A segunda travessia do ministro Mendes Ribeiro Filho

Ao iG, chefe da Agricultura conta que leu livros de espiritismo e psiquiatria para superar tumor no cérebro: “Tu volta mais gente”

Fred Raposo, iG Brasília |

A cicatriz que desenha um arco na cabeça do ministro Mendes Ribeiro Filho (Agricultura), ilhando por poucos centímetros as mechas revoltas logo acima de sua testa, não foi a única marca deixada pela cirurgia para a retirada de um tumor – o segundo, em menos de cinco anos – no cérebro. “É uma travessia. É mais uma. Tu volta mais gente, compreendendo mais as coisas. Dando menos importância ainda para a matéria”, desabafa Mendes Ribeiro, de 56 anos, em entrevista ao iG .

Alan Sampaio / iG Brasília
Após operação para retirar novo tumor no cerebro, o ministro Mendes Ribeiro Filho passou a tomar comprimidos quimioterápicos de 28 em 28 dias
Faz mais de um mês que o ministro realizou a segunda “travessia” e cinco dias que, mais magro e num rosto pálido, quase diáfano, reassumiu o ministério. Sua agenda, na pasta e na articulação política do governo, tem sido intensa – contrariando recomendação médica. Mas não deixa transparecer cansaço, embora tenha passado maus bocados nas últimas semanas.

Um dos principais, talvez, tenha sido a rejeição de seu organismo a uma placa de titânio instalada na região frontal do crânio. “Eu comecei a ter dor de cabeça, aí a minha mulher telefonou para o médico e disse: ‘Olha doutor, tá tudo inchado aqui’. ‘Manda uma fotografia’, ele respondeu. Mandamos uma fotografia para o médico, ele viu e disse: ‘Pega o avião e vem para São Paulo’”.

Tinha uma semana de cirurgia. A rejeição obrigou Mendes Ribeiro a abrir os pontos da operação de meados de outubro. Desta vez, ao menos, teve mais tempo para se preparar para a cirurgia. Quando foi diagnosticado o primeiro tumor, extraído em janeiro de 2007, o então deputado havia acabado de ser eleito para o terceiro mandato na Câmara.

“A primeira vez me pegou muito de surpresa. Tinha saído de um processo eleitoral e pedi ao médico três dias, antes da operação, para tomar posse”. Na ocasião, além do apoio de familiares e amigos, Mendes Ribeiro conta que encontrou “força espiritual” em livros de espiritismo e de psiquiatria para superar a doença.

“Do Irving D. Yalom eu li todos”, afirma, referindo-se ao escritor e psiquiatra americano. “Li A Cura de Schopenhauer, Quando Nietzsche Chorou. Eu li muitos livros escritos pelo Irving. Ele cria situações onde os seus ‘clientes’ enfrentam problemas de câncer, de depressão”.

Hoje o momento é outro. “Meus filhos estão mais independentes, minha mulher mais calejada”, diz. Reeleito para o quarto mandato e prestigiado no ministério pela presidenta Dilma Rousseff , a quem conhece há cerca de 30 anos, conta ainda que preparou com calma a licença da pasta.

“Quando percebi que o tumor estava voltando, após exames médicos, tratei de cuidar de como o ministério ficaria na minha ausência”, relata Mendes Ribeiro. “Sabia que minha equipe era muito boa. Só precisava fazer o que eu gosto de fazer, que é estabelecer prazo para atingir objetivo”.

A assessoria do ministro informa que enviou cerca de 400 agradecimentos a mensagens de solidariedade a Mendes Ribeiro, seja por carta, e-mail ou ligações telefônicas. A presidenta Dilma, que em 2009 travou batalha contra um câncer no sistema linfático, foi uma das pessoas com quem Mendes Ribeiro procurou apoio quando soube do diagnóstico.

“Ela me ajudou muito”, assinala. “A Dilma tem uma consciência muito grande da figura humana e daquilo que ela enfrenta”. Durante seu tratamento, Mendes Ribeiro bateu um telefonema para o ex-presidente Lula, que atualmente luta contra um câncer na laringe. “Fiz uma visita telefônica ao Lula. Nada mais do que isso”, sublinha. “Deixei um abraço a ele”.

Divulgação/Agência Câmara
Mendes Ribeiro na Câmara dos Deputados em dezembro de 2010
Às vezes, a solidariedade brotava de onde menos se esperava. O ministro relata o caso de uma enfermeira que entrou, por volta das 23h, no quarto onde estava internado, no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo.

“Ela disse: ‘Desculpe, ministro. Eu não atendo o seu andar, eu atendo o andar de baixo, mas o meu marido é agricultor. Ele me pediu que eu viesse aqui rezar pelo senhor e eu não poderia deixar de vir. O senhor me permite?’”, lembra. Diante do sinal positivo de Mendes Ribeiro, a mulher se pôs ao lado da cama do ministro e iniciou uma oração.

“Como é que tu vai ficar insensível num troço desses?”, pergunta, retoricamente. "Sabe que a gente volta melhor? Até porque as pessoas te julgam melhor. É impossível que alguém passe por isso e não pense diferente, não aja diferente. As pessoas torcem por ti. É uma corrente de fé que te dá uma força extraordinária”.

Sem dores na cabeça, Mendes Ribeiro começou a tomar comprimidos quimioterápicos por cinco dias no mês, durante pelo menos quatro meses. “É de 28 em 28 dias. Eu tomo dois comprimidos num dia, dois num outro, mais um, um e um”, frisa o ministro, que classifica a medida preventiva como “extremamente eficiente” no combate ao tumor.

Perguntado se a doença alterou algum plano pessoal, retoma o assunto trabalho. “O meu plano pessoal tem uma consistência que é cumprir bem a missão que a Dilma me deu, de ser um bom ministro da Agricultura”, resume. Para isso, a política do ministério passa por pilares como acabar com a febre aftosa e aumentar a renda do produtor.

Em paralelo à agenda da pasta, Mendes Ribeiro se reuniu em sua volta com parlamentares para discutir o Código Florestal e atendeu a chamados urgentes do Planalto. Também presidiu encontro da cúpula sul-americana da Agricultura. Reservou, porém, o último dia da semana para dar início a uma atividade completamente estranha a ele, pelo menos nos últimos tempos.

“Vou voltar a fazer musculação, começar a caminhar de leve”, anuncia. “Agora só atividade física mesmo, pois a atividade mental já está a mil. Tu só cicatriza dentro quando cicatriza fora”, conclui, remetendo a coisas que vão além do arco que lhe marca a testa.

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