Cesare Battisti leva vida modesta no Rio de Janeiro em apartamento emprestado

O ex-ativista italiano acaba de completar 57 anos, vai lançar um novo livro inspirado nos anos de prisão e tem “esperança” de ser anistiado

Daniel Aderaldo, iG Ceará |

Daniel Aderaldo / iG Ceará
Cesare Battisti vive atualmente no Rio de Janeiro
O ex-ativista italiano Cesare Battisti vive hoje de forma modesta no Castelo, região central do Rio de Janeiro, justamente a cidade onde foi detido em 2007 após se refugiar na França e no México para escapar da prisão perpétua na Itália. Em um apartamento emprestado, cuja mobília se resume a uma escrivaninha, ele se mantém com o dinheiro arrecadado por uma rede de apoio e com o adiantamento do livro de ficção que está prestes a lançar.

Após deixar a prisão, Battisti passou dois dias na cidade de São Paulo e em seguida se refugiou no litoral paulista na casa de um dirigente sindical. Recentemente, mudou-se para o apartamento no Rio de Janeiro cedido por seu editor, Evandro Martins Fontes, da Editora Martins Fontes. “Ele gentilmente colocou à minha disposição, mas está totalmente vazio. Então, estou tentando comprar o mínimo indispensável para pelo menos começar a trabalhar”, contou à reportagem do iG .

A primeira mobília foi uma escrivaninha, presente de um amigo. “Já não tenho mais pretexto para não trabalhar”, brincou. Ele já recebe visitas e, aos poucos, tenta estabelecer uma rotina normal. “Estou começando a me colocar, a retomar um pouco de tranquilidade e ter contato com a família, minhas filhas principalmente. A cada 15 dias, chega alguém da França e Itália”.

Battisti já anda a vontade pelas ruas cariocas e até fez amizade com integrantes do Cordão da Bola Preta, um dos blocos carnavalescos mais tradicionais da cidade. Ele contou que aonde chega é coberto de gentilezas. “Eu não pago um café, uma cerveja. Sempre aparece um amigo”.

Sua situação legal de imigrante estrangeiro também está resolvida. O italiano pôde permanecer no Brasil graças à decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e já possuí visto permanente, CPF, carteira de motorista, telefone e contrato de trabalho em seu nome. “Todos os documentos possíveis que pode ter um imigrante normal”, observou.

Visto: Visto concedido a Cesare Battisti é legal, reage ministro do STF

Daniel Aderaldo / iG Ceará
Cesare Battisti lançou o livro de ficção “Ao Pé do Muro”
Novo Romance

Battisti esteve nesta segunda-feira (19) em Fortaleza – um dia depois de completar 57 anos – a convite do grupo de extrema-esquerda Crítica Radical para uma espécie de pré-lançamento de sua obra mais recente,  – escrito em francês e traduzido para o português. O romance foi inspirado nos quatro anos que o ex-ativista passou no presídio da Papuda, em Brasília.

O italiano confia que sua próxima obra já possa ser escrita em português. “Eu estou aprendendo. Já sonho em português”, revelou. Entretanto, apesar de ter escrito sobre o que vivenciou no cárcere no Brasil, ele não pretende abordar a batalha jurídica que travou para não ser extraditado

Anistia

O ex-militante de extrema-esquerda da organização Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), condenado pela Itália por quatro assassinatos ocorridos nos anos 1970, evitou falar sobre a situação política de seu país alegando que o Estatuto do Imigrante o proíbe. Contudo, ele negou que a recusa do Brasil diante do pedido de extradição do governo italiano tenha causado um desgaste diplomático entre as duas nações e disse que espera um dia ser anistiado e poder voltar à Itália.

“Eu tenho essa esperança. Não sou só eu como dezenas de refugiados italianos. Todos os outros países conseguiram curar essa ferida e fizeram uma anistia. Uma verdadeira democracia tem força para pacificar o país. Se não consegue, o Estado não é bastante forte. Não é tão sólido”, declarou ele.

Cronologia do caso

Depois de escapar da prisão de Frosinone, perto de Roma, Battisti passou um longo período refugiado no México e na França. Ele chegou clandestinamente ao Brasil em 2004 e terminou preso três anos depois no Rio de Janeiro. Em janeiro de 2009, o então ministro da Justiça, Tarso Genro, anunciou a decisão de conceder o refúgio ao italiano. Diante das pressões lançadas pelo governo italiano, o caso foi parar no Supremo Tribunal Federal (STF). Em setembro, a corte autorizou a extradição, mas determinou que a decisão final ficaria a cargo do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. Em seu último dia de governo, Lula pôs fim ao impasse e decidiu não extraditá-lo.

Refúgio político: Lula decide manter Battisti no Brasil

Veja a cronologia do caso

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