Governo escala ministros Guido Mantega, Carlos Lupi e Gilberto Carvalho para nova reunião com sindicalistas, hoje, em São Paulo

Rivais no movimento sindical, Central Única dos Trabalhadores (CUT) e Força Sindical se uniram no discurso para a reunião com o governo federal, marcada para esta sexta-feira, em São Paulo, e que pode definir o valor do reajuste do salário mínimo para este ano. Nos bastidores, porém, a tensão provocada pela negociação já resulta nas primeiras rusgas entre lideranças sindicais.

Reunião entre membros do governo e representantes das centrais sindiciais, na semana passada, que terminou sem acordo
AE
Reunião entre membros do governo e representantes das centrais sindiciais, na semana passada, que terminou sem acordo
O encontro vai reunir os líderes das seis centrais e os ministros Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral da Presidência da República), Guido Mantega (Fazenda) e Carlos Lupi (Trabalho e Emprego).

Enquadradas por declarações recentes da presidenta Dilma Rousseff , que deu sinais de que não abre mão dos R$ 545 propostos pelo governo, as lideranças sindicais argumentam que o valor vai de encontro ao acordo de valorização permanente do salário. Dizem que o valor sugerido pelo governo apenas corrige as perdas com a inflação de 2010. A atual política para o salário mínimo provê reajuste com base na variação do Produto Interno Bruto (PIB) de dois anos atrás mais a inflação. Como em 2009 a economia encolheu, o salário, para 2011, sofreria apenas uma correção com base na inflação.

O deputado Paulo Pereira da Silva, que tomou a dianteira nas críticas ao novo governo, durante manifestação por mínimo de R$ 580, na av. Paulista
AE
O deputado Paulo Pereira da Silva, que tomou a dianteira nas críticas ao novo governo, durante manifestação por mínimo de R$ 580, na av. Paulista
Durante a semana, o presidente da Força, o deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), indicou que seria aceitável que houvesse antecipação do salário para 2012 - já que a variação da economia foi maior em 2010. A indicação foi mal recebida pelos dirigentes da CUT, que disseram que o deputado estaria colocando o carro na frente dos bois, entregando a estratégia para o adversário.

Oficialmente, CUT e Força defendem que, desta vez, o governo leve em conta a excepcionalidade enfrentada pelo País em 2009, quando medidas anticíclicas foram tomadas para o enfrentamento da crise financeira internacional – com corte de impostos e injeção de recursos para empresas via bancos públicos. “Queremos tratar 2011 de forma excepcional, da mesma forma como trataram as empresas, diminuindo impostos, ampliando o crédito de bancos públicos. Todas essas medidas, corretas, na nossa opinião, foram aprovadas, de forma também excepcional, naquele momento, e reduziram os impostos e a arrecadação”, diz Artur Henrique, presidente da CUT.

“Queremos que essa excepcionalidade seja levada em conta. Em 2009, o governo cedeu, o que foi bom, foi muito importante. Agora queremos o mesmo privilégio. A excepcionalidade vai ser menor do que o governo gastou ( naquele ano )”, completa Miguel Torres, vice-presidente da Força.

Obstáculos

Um dos obstáculos que serão enfrentados pelas centrais será o argumento do governo de que a injeção de recursos na economia com o reajuste acima do proposto poderia, além de comprometer o orçamento, incentivar o consumo e provocar inflação – algo que as centrais rejeitam. “Esse dinheiro volta para o governo na forma de impostos”, argumenta Henrique.

“Antes, falavam que ( o aumento do salário mínimo ) quebrava a prefeitura, os Estados, mas, com o aumento dos últimos anos, o País teve mais renda, melhorou. Estamos ajudando a presidenta. Ela não quer erradicar a pobreza? Esta é a ferramenta mais eficaz”, completa Torres.

Insatisfeitos com falta de diálogo com governo, sindicalistas vão às ruas protestar por aumento do salário mínimo
AE
Insatisfeitos com falta de diálogo com governo, sindicalistas vão às ruas protestar por aumento do salário mínimo
A reunião acontece num momento de tensão na relação entre governo e centrais – que evocam um certo saudosismo da gestão do ex-presidente Lula, segundo elas mais aberta ao diálogo. Na última semana, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, foi ironizado e chamado de “insensato” em nota assinada por Paulinho da Força, por negar que o governo estivesse disposto a promover mudanças na tabela do Imposto de Renda.

As centrais defendem que o governo aumente a faixa para isenção do imposto, que, segundo elas, “comeria” os ganhos obtidos pelos trabalhadores – acima da inflação – nos últimos meses. Questionada sobre o tema, Dilma demonstrou irritação por esse assunto ter entrado em pauta juntamente com a discussão sobre salário mínimo.

A correção da tabela é uma questão “prioritária” e deve ser discutida na reunião de sexta-feira, segundo Artur Henrique. “É evidente que são temas diferentes, porque atingem públicos diferentes. O salário mínimo beneficia 49 milhões de pessoas em todo Brasil e a correção da tabela atinge a grande maioria da classe trabalhadora. O que nós defendemos é que não dá para deixar de tratar do tema”, diz Henrique.

Em sua mensagem ao Congresso, na última quarta-feira, Dilma sinalizou que estuda enviar aos parlamentares um projeto para que haja uma política de valorização permanente do salário mínimo. É isso o que será cobrado no encontro com os ministros, segundo as centrais – para que seja mantido acordo semelhante com o que foi assinado com Lula no segundo mandato.

“Queremos que o compromisso assumido durante a campanha possa ser garantida por uma medida provisória que garanta valorização do salário até 2015”, diz o líder da CUT.

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