Agricultura não é moeda, diz presidente da Agrishow

¿Vamos fazer uma batalha campal para que a agricultura não seja mais tratada como moeda de troca¿, diz presidente da Agrishow

Marcelo Diego, enviado a Ribeirão Preto (SP) |

Produtor de grãos e pecuarista em Mato Grosso do Sul e em Minas Gerais, Cesário Ramalho da Silva assumiu o Conselho Consultivo da Agrishow (Feira Internacional de Tecnologia Agrícola em Ação, a maior do setor no Brasil), em 2009, com duas missões destacadas: contornar o clima de instabilidade em torno do evento, que impedia a expansão dos negócios, e ser um porta-voz ativo das demandas do setor.

A primeira missão parece bem encaminhada. A Agrishow obteve do governo de São Paulo um termo de compromisso que prevê a cessão do espaço físico para a realização do evento pelos próximos 30 anos. Nas primeiras edições (essa é a 17), o contrato era renovado de ano a ano. Depois, o prazo passou para cinco anos. Agora, com a dilatação, a organização acredita que não só os expositores poderão diluir os custos de montagem dos estandes, como poderão atrair mais setores representativos do agronegócio em edições futuras.

Quanto às demandas do setor, um exemplo do alcance da feira será dado nesta quinta-feira, quando a pré-candidata à Presidência pelo PT, Dilma Rousseff, viaja a Ribeirão Preto para visitar alguns dos 730 expositores espalhados em uma área de 360 mil metros quadrados. Ainda nesta quinta ou na sexta está sendo aguardada a presença de José Serra, pré-candidato à Presidência pelo PSDB. O recado que Cesário Ramalho pretende passar é simples, claro e direto: “Queremos ser tratados a altura de nossa importância econômica. Chega de a agricultura ser tratada como moeda de troca política”.

Cesário Ramalho diz que a escolha do próximo ministro da Agricultura deve ser baseada em critérios técnicos. “O governo Lula começou bem, indicando o ministro Roberto Rodrigues, que conhece o setor, que é um representante do setor. Mas agora virou um ministério do PMDB. Nós não queremos mais isso. Nós queremos que o ministro da Agricultura seja conversado, seja debatido com a classe rural. Tem que ter um compromisso maior”, afirmou.

Ele diz que, diferentemente de eleições passadas, o setor rural marcha organizado para eleger representantes que atendam ao seu interesse em 2010. “Nós vamos fazer uma batalha campal para que o Ministério da Agricultura deixe de ser moeda de troca.”

Para o presidente da Agrishow, esse é o primeiro passado. “A partir daí, vamos fazer sugestões de governança, da importância de várias atitudes e programas que poderiam ser implementados.”

Ele lista uma série de obstáculos enfrentados pelo produtor agropecuário atualmente. Para ele, o que está afastando o investimento no setor hoje é uma mistura dos seguintes problemas: juro mais caro do mundo, excesso de impostos, câmbio desnivelado, falta de mão-de-obra qualificada, nenhum subsídio nem securitização da safra, legislação ambiental equivocada e defasada, deficiência na infra-estrutura.

Cesário Ramalho usa exemplos concretos para ilustrar os problemas. “Pega o Estado do Mato Grosso. Metade do valor da soja produzido no Estado é gasto com frete para chegar ao porto. Não há preocupação do governo a respeito”, diz. Sobre os juros, ele nega que a taxa do setor, de 6,5% ao ano, seja menor do que a paga por outros ramos produtivos. “Não consigo tocar minha lavoura só com financiamento do governo, preciso tomar juros com taxas de mercado. E, segundo o Banco do Brasil, a taxa média cobrada do agricultor é na verdade de 15% ao ano”.

O agricultor também diz que a legislação trabalhista é antiquada e urbana. “Temos que ter regras para o campo”. E critica o que considera uma permissividade em relação à insubordinação do movimento rural sem terra. “O MST tem 82,4 milhões de hectares no país, contra uma agricultura empresarial que detém apenas 47 milhões de hectares. Os sem terra estão com quase o dobro do que está nas mãos do setor produtivo”, afirma.

De acordo com cálculos do setor, a remoção desses obstáculos poderia incrementar a produção agrícola em até 30%.

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