Aliança com PSDB desconfigurou o partido em Minas, diz petista

Ao iG, deputado Odair Cunha afirma que PT perdeu identidade na capital mineira e que em 2012 legenda retomará discurso de esquerda

Fred Raposo, iG Brasília |

O deputado e vice-líder do governo Odair Cunha (PT-MG) avalia que o partido vem perdendo espaço na capital mineira, Belo Horizonte, em boa parte devido à aliança firmada com o PSDB em 2008. Na época, o PT se aliou ao então governador tucano Aécio Neves para eleger Márcio Lacerda (PSB) prefeito da capital.

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Em entrevista ao iG , Cunha afirma que a parceria “desconfigurou” o projeto do partido. “Os avanços que se produziu na capital se fundiram, no imaginário popular, com o governo do PSDB”. Para o petista, o partido deve retomar, nas eleições municipais do ano que vem, o discurso de esquerda. “A capital sempre votou na esquerda”.

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Odair Cunha, deputado federal pelo PT de Minas

O vice-líder diz que candidatura própria para prefeito “não é o melhor caminho” e que a intenção é manter uma “aliança estratégica” com o PSB. Na prática, isto significa repetir a dobradinha de Lacerda na prefeitura e um petista na vice-prefeitura.

Mas o PT não descarta lançar nome próprio. Entre eles, o do atual vice-prefeito, Roberto Carvalho, e o do deputado Miguel Corrêa. Já para a eleição de governador, em 2014, Cunha aponta o ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento) como principal nome.

Sobre o racha do PT na Câmara, que resultou em derrota para o governo na votação do Código Florestal, o deputado afirma que “houve descompasso” por parte da bancada. O texto que seguiu para o Senado foi aprovado com emenda que concede anistia a desmatadores até 2008.

Cunha, no entanto, ameniza a divisão do partido na Câmara. “A bancada não é parte do problema, é parte da solução. Mesmo quando a bancada do PT erra, ela erra tentando sustentar o projeto do presidente”, assinala o petista.

iG: Como o PT de Minas está se preparando para as eleições municipais do ano que vem?

Odair Cunha: Estamos na fase inicial do debate. A ideia é fazer um mapeamento de onde temos viabilidade eleitoral e, sem dúvida, buscar a reeleição das cidades onde governamos. O PT hoje governa as principais cidades do estado, são mais de cem.

iG: Mas o PSBD domina a maior parte do estado.

Odair Cunha: O PSDB não governa as cidades pólos, à exceção de Juiz de Fora. Nós governamos Contagem, Betim, Governador Valadares, Teófilo Otoni, Vargínia, Pouso Alegre. Obviamente o governador (Antonio Anastasia, do PSDB) tem apoio da maioria dos prefeitos. Mas o PT tem uma presença importante nas principais cidades pólos do estado, e queremos mantê-la.

iG: O PT vai reeditar, na eleição para prefeito de Belo Horizonte no ano que vem, a aliança firmada em 2008 com o PSDB?

Odair Cunha: Nós defendemos a aliança com o PSB. Para o nosso projeto estratégico não cabe uma aliança com o PSDB. É exatamente esse o debate que estamos fazendo com o prefeito Márcio Lacerda. O PSB é um partido importante da base de sustentação do governo da presidenta Dilma.

iG: Tem sinalização de que o Lacerda vai se aliar ao PT?

Odair Cunha: Como todo bom candidato, ele tenta ganhar tempo antes de fazer essa opção. Obviamente o PT se prepara, tem alternativas de candidatura própria. Todavia, a candidatura própria não é o melhor caminho nesse momento. Queremos uma aliança estratégica com o PSB.

iG: Ela inclui manter Roberto Carvalho na vice-prefeitura?

Odair Cunha: O nome o partido ainda precisa discutir. Entendo que se o atual vice se dispuser, creio que ele deva ser o nosso nome.

iG: Quais nomes o PT estuda no caso de lançar candidatura própria?

