Amizade de Kassab e líder do PSD existe antes de aliança política

Guilherme Campos (SP) fez faculdade de engenharia com o prefeito de São Paulo. Kassab impulsionou carreira política do amigo

Adriano Ceolin, iG Brasília |

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Líder do PSD na Câmara
A principal credencial do líder do partido que pode se consolidar como a terceira maior força na Câmara não é política. O deputado federal Guilherme Campos Júnior (SP) chegou ao comando da bancada do PSD por ser amigo há 30 anos do prefeito de São Paulo e presidente nacional da nova legenda, Gilberto Kassab. “E eu devo a ele o meu ingresso na política”, diz Campos ao iG .

Campos, 48 anos, e Kassab, 51 anos, se conheceram no começo dos anos 1980, quando os dois se matricularam na Escola Politécnica de Engenharia da Universidade de São Paulo (USP). Logo depois de se formar, Kassab foi trabalhar na Associação Comercial do Estado de São Paulo. No mesmo período, incentivou Campos a atuar na sede da entidade na cidade natal dele, Campinas.

Localizada a 96 km da capital paulista, Campinas é  a terceira cidade mais populosa do Estado de São Paulo. Em 1961, o pai de Campos criou uma pequena loja de roupas de cama, mesa e banho na cidade, a Campos Casa. O negócio deu certo e até hoje é a principal fonte de renda da família. “Sou um vendedor de toalhas”, resume Campos, que no site da Câmara é citado como empresário e comerciante.

Ele conta que, dentro da família, a política “sempre foi uma lembrança não agradável”. Em 1976, seu pai foi candidato a prefeito de Campinas pela Arena, partido ligado à ditadura militar, e acabou derrotado por Chico Amaral, do então MDB. “Meu pai era um homem público sem cargo público. Fazia muito pela cidade, mas eleitoralmente nunca foi forte”, diz.

Em 1999, Kassab estava no PFL há apenas cinco anos e havia acabado de se eleger deputado federal pela primeira vez. Das mãos do então presidente nacional pefelista, Jorge Bornhausen, havia recebido a missão de reorganizar o PFL no Estado de São Paulo. Sabendo da importância de Campinas, Kassab recrutou o amigo Guilherme Campos para organizar o partido na cidade.

A estruturação só se consolidou em 2003, quando Campos passou a pavimentar a participação do PFL na eleição para a prefeitura de Campinas. Em princípio, articulou uma aliança com o PSDB, do deputado federal Carlos Sampaio (SP), favorito para disputa naquele momento. Os dois também eram amigos de longa data, estudaram juntos no Colégio Pio XII, em Campinas.

Vice-prefeito de Campinas

“O PFL ia apoiar a minha candidatura a prefeito. Então ajudei o Guilherme a montar as candidaturas de vereadores. Meu irmão, por exemplo, foi filiado ao PFL para ser candidato a vereador”, diz Sampaio. “Mas, a uma semana do prazo final para montar as chapas, o Guilherme anunciou que seria o vice na chapa do meu adversário, o Dr. Hélio (PDT)”.

Campos conta que, na oportunidade, houve uma interferência do PFL nacional para que ele deixasse a aliança com o PSDB e ficasse com o PDT. Segundo o deputado, Bornhausen havia fechado um acordo com o então presidente nacional pedetista, Leonel Brizola, para que o PFL apoiasse a candidatura de Dr. Hélio em Campinas.

De fato, Brizola se aproximou do DEM entre o fim de 2003 e o começo de 2004. O líder pedetista havia rompido com Lula logo no começo do governo apesar de ter apoiado sua candidatura no segundo turno de 2002. Brizola faleceu em junho de 2004, pouco antes do início da corrida eleitoral naquele ano.

“O Bornhausen disse para o Kassab que tinha de manter o acordo com o Brizola, por isso eu apoiei o Dr. Helio em Campinas e fui o vice dele”, diz Campos. Na capital paulista, o amigo Kassab acabou sendo o vice na chapa encabeçada pelo tucano José Serra. Também nesse caso Bornhausen também foi decisivo, já que Serra preferia Lars Grael como vice.

Tanto em Campinas como em São Paulo houve segundo turno em 2004. Se na capital paulista, Serra e Kassab enfrentam o PT, de Marta Suplicy. Em Campinas, Dr. Helio e Guilherme Campos receberam o apoio dos petistas contra o tucano Carlos Sampaio. Na oportunidade, o então ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu (PT), foi até a cidade apoiar a chapa PDT-PFL-PMDB.

Campos avalia a experiência como um processo de aprendizagem. “A política atende demandas de todos os tipos, para todos os gostos e para todos fins. E como, em qualquer setor, tem gente boa e gente ruim”, afirma o então pefelista, que saiu vitorioso daquele pleito ao lado de Dr. Helio.

A experiência durou pouco. No fim de 2005, Campos decidiu renunciar para disputar uma vaga de deputado federal. De novo, a ação foi incentivada por Kassab, que, com a renúncia Serra para disputar o governo do Estado, herdou o comando da Prefeitura paulistana a partir de janeiro de 2006.

Ida para a Câmara

O plano de Kassab era não perder espaços políticos. Em 2004, ele havia deixado a cadeira na Câmara para ser o vice de Serra. Em 2006, Kassab resolveu usar sua estrutura eleitoral e partidária para lançar cinco candidatos a deputados federal. Entre eles, claro, o amigo Guilherme Campos. “Ele usou a base dele para nos eleger”, conta Campos.

Deu certo. Além de Campos, ganharam uma vaga na Câmara Walter Ihoshi e Eleuses Paiva, todos na época filiados ao PFL, que depois mudou de nome para DEM. Ou seja, Kassab havia multiplicado sua cadeira de deputado por três. Este ano, assim que foi anunciada a criação do PSD, os primeiros deputados federais a seguirem os passos de Kassab foram Campos, Ihoshi e Paiva.

Em 2008, Kassab disputou a reeleição. Em Campinas, o amigo Campos apoiou a recondução de Dr. Helio. Nesta oportunidade, no entanto, a vaga de vice ficou com o PT, que indicou Demétrio Vilagra. "Política é isso também: diversidade", resume Campos. Em agosto deste ano, Dr. Hélio teve uma o mandato cassado após sofrer diversas denúncias de corrupção

Questionado se a experiência de participar de uma chapa com o PT foi um embrião do viria ser o PSD, partido que busca aproximação com o governo Dilma Rousseff, ele discorda. "Somos um partido de centro. E não dá para comprar um caso de Campinas com uma questão nacional", diz.

Na semana passada, Campos participou, pela primeira vez, da reunião de líderes na Câmara representando o PSD. Por ora, ele não planeja muito seu futuro político. “Ser candidato a prefeito talvez, não sei. Quero mesmo fazer um bom mandato, ajudar as pessoas no melhor que eu puder”, diz Campos, que é casado, tem dois filhos e torcedor da Ponte Preta.

A única certeza, porém, é que vai permanecer aliado e amigo de Kassab por um bom tempo.

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