Argentina temeu ambição nuclear de Lula, diz WikiLeaks

Em conversa com diplomatas americanos em 2009, funcionários argentinos disseram temer aproximação do Brasil com o Irã

AE |

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A Argentina temeu que as ambições internacionais do governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva levassem o Brasil a rever seus compromissos na área de proliferação nuclear - caminhando perigosamente rumo à bomba atômica.

AFP
Lula, Ahmadinejad e Erdogan comemoram após anúncio de acordo em Teerã (17/5/2010)

Em conversa reservada com diplomatas americanos no dia de Natal de 2009, funcionários argentinos disseram que uma "luz amarela" acendera em Buenos Aires diante da aproximação do Brasil com o Irã de Mahmoud Ahmadinejad e da abertura de uma embaixada brasileira na Coreia do Norte.

O relato completo do encontro está entre as centenas de cabos da Embaixada dos EUA em Buenos Aires divulgados pelo WikiLeaks . "Confidencial", a mensagem revela como traços da rivalidade histórica no campo nuclear entre os vizinhos não foram totalmente apagados, nem mesmo com a aproximação a partir do fim dos anos 80 e a calorosa relação entre os governos Lula e Néstor Kirchner.

Entenda: Saiba mais sobre o WikiLeaks

Chefe da direção de assuntos atômicos da Chancelaria de Buenos Aires, Gustavo Ainchil falou sobre o temor argentino à embaixadora americana Vilma Martínez. Amparado em sua "imensa popularidade", Lula adotou uma política externa "arriscada", analisou o argentino.

Além do Irã e da missão em Pyongyang, Ainchil cita o fato de o Brasil ser "o único Bric" sem a bomba atômica - em 2009, a África do Sul ainda não integrava o grupo. Ainchil diz que há "certo alívio" na Argentina com o iminente fim do governo Lula. "Nenhum sucessor tentará manter uma política externa tão arriscada."

Preocupação

Antes dessa conversa, outro diplomata argentino, não identificado, havia procurado a Embaixada dos EUA em Brasília com a mesma mensagem de preocupação. O despacho revelado pelo WikiLeaks foi enviado dois meses após o então vice-presidente José Alencar ter defendido uma arma nuclear brasileira, o que "daria mais respeitabilidade" ao País. Procurados pela reportagem, os governos da Argentina, EUA e Brasil não quiseram se pronunciar oficialmente.

A Argentina chegou a pensar numa resposta a uma eventual retirada do Brasil da agência argentino-brasileira de controle nuclear (ABACC) ou mesmo na possibilidade - "improvável" - de o País fabricar a bomba. Os argentinos, então, buscariam "desenvolver tecnologia nuclear pacífica avançada para mostrar sua capacidade, mas sem seguir o caminho todo até a bomba".

Federico Merke, da universidade argentina de San Andrés, diz que o cabo do WikiLeaks "é uma boa descrição da incerteza que existe entre funcionários e analistas argentinos". "O Brasil não é visto como um país que logo terá a bomba, mas como um Estado que não termina de tornar transparente seu programa nuclear", afirmou. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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