Odair Cunha: O nome de maior força é o do próprio Roberto Carvalho. Fala-se também no deputado federal Miguel Corrêa.

iG: Que análise o senhor faz da aliança do PT com o PSDB, em 2008?

Odair Cunha: Ela foi desvantajosa na medida em que produziu uma confusão de programas e de projetos na capital. Trouxe um desacúmulo para o PT, cuja identidade o partido desenvolvia há 16 anos.

iG: Houve uma perda de identidade?

Odair Cunha: Com certeza. Não para o PT, mas das pessoas em relação ao PT. O PT não ficou menor. Mas o programa estratégico e os avanços que se produziu na capital se fundiram, no imaginário popular, com o governo do PSDB. A capital sempre votou na esquerda. A população de Belo Horizonte se sente representada num projeto de esquerda, tanto que na eleição para presidente votou na Marina no primeiro turno e na Dilma no segundo turno. Essa aliança desconfigurou o nosso projeto na capital.

iG: O PT terá candidato próprio na eleição para governador em 2014?

Odair Cunha: Sim. O partido tem unidade suficiente sobre esse entendimento. Acho que o melhor nome que o PT tem, nesse momento, é o ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento). Obviamente que o ministro precisa, enquanto militante do nosso partido, ir trabalhando a sua pré-candidatura ao longo dos anos. Mas o nome mais evidente é o dele.

iG: Qual é o motivo da divisão do PT na Câmara? Havia um dissenso entre a eleição do Marco Maia e do Cândido Vaccarezza para a Presidência da Câmara?

Odair Cunha: Dentro da bancada de Minas, que tem oito deputados, havia gente que apoiava o Vaccarezza, o Arlindo Chinaglia e o Marco Maia. A escolha do Marco Maia foi um processo de entendimento que unificou a bancada. A bancada não blocou contra o Vaccarezza. A bancada blocou a favor do Marco Maia. A bancada do PT não pode ficar com medo de votar, de ter divergência de pensamento.

iG: O racha foi pacificado? Onde se errou?

Odair Cunha: O Código Florestal foi um erro da bancada. Havia uma pluralidade de pensamentos e, na hora da votação, houve um descompasso. A bancada do PT se coloca como protagonista da governabilidade. A bancada não é parte do problema, é parte da solução. Sempre foi. Mesmo quando a bancada do PT erra, ela erra tentando sustentar o projeto do presidente.

iG: A insatisfação da presidenta Dilma com a divisão do PT na Câmara influiu na escolha da Ideli Salvatti para o ministério de Relações Institucionais (SRI)?

Odair Cunha: O Executivo leva em conta todos os elementos envolvidos. As divergências na bancada fizeram com que a presidenta tomasse uma opinião. A bancada do PT não se sente constrangida de ter a ministra Ideli à frente da SRI. Quando senadora, ela teve uma excelente relação com a bancada do PT na Câmara e com a militância do PT.

iG: O senhor viu com bons olhos a escolha?

Odair Cunha: Excelente. O redesenho dos papéis na coordenação política é essencial. O ministro Luiz Sérgio (hoje na Pesca) não foi fritado pela bancada do PT. Mas não foi dado a ele os instrumentos necessários para fazer a coordenação política.

iG: Que instrumentos são esses?

Odair Cunha: Por exemplo, o pagamento de emendas parlamentares no primeiro semestre. Pode-se argumentar que o governo precisava fazer isso para garantir o superávit fiscal. Mas o momento foi ruim para quem estava à frente da SRI. Creio que viveremos um novo momento.

iG: A ministra Ideli anunciou que deve acelerar o processo de escolha de segundo e terceiro escalão do governo. O PT de Minas, até o momento, se sente contemplado?

Odair Cunha: O PT mineiro e os partidos da base apresentaram uma lista única de encaminhamento de currículos a serem ocupados nos espaços do governo federal no estado. Esperamos que esses nomes que a bancada da presidenta Dilma apresentou sejam nomeados.

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