Cunha diz que compra de seu silêncio é história "forjada" para incriminar Temer

Em depoimento à Justiça Federal nesta segunda-feira, ex-deputado defende Temer de acusações do lobista, diz que não era "necessário" receber dinheiro de caixa dois para sua campanha e lança suspeita sobre Moreira Franco
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Em depoimento, Eduardo Cunha rechaçou acusações de Funaro, defendeu Temer e lançou suspeita sobre Moreira Franco

ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB) presta depoimento nesta segunda-feira (6) ao juiz Vallisney de Souza Oliveira, da 10ª Vara de Brasília, no âmbito da ação penal em que ele é acusado de praticar crimes de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e desvio de finalidade pública em esquema acerca do fundo de investimentos do FGTS (FI-FGTS) , administrado pela Caixa Econômica Federal.

Eduardo Cunha começou a falar pouco após às 9h desta manhã, presencialmente na sede da Justiça Federal em Brasília, onde está sentado mais uma vez frente a frente com o lobista e delator Lúcio Funaro, que diz ser o operador do peemedebista no esquema investigado na Operação Sépsis.

Cunha rebateu as acusações de Funaro, a quem chamou de "mentiroso", e afirmou que não recebeu propina para suas campanhas eleitorais, segundo ele, por “não ser necessário”, uma vez que as doações legais que obtinha eram “mais do que suficientes”.

“[Funaro] nunca me pagou um carro com dinheiro dele, isso é história da carochinha”, afirmou Cunha. "A delação que ele faz agora está me transformando no Posto Ipiranga. Tudo é Eduardo Cunha", disse o ex-deputado.

O depoimento de Cunha ocorre após os demais réus dessa ação penal (o ex-vice-presidente da Caixa Fábio Cleto; o empresário Alexandre Margotto; e o próprio Funaro) já terem apresentado suas versões dos fatos. O último réu a depor será o também ex-deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB), por videoconferência, de Natal (RN), onde está preso preventivamente. Somente os dois peemedebistas não possuem acordo de colaboração com a Justiça.

Apesar de negar ter recebido dinheiro de caixa dois para suas campanhas, Cunha afirmou que “não duvida” do repasse de propina para outras campanhas do PMDB, que teria sido intermediado pelo hoje ministro Moreira Franco (Secretaria Especial da Presidência) quando ele ocupava uma das vice-presidências da Caixa Econômica Federal. O ex-deputado, entretanto, negou seu envolvimento no esquema.

“Se Moreira Franco recebeu [propina], e em se tratando de Moreira Franco até não duvido, mas não foi por minhas mãos”, afirmou Cunha, que admitiu ter marcado uma audiência, a pedido de Funaro, entre Natalino Bertin e Moreira Franco, mas negou ter participado de qualquer encontro ou ter ciência de qualquer acerto irregular.

Acerto de compra de silêncio entre Temer e Joesley

Cunha também afirmou ao juiz Vallisney que o Ministério Público Federal (MPF) e o empresário Joesley Batista, da JBS, forjaram uma suposta compra de seu silêncio, para poder incriminar o presidente Michel Temer. A acusação foi um dos elementos que constavam na segunda denúncia oferecida pelo ex-procurador-geral da República, Rodrigo Janot, contra Temer.

“Não existe essa história de dizer que estou em silêncio porque estou recebendo para não delatar. Parte disso é forjado para imputar crime ao Michel [presidente Michel Temer] no atual mandato”, afirmou Cunha. “Deram uma forjada, e o seu Joesley foi cúmplice dessa forjada, e está pagando por isso agora.”

Em maio deste ano, foi revelada gravação de uma conversa entre Joesley e Temer –ocorrida em março no Palácio do Jaburu–, onde o empresário conta ao presidente que "está bem" com Cunha, no que Temer responde: "Tem que manter isso, viu?".

Encontros de Funaro com Temer

Cunha desqualificou as afirmações de Funaro de que o  presidente Michel Temer teria recebido ao menos R$ 2 milhões em repasses ilegais do Grupo Bertin para a campanha presidencial de 2010, quando foi candidato a vice na chapa de Dilma Rousseff. Para Cunha, ao citar Temer, o corretor de valores faz “uma tentativa de chamar atenção”.

O ex-deputado afirmou ter convicção de que, ao contrário do que Funaro relatou em sua delação premiada, o corretor de valores nunca sequer cumprimentou Temer. “Lúcio nunca chegou perto, tenho absoluta convicção disso”, afirmou Cunha.

