Capitaneado por Valdemar, PR trata dissidentes com mão de ferro

Ameaças de expulsão, ostracismo e até perda de mandato são usados por sigla para intimidar parlamentares que contrariam cúpula

Fred Raposo, iG Brasília |

Pivô da crise no Ministério dos Transportes, o Partido da República (PR) vem tratando com mão de ferro parlamentares que contrariam as orientações da cúpula da legenda. O controle da sigla é exercido por seu secretário-geral, o deputado Valdemar Costa Neto (SP).

Dentro - e até fora - da legenda, Costa Neto é considerado dotado de “superpoderes”, seja pelo controle que tem da Executiva Nacional do PR, seja pelo trânsito, conquistado no governo Lula, junto ao Executivo.

Parlamentares do PR que enfrentaram o cacique amargam processos de expulsão - o que pode resultar em perda de mandato -, retirada de poder em suas bases eleitorais ou mesmo condenação ao ostracismo político em pleno exercício do cargo.

O deputado Sandro Mabel (PR-GO) vive uma síntese desses efeitos. Mabel era líder do partido e um dos principais quadros da sigla quando, no início do ano, lançou candidatura avulsa na eleição para a Presidência da Câmara contra Marco Maia (PT-RS), que era apoiado pelo PR.

A decisão de manter a candidatura lhe custou um processo interno de expulsão da legenda. Ele diz que vem buscando apoio dentro do partido para manter a filiação, mas responsabiliza Costa Neto pelo processo. “Foi o Valdemar que decidiu que tinha que me expulsar”, disse Mabel ao iG .

“Estou lutando contra isso. Deixei a cúpula do partido há muito tempo e hoje tento sobreviver”, afirmou. Mabel também entrou em uma briga na Justiça para se manter na presidência do diretório goiano, entregue a José Francisco das Neves, o Juquinha, ex-presidente da estatal ferroviária Valec.

Ele diz não ter intenção de deixar o partido. Mas alega sofrer “constrangimentos” como, por exemplo, o nome de Juquinha constar no site do PR como atual presidente do diretório goiano, embora tenha obtido liminar para continuar à frente da regional da sigla. “A situação é complicada. Você sofre um número de humilhação que é grande”, reclama. “Lá no estado isso cria um problema político”.

O senador Clésio Andrade (MG) e o deputado José Carlos Araújo (BA), hoje no PDT, também foram obrigados a deixar as presidências regionais do PR após desentendimentos com Costa Neto. Ex-vice-governador de Minas Gerais, Clésio foi retirado do cargo no ano passado, após interferência da Executiva Nacional na decisão sobre o candidato que o partido apoiaria ao governo do estado.

Clésio declarou apoio a Hélio Costa (PMDB), seguindo a orientação de Lula, enquanto o PR apoiou oficialmente o atual governador Antonio Anastasia (PSDB), afilhado político do tucano Aécio Neves. Daí em diante, a relação dentro do partido azedou. Em meio à crise nos Transportes, Clésio chegou a reivindicar cargos no Dnit, mas foi desautorizado pelo líder do partido na Câmara, Lincoln Portela (MG).

Garantia

Já Araújo deixou o comando do diretório baiano do PR em 2009, quando o presidente do partido, Alfredo Nascimento (AM), convidou o então senador César Borges para assumir o posto. “Me estuparam da presidência para dar ao César Borges, sem me dar satisfação. Isso foi uma exigência dele em troca de apoio o governo na votação da CPMF”, disse. O pedetista também atribui a perda de comando a Costa Neto.

“A decisão foi do Alfredo, mas ninguém faz nada no PR que não tenha o beneplácito do Valdemar”. Ele explica que, para não ter o mandato cassado, juntou documentação da disputa que travou com Borges pela presidência do diretório. Como resultado, obteve uma carta do partido para deixar o PR com a garantia de que a sigla não pediria seu mandato. “Fiquei com medo de ficar no partido e tirarem meu espaço”, assinalou.

Liderança paralela

Parlamentares que se posicionam contra o grupo majoritário do PR, liderado por Costa Neto, reclamam que esses “superpoderes” se baseiam no estatuto da legenda, que prevê punição no caso de “grave divergência entre seus membros”, e na legislação eleitoral, que decidiu que os mandatos pertencem aos partidos e às coligações, e não aos candidatos eleitos.

Na Câmara, estima-se que pelo menos 35 dos 40 deputados do PR estão com Costa Neto. Mas o secretário-geral exerce ainda uma espécie de “liderança paralela” na base, que chegaria a cerca de 70 deputados, se somados parlamentares de outros partidos.

Além de Mabel, os dissidentes declarados incluem Diego Andrade (PR-MG), sobrinho do senador Clésio Andrade e que já anunciou que criará um novo partido , e Jaime Martins (PR-MG). Costa Neto foi procurado em seu gabinete pela reportagem, mas não foi encontrado. A assessoria de imprensa do PR afirmou que o secretário não dá entrevistas.

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