A eleição presidencial 2010 e as atuais tendências

Quem for identificado como o pai dos bons indicadores sociais e econômicos que temos hoje ganhará a disputa

Marcus Figueiredo, especial para o iG |

A eleição presidencial que se avizinha tem algumas características importantes. É a primeira pós-88 sem a presença de Lula como candidato. Desde 1989, Lula se apresentou como oposição à hegemonia liberal-conservadora que sempre governou o país, com o interregno do Presidente João Goulart, 1962-64.

Os dois mandatos do presidente Lula que se encaminham para terminar deixarão como legado um ciclo virtuoso com forte viés nacionalista-desenvolvimentista mais à feição da social-democracia do tipo europeia, diferenciando-se drasticamente do período getulista (nos dois mandatos) e do regime militar, por terem sido altamente conservadores. O que lhe dá esta marca, mais à esquerda, são o viés em favor das classes mais baixas através das políticas de desenvolvimento social e uma política econômica de rígido controle monetário, para o controle da inflação, da mesma forma que caracterizou os partidos sociais-democráticos europeus. Por esta razão Lula mantém recorde de popularidade e o PT tornou-se o mais preferido junto ao eleitorado, independentemente de seus seguidores terem consciência ideológica desta natureza.

Mais do que uma conversão ideológica, os “descamisados” que votaram em Collor, contra os “marajás”, e depois em Fernando Henrique Cardoso, pela estabilidade econômica com o Real, em 2006 votaram em Lula, pelo crescimento econômico e pela ascensão social – leia-se queda na taxa de desigualdade.

Neste clima de otimismo o eleitorado vem declarando nas pesquisas sua preferência em votar na continuidade, onde mais de 50% já declararam estar disposto a votar em um candidato apoiado pelo presidente Lula. Ainda não está claro para o eleitorado qual ou quais candidatos representam a continuidade, posto que em nenhuma das 20 pesquisas já publicadas, desde fevereiro de 2008, nenhuma delas fez a pergunta, simples: quem representa a continuidade?

Esta questão no cenário político-eleitoral é de fundamental importância. Estando o clima de opinião centrado na continuidade o discurso da mudança não tem chance de cativar a maioria dos eleitores. Da mesma forma que em 2002, o clima de opinião era pela mudança a continuidade, de FHC, não teve chance. Naquela eleição, José Serra terminou com 38% dos votos, apesar de em sua propaganda ter centrado seu discurso na mudança ele era identificado pelo eleitorado como representante da continuidade de FHC.

A terceira característica dessa eleição está, neste momento eleitoral, na alta taxa de competição política entre as candidaturas de Serra e Dilma, mais do que na competição eleitoral propriamente dita, o que mostrarei mais adiante.

Desde fevereiro de 2008 e durante todo o ano de 2009 os nomes de ambos fazem parte das pesquisas e do noticiário político como “virtuais” candidatos. Esta confirmação deu-se ao final de março quando ambos se descompatilizaram de suas funções executivas para se candidatarem, como manda a lei.

A partir do momento em que Lula apresentou Dilma como sua candidata o PSDB movimentou-se em torno dos nomes de Serra e Aécio. As disputas políticas tanto no PT quanto no PSDB foi intensa e a disputa ente os dois partidos, também intensa, produziram farto material no noticiário político, tendo seu ponto alto, ao final de 2009, quando Fernando Henrique desafiou Lula para o confronto entre os dois governos. Desafio aceito por Lula. Este confronto aberto virá mais adiante, depois de junho quando as candidaturas estiverem oficializadas perante o TSE. Por enquanto este confronto está no âmbito do noticiário político e em poucos eventos, como os dos lançamentos oficiosos das duas candidaturas ao final de março.

Apesar disto, já é perfeitamente fácil de identificar a natureza política dos dois discursos que estarão em disputa.

