Apoio dos EUA à Índia não afeta meta do Brasil na ONU, diz Lula

Ao chegar a Moçambique, presidente minimiza declaração de Obama sobre país asiático como membro fixo do Conselho de Segurança

Agência Brasil |

Ricardo Stuckert/PR
Presidente Lula durante chegada ao Aeroporto Internacional de Mavalane, em Moçambique
MAPUTO - O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, desembarcou nesta segunda-feira à noite em Maputo para sua última visita à África no exercício do cargo. O avião presidencial, procedente de Brasília, pousou na Base Aérea de Malavane às 23h30 - hora local (19h30 em Brasília).

Ao chegar na capital de Moçambique para uma visita de dois dias, Lula comentou o apoio dos Estados Unidos à entrada da Índia no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). Para o presidente, a decisão americana não é uma ameaça às pretensões brasileiras de ter um assento permanente no órgão.

“Pelo contrário”, disse. “O Brasil defende a participação da Índia. E a Índia faz parte do G4 (Brasil, Índia, Alemanha e Japão). Eu só espero que o presidente Obama [Barack Obama, presidente dos Estados Unidos] faça agora desse compromisso, dele com a Índia, uma profissão de fé e consiga efetivamente abrir o Conselho de Segurança para que outros países possam participar”, afirmou.

Lula também falou sobre os problemas envolvendo as provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) aplicadas nesse fim de semana e que foram suspensa pela Justiça Federal no Ceará. “É muito difícil lidar com seriedade quando se tem pessoas que não agem com seriedade”, afirmou o presidente. De acordo com ele, o Enem foi um “sucesso extraordinário, com mais de 3 milhões de participantes. “Não vai ser um ou outro caso que vai impedir o sucesso do Enem”, disse.

A agenda do presidente Lula em Maputo contempla as iniciativas de cooperação, diplomáticas e comerciais. Ela começa amanhã (9), às 11h da manhã (8 horas em Brasília), com uma aula magna na Universidade Pedagógica de Moçambique, que se torna a primeira instituição estrangeira a fazer parte da Universidade Aberta do Brasil (UAB), que capacita professores por meio do ensino à distância. A Universidade Eduardo Mondlane também participa do projeto.

O acordo prevê, ao fim de quatro anos, a participação de mais de 7 mil estudantes em quatro cursos – gestão pública, pedagogia, matemática e biologia. Mais de 90 universidades brasileiras estão envolvidas na UAB. Os estudantes farão jus à dupla diplomação (os diplomas serão reconhecidos nos dois países) e os cursos terão metade do currículo desenvolvido em cada país.

A aula inaugural será transmitida simultaneamente plea internet para dois polos instalados em Moçambique, além da capital Maputo: Lichinga e Beira. Um total de 620 estudantes vai acompanhar a palestra.

À tarde, o presidente Lula irá receber um grupo de empresários brasileiros e moçambicanos para um encontro no Hotel Serena Polana. Ele terá uma reunião fechada com representantes de empresas brasileiras já instaladas em Moçambique, como a Camargo Correa, Andrade Gutierrez, Vale, Queirós Gavão e outras.

No fim do dia, o presidente irá a um jantar na residência oficial da Ponta Vermelha, sendo recebido pelo colega moçambicano Armando Emílio Guebuza. Na ocasião, serão assinados atos de cooperação. Dois deles na área de saúde materno-infantil: um ajuda na criação de um banco de elite materno e outro no desenvolvimento de uma biblioteca de saúde.

A agenda termina na quarta-feira, de manhã, com a visita à futura fábrica de medicamentos antirretrovirais construída com apoio do Brasil. Um projeto que nasceu há sete anos, quando da primeira visita de Lula ao país. O presidente brasileiro irá ao local onde ela será instalada – um galpão de 2 mil metros quadrados ao lado de uma fábrica de soros do governo moçambicano, na cidade da Matola, vizinha a Maputo.

O Brasil também irá doar 21 dossiês de medicamentos a serem produzidos em Moçambique, sem a necessidade de pagamento de direitos ou royalties. Cada documento, no mercado, poderia custar entre U$ 30 e 80 mil.

Hoje, técnicos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) - que fará a gestão técnica da fábrica - terminavam a instalação da primeira máquina da linha de produção, que terá a função de moldar e embalar comprimidos. Ela ficará em Moçambique até a chegada do conjuntos completo de novos equipamentos adquiridos nos Estados Unidos. A peça, emprestada, foi trazida da Fiocruz há dez dias, em um avião da Força Aérea Brasileira.

A coordenadora do projeto, Lícia de Oliveira disse que há necessidade de uma obra de adequação do prédio, que deve começar ainda no mês que vem. “A previsão é de que, entre março e abril, chegue o conjunto completo de equipamentos, que será instalado em paralelo à obra”. Depois de terminada a readequação técnica do prédio, a fábrica precisa receber a validação
e passa pela fiscalização para funcionamento.

“A primeira fase se dará pelo processo de capacitação para a feitura de embalagem e técnicas de controle de qualidade, até chegar à fabricação propriamente dita. Mas no fim do processo, aqui haverá uma fábrica completa”, explicou diz Hayne Felipe, diretor de Farmanguinhos, unidade técnico científica da Fiocruz. Segundo ele, a previsão “otimista” é de que isso ocorra até 2012.

“É extremamente gratificante e importante ajudar a capacitar este país tecnologicamente e, ao mesmo tempo, dar a ele condição de enfrentar este quadro trágico que é a epidemia de HIV/aids”, disse Hayne. “Nos traz uma lembrança de quando tivemos que enfrentar situação semelhante na década de 1970, no Brasil, com relação à produção de imunobiológicos”.

Moçambique está entre os dez países mais atingidos pelo vírus da aids no mundo, com índice de prevalência de 15% entre os adultos. Ao todo, o país tem cerca de 1,7 milhão de infectados em uma população de cerca de 22 milhões de habitantes.

Eduardo Castro/Edição: Aécio Amado

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