Sem dizer exatamente no que, Dilma me disse que eu voltaria a trabalhar com ela. Então, da minha parte, eu esperei, fiquei tranquilo. O convite oficial para a APO só veio na semana passada.

iG: O senhor já falou com Henrique Mereilles, ex-presidente do Banco Central, que será presidente do Conselho da APO? Como será a função de cada um?
Fortes:
Falei. A relação é ótima. E a lei diz qual será a função de cada um . A APO é constituída pelo conselho superior, pela presidência, diretoria-executiva, conselho de governança e conselho fiscal. É como uma empresa, com conselho de administração e diretoria executiva. Quem representa a empresa e leva o dia a dia? É o CEO, o diretor-presidente (no caso, ele, Márcio Fortes). O Conselho representa quem? Representa os donos (Meirelles, que representa governo federal, o Estado e município). Quem fala pelo Conselho fala pelos donos. É o Conselho que formula estratégias, aprova orçamentos. A lei diz isso. E o conselho se reúne duas vezes por ano. Eu sou o representante legal da APO.

Como todo brasileiro, gosto mais de futebol. Mas também gosto muito de vôlei.

iG: O senhor já foi a uma Olimpíada?
Fortes:
Não fui ainda, mas vi na televisão. Com a TV, não precisa nem ir.

iG: Qual esporte o senhor gosta mais?
Fortes:
Como todo brasileiro, gosto mais de futebol. Mas também gosto muito de vôlei.

i G: O senhor praticava esportes na juventude?
Fortes:
Fui do Colégio Militar, onde praticava corrida de fundo, mil metros. Fazia salto em altura, mas não era bom, não. Mas sempre joguei futebol. E continuo com as minhas peladas. Jogo com o pessoal do Fluminense.

iG: Em que posição o senhor joga?
Fortes:
Lateral direito ou esquerdo. Tenho grandes amigos que jogam na pelada: o Branco, que foi tetracampeão mundial em 1994 e jogou no Fluminense, por exemplo. Sou muito ligado à diretoria do clube e, claro, torço pelo tricolor.

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