A candidatura de Dilma já construiu seu discurso pela continuidade, que é bem simples: o que está ótimo deve continuar (o governo Lula) – acrescentar a frase “mais e melhor” é pura retórica. O discurso da candidatura Serra segue raciocínio quase idêntico: o ciclo virtuoso durante o governo Lula só foi possível devido à herança do governo FHC, portanto o governo Lula passa a ser o “filho bastardo” que nega a herança. Acrescentar a frase “mais e melhor” a este ciclo virtuoso é pura retórica.

Ambos os argumentos sustentam a continuidade como prospecto político, a divergência está na fonte geradora do ciclo virtuoso, ou seja, quem é o pai do sucesso. Quem for identificado como o pai do sucesso, isto é, dos bons indicadores sociais e econômicos que temos hoje ganhará a eleição.

Comparando com as máximas das eleições americanas temos: nos Estados Unidos, o sucesso na economia e na guerra garante a eleição; entre nós, as máximas estabelecidas pelas eleições de FHC e Lula foram o sucesso na economia e na ascensão social. A eleição de Collor teve um efeito extraordinariamente excelente: para os “descamisados” os “salvadores da pátria” não têm mais vez, são pura empulhação.

Eleitoralmente, comparando as pesquisas mais recentes – da Sensus, do Datafolha e Ibope, podemos observar que as intenções de voto apuradas indicam uma situação de tendências ao empate técnico entre Dilma e Serra. Veja os gráficos abaixo:

Arte/iG
A evolução da intenção de voto segundo pesquisa Sensus

Arte/iG
A evolução da intenção de voto segundo pesquisa Datafolha

Arte/iG
A evolução da intenção de voto segundo pesquisa Ibope

Nos três institutos a curva de desempenho de Dilma é acentuadamente em crescimento, onde Dilma varia de 28% a 32%. Por sua vez, as curvas de desempenho do Serra são de relativo equilíbrio ao longo do tempo pesquisados. Na Sensus e no Datafolha, Serra aparece nas respectivas primeiras pesquisas com 38% de intenção de voto e hoje varia de 33% a 38%.

Tomando-se não só estes três institutos, mas agregando na análise o Vox Populi, e aplicando a metodologia de pooling times series, foi gerado o gráfico abaixo, do que se chama Pesquisa das Pesquisas (Poll of the polls).

Observando este gráfico fica claro que a disputa eleitoral entre Dilma e Serra só agora se tornou uma disputa de verdade. De fevereiro de 2008 a dezembro de 2009, Serra esteve absoluto na disputa. Neste período Dilma estava sendo apresentada por Lula ao eleitorado. A partir de dezembro Serra variou de 38% a 36,6%, o que ele tem hoje na média das intenções de voto dos quatro maiores institutos. Por sua vez, Dilma tinha 29% em dezembro e hoje tem 29,8%, na média das intenções de voto.

Arte/iG
Gráfico mostra a média dos institutos de pesquisa juntos

Diante deste cenário eleitoral, vemos que o eleitorado brasileiro chegou à sua marca histórica de competição às vésperas da campanha eleitoral: a centro-esquerda já atingiu 30% das intenções de voto; a centro-direita 35% e o terço restante se dilui entre outros candidatos e indecisos. Só para refrescar a nossa memória: em 89, no 1º turno, Collor obteve 35%, a centro-esquerda, com Covas, Lula e Brizola, 34% e os demais diluídos; nas eleições seguintes o quadro foi o mesmo. Assim, este empate político só será decidido depois de julho com a campanha “na rua”, especialmente no horário eleitoral.

Neste momento político as variações apontadas pelos diferentes institutos só servem para gerar manchetes e reportagens jornalísticas, pois o eleitorado entrou na fase crítica de “ponto de espera”: um terço está com Serra, outro terço com Dilma e outro terço disponível.

Como se diz no jargão dos pesquiseiros, “o jacaré ainda não fechou a boca”. Se as simulações estatísticas aqui demonstradas valem alguma coisa para projetar cenários futuros, estes apontam uma ligeira tendência a favor da candidatura Dilma, posto que ela tem, a demais, do seu lado o presidente Lula e os fundamentos do ciclo virtuoso que experimentos – a economia e o desenvolvimento social.

Marcus Figueiredo é professor adjunto do IUPERJ - Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro

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