Agora palestrante, Lula recebe de bancos e software proprietário

Setores que foram alvo de críticas do ex-presidente durante seus oito anos de governo o recebem para palestras nesta semana

Flávia D'Angelo e Matheus Pichonelli, iG São Paulo |

Se nos últimos oito anos banqueiros e multinacionais do software estiveram entre os alvos de discursos e entrevistas do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva , agora seus executivos e diretores entraram para a lista de clientes do petista, que se lançou no mercado de palestras desde que deixou o Palácio do Planalto. Lula aceitou falar na manhã desta quarta-feira, em Washington, para convidados da gigante do software Microsoft, que já criticou por interferir no “tempero” e na liberdade das escolhas brasileiras para programas de computador. Na sexta-feira, no México, será a vez de uma plateia de banqueiros, categoria que já foi descrita por ele, durante a crise financeira internacional, como gente “branca de olhos azuis” que “parecia saber tudo e agora não sabe nada”.

AE
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em fase, agora, de empresário e palestrante
Para atender à nova clientela, Lula tornou-se empresário. Criou a LILS Palestras, Eventos e Publicações Ltda., sediada em seu apartamento, em São Bernardo do Campo (SP), em sociedade com o amigo e ex-presidente do Sebrae Paulo Okamotto, conforme mostrou o jornal O Globo no último fim de semana. Lula tem 98% de participação na sociedade, cujo capital declarado é de R$ 100 mil.

Para o evento patrocinado pela Microsoft, um fórum de líderes da América Latina, Lula escolheu o tema da educação. Em junho de 2009, o tom usado pelo então presidente para falar sobre a empresa no 10º Fórum Internacional Software Livre de Porto Alegre foi o de ironia.

“Nós tínhamos que escolher: ou nós íamos para a cozinha preparar o prato que nós queríamos comer, com os temperos que nós queríamos colocar e dar um gosto brasileiro na comida, ou nós iríamos comer aquilo que a Microsoft queria vender para a gente. Prevaleceu, simplesmente, a ideia da liberdade”, disse Lula, na ocasião.

A adoção do software livre pelo governo federal foi definida como política pública em 2003 e, nas contas feitas pelo governo em 2009, resultou numa economia R$ 372 milhões na implantação do programa de inclusão digital PC Conectado. A estratégia rendeu a Lula uma reportagem do jornal The New York Times .

Ainda em seu governo, Lula recusou o pedido de encontro feito pelo presidente da Microsoft, Bill Gates, que queria vê-lo no Fórum Econômico de Davos, em 2005. Na época, representantes do governo chegaram a argumentar que o encontro não era apropriado e que, se o magnata dos softwares quisesse falar ao então presidente sobre as vantagens de sua plataforma, deveria vir ao Brasil.

Okamotto, que hoje auxilia Lula na montagem de um instituto que levará o nome do ex-presidente, justifica que o tema software livre não será abordado no evento. "Não tem nada a ver", disse. Ele desconversa sobre o valor recebido pela palestra. "Me diga quanto você ganha que eu digo quanto Lula ganhou", brincou Okamotto, ao ser questionado pelo iG sobre o cachê.

Estima-se, no entanto, que o ex-presidente tenha recebido pelo menos R$ 100 mil para falar durante 40 minutos com executivos e clientes da sul-coreana LG, no início de março. Os valores foram sugeridos, inclusive, por um ex-ministro da equipe de Lula que tem experiência na atividade de palestrante. O ex-presidente já participou também de evento da TV árabe Al Jazeera, no Catar. Para o evento com os mexicanos, o ex-ministro chegou a sugerir que Lula recebesse US$ 200 mil.

Bancos

Embora sua relação com bancos tenha sido mais tensa nos tempos de líder sindical, Lula também reservou críticas ao setor durante seu governo. Ao longo dos dois mandatos, o tom dos discursos oscilava conforme a plateia, entre o deboche, a crítica ou a ironia. Um dos pontos de atrito ocorreu após a crise financeira internacional, eclodida em 2008, quando Lula responsabilizou banqueiros estrangeiros, sobretudo europeus e americanos, pela situação da economia.

De um lado, cobrava dos bancos nacionais a abertura das “torneiras” do crédito, de outro ironizava a situação enfrentada pela Europa e Estados Unidos, onde a crise, em suas palavras, “consumiu US$ 850 bilhões do povo americano para tapar os buracos dos banqueiros que faziam agiotagem com dinheiro público”.

Em março de 2009, durante visita à Inglaterra, Lula declarou que a crise tinha sido causada por “por comportamentos irracionais de gente branca de olhos azuis, que antes da crise parecia saber tudo e agora não sabe nada”. E completou: "Como eu não conheço nenhum banqueiro negro ou índio, eu só posso dizer que ( não é possível ) que essa parte da humanidade, que é a principal vitima do mundo, pague por uma crise”.

Apesar do tom, Lula fazia questão de ressaltar, em seus discursos, que os banqueiros ganharam “muito dinheiro”. em seu governo. E, dentro do PT, chegou a ser acusado pela ala mais à esquerda de sustentar banqueiros em razão dos juros altos praticados em sua gestão.

Colaborou Thaís Arbex, do Poder Online

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