Temer recebeu ao menos R$ 2 milhões em propina do grupo Bertin, garante Funaro

Lobista disse em audiência que Temer, Moreira Franco e Cunha receberam valores negociados como contrapartida à liberação de recursos do FI-FGTS para projetos da empresa; em delação, Funaro não havia mencionado Temer
Foto: Reprodução/PGR
Lobista Lúcio Funaro está preso desde julho de 2016 e tem acordo com a Justiça para deixar a prisão após dois anos

O lobista Lúcio Funaro, que presta depoimento nesta terça-feira (31) à Justiça Federal em Brasília , relatou que o presidente Michel Temer (PMDB) recebeu ao menos R$ 2 milhões em propina por meio de doação do grupo Bertin para sua campanha em 2010, quando foi candidato a vice na chapa de Dilma Rousseff (PT).

Lúcio Funaro é réu em  ação penal da Operação Sépsis que apura esquema de pagamento de propina a agentes públicos em troca da liberação de recursos do fundo de investimentos do FGTS (FI-FGTS, controlado pela Caixa Econômica Federal). Algumas dessas operações irregulares, de acordo com o operador financeiro, contaram com a sua própria intervenção para favorecer projetos de empresas do Grupo Bertin.

Segundo Funaro, que tem acordo de colaboração com a Justiça, ele próprio organizou almoço em um hotel em Brasília para discutir os valores que seriam destinados às campanhas do PMDB em troca de benefícios ilegais às empresas do grupo Bertin. Teriam participado da reunião Natalino Bertin, controlador do grupo, o ex-deputado Eduardo Cunha e o ministro Moreira Franco, que era vice-presidente de Fundos de Governo e Loterias da Caixa à época. O deputado Cândido Vaccarezza, que à época era líder do PT e participava ativamente da campanha presidencial, também teria presenciado o acordo.

"Se não me engano, Eduardo Cunha ficou com R$ 1 milhão", disse Funaro. "Dois milhões, dois milhões e meio foram destinados ao presidente Michel Temer, e um valor – acho que um milhão, um milhão e meio, ao deputado Cândido Vaccarezza", relatou. "O do Temer acho que foi doação oficial pro PMDB nacional."

Para embasar suas declarações, Funaro disse que a contabilidade do pagamento de propina estaria documentada em uma agenda de Natalino Bertin apreendida pela Polícia Federal, bem como em um caderno dele, também apreendido.

Em depoimento prestado à Procuradoria-Geral da República (PGR) no último dia 23 de agosto, Funaro já havia relatado os detalhes desse acordo para recebimento de propina do grupo Bertin. Na ocasião, no entanto, o delator não mencionou a participação de Temer.

Funaro, naquele depoimento, disse que os controladores do grupo Bertin "ficaram muito satisfeitos" após ele, Cunha e Moreira Franco terem possibilitado a liberação de um empréstimo para as empresas e que, por isso, decidiram fazer doações ao PMDB por meios oficiais e por caixa dois. 

O Palácio do Planalto não se manifestou a respeito das acusações até o momento.

O que disse Funaro na audiência da Operação Sépsis

As declarações de Funaro nesta terça-feira foram dadas em seu segundo dia de depoimento ao juiz Vallisney de Souza Oliveira , da 10ª Vara Federal do DF. Também devem depor hoje os ex-presidentes da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha e Henrique Eduardo Alves.

Na última sexta-feira, Funaro chegou a ficar com os olhos marejados ao falar de sua família e de sua intenção de fazer uma faculdade após deixar a prisão.

O lobista reafirmou ao juiz de Brasília o papel de liderança de Cunha no esquema, que rendia aos seus integrantes propina de 0,5% a 1% do valor dos contratos, e garantiu que outros integrantes do PMDB tinham conhecimento das irregularidades no FI-FGTS.

Perguntado sobre quem mais sabia do esquema, Funaro listou: "Geddel com certeza. O Lúcio, irmão dele, com certeza. O Henrique [Eduardo Alves]... Michel Temer... Moreira Franco... Washington Reis".

Funaro também rechaçou o argumento da defesa de Henrique Alves no sentido de que o ex-deputado desempenhou apenas atividade política ao encaminhar, enquanto líder do PMDB na Câmara, a indicação de Fábio Cleto para ser nomeado para a vice-presidência da Caixa.

"Ele foi levar o currículo para o Palocci e, quando tinha operação, ele participava da divisão. Você vai falar 'Você deu dinheiro para o Henrique?' Dei", garantiu Lúcio Funaro em seu primeiro depoimento.

Leia também: Entenda aqui os principais pontos da delação de Lúcio Funaro

*Com informações e reportagem da Agência Brasil

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