“Estou colocando isso apenas para demonstrar o histórico das mentiras. Na minha frente nunca cumprimentou o Michel Temer, nem um 'bom dia'”, repetiu o ex-deputado.

Foto: Reprodução/JFDF
Eduardo Cunha (gravata verde) e Lúcio Funaro (com a pasta nas mãos) frente a frente durante depoimento à Justiça

Leia também: Entenda aqui os principais pontos da delação de Lúcio Funaro

O que disseram os outros réus da ação penal

Fábio Cleto –  Cleto foi vice-presidente de Fundos de Governo e Loterias da Caixa no período de 2011 a 2015 e desempenhou papel fundamental para o esquema, uma vez que ele integrava o comitê que delibera sobre o financiamento de projetos pelo fundo de investimentos do FGTS (FI-FGTS), voltado a bancar projetos de infraestrutura nos setores de rodovias, ferrovias, portos, aeroportos, hidrovias, saneamento e energia.

O ex-executivo foi nomeado para o cargo com as bençãos de Cunha e Henrique Alves, que, no papel de líder da bancada do PMDB na Câmara, foi o responsável por levar o currículo de Cleto ao então ministro da Casa Civil, Antonio Palocci. Após ser nomeado, Cleto disse que passou a se encontrar semanalmente com Eduardo Cunha para informar o deputado sobre os projetos que estavam em discussão no comitê do FI-FGTS. Era Cunha quem decidia como o executivo deveria encaminhar o projeto.

"Eu era um voto só, mas acredito que tinha uma relativa influencia por ser o representante da Caixa e pelo meu preparo técnico, de 20 anos de mercado financeiro. Eu conseguia jogar argumentos técnicos que os outros representantes, muitas vezes, entendiam como válidos e seguiam essa mesma linha. Meu voto não era o decisivo, mas eu tinha influência nesse comitê", disse Cleto em seu depoimento.

Lúcio Funaro – O lobista reafirmou ao juiz de Brasília o papel de liderança de Cunha no esquema, que rendia aos seus integrantes propina de 0,5% a 1% do valor dos contratos. O lobista disse que se encontrou "mais de 680 vezes" com o ex-deputado, que era o responsável por fazer a divisão da propina.

Funaro reconheceu que o grupo atuou para liberar junto ao FI-FGTS recursos para as obras do setor portuário do Rio de Janeiro, o chamado Porto Maravilha, para as Olimpíadas de 2016. O projeto foi tocado por um consórcio constituído pelas empreiteiras OAS, Carioca Engenharia e Odebrecht. De acordo com Funaro, a divisão da propina definida por Cunha para esse projeto era de 80% para o deputado, 4% para Fábio Cleto, 4% para Alexandre Margotto e 12% para ele próprio (Funaro).

O lobista garantiu que, além de Cunha e Henrique Eduardo Alves, outros integrantes do PMDB tinham conhecimento do esquema criminoso no FI-FGTS. "O PMDB é um partido que não é homogêneo... São facções. E a maior facção... Facção não porque facção é criminal. A maior ala do PMDB... Era a liderada pelo deputado Eduardo Cunha".

Perguntado sobre quem mais sabia do esquema, Funaro listou: "Geddel com certeza. O Lúcio, irmão dele, com certeza. O Henrique [Eduardo Alves]... Michel Temer... Moreira Franco... Washington Reis".

Funaro também rechaçou o argumento da defesa de Henrique Alves no sentido de que o ex-deputado desempenhou apenas atividade política ao encaminhar, enquanto líder do PMDB na Câmara, a indicação de Fábio Cleto para ser nomeado para a vice-presidência da Caixa.

"Ele foi levar o currículo para o Palocci e, quando tinha operação, ele participava da divisão. Você vai falar 'Você deu dinheiro para o Henrique?' Dei", garantiu Funaro. 

Preso há um ano em decorrência da Lava Jato,  Cunha foi transferido no mês passado do Complexo Médico Penitenciário de Pinhais (PR) para Brasília , justamente para participar das audiências da Operação Sépsis. O juiz Vallisney havia determinado que o ex-presidente da Câmara retornasse ao Paraná até quarta-feira (1ª), mas, devido ao reagendamento dos depoimentos, o magistrado estendeu a permanência do peemedebista em Brasília.

Caso o depoimento de Eduardo Cunha se prolongue nesta segunda-feira, a retomada da audiência para ouvir Henrique Eduardo Alves será realizada na sexta-feira desta semana (10).

*Com informações e reportagem da Agência Brasil

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