Ex-presidente desmentiu a informação dada pelo ex-ministro durante interrogatório, segundo a qual o petista tinha um "pacto" com Odebrecht

Ao ser interrogado pelo juiz Sérgio Moro, ex-presidente Lula diz que Antonio Palocci mentiu em depoimento
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Ao ser interrogado pelo juiz Sérgio Moro, ex-presidente Lula diz que Antonio Palocci mentiu em depoimento

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta quarta-feira (13), em depoimento ao juiz federal Sérgio Moro, que o ex-ministro Antonio Palocci mentiu ao dizer que o ex-presidente e a empresa Odebrecht tinham um “pacto de sangue” com a empreiteira Odebrecht, que envolvia pagamento de propina na ordem de R$ 300 milhões.

O petista foi ouvido na Justiça Federal de Curitiba na ação penal que investiga um esquema de corrupção envolvendo oito contratos entre a Odebrecht e a Petrobras, assinados entre 2004 e 2012. A acusação sustenta que teriam sido desviados R$ 75,4 milhões. Em contrapartida, o ex-presidente teria sido beneficiado com a compra de um terreno  para o Instituto Lula , em São Paulo, e de um apartamento em São Bernardo do Campo (SP), vizinho ao que ele reside atualmente. Somados, os dois imóveis chegam ao valor de R$ 12 milhões.

 “Eu vi o Palocci mentir aqui nesta semana”, disse o ex-presidente, reforçando a versão dada pela sua defesa após o depoimento do ex-ministro, no último dia 6. "O que ele [Palocci] disse é exatamente o que o PowerPoint queria que ele dissesse", acrescentou, referindo-se à apresentação feita pelo MPF (Ministério Público Federal) no ano passado. Na semana passada, os advogados do petista enviaram nota à imprensa na qual afirmaram que o depoimento de Palocci foi contraditório e que teve como objetivo viabilizar sua saída da prisão.

Palocci, que foi preso desde o ano passado e já foi condenado a 12 anos e dois meses de prisão, afirmou no depoimento que o “pacto de sangue” com a Odebrecht envolvia o terreno do instituto , o sítio usado pela família do ex-presidente em Atibaia e mais R$ 300 milhões, que estariam à disposição do petista para que ele fizesse as “atividades políticas”.

Ao responder sobre a existência de uma conta mantida pela Odebrecht para as propinas – versão dada por Palocci –, o petista classificou a informação como “hilariante”. “Eu sinceramente não sei qual era a relação que o ex-ministro Palocci tinha com o doutor Marcelo Odebrecht. (...) Se eles conversavam coisas, se tinha fundo ou se não tinha fundo, doutor Palocci que explique. O Marcelo que explique. O dado concreto é que nem o Marcelo, nem o Emílio Odebrecht, nenhum empresário desse País discutiu finanças comigo.”

Para acirrar ainda mais a crise com o antigo aliado, o ex-presidente disse que Palocci é “calculista, frio e simulador”. Disse que o ex-ministro não era responsável por assuntos relacionados ao Instituto Lula – tarefa que seria de responsabilidade de Paulo Okamotto – e que, depois que deixou o palácio do Planalto, se encontrava com Palocci uma vez a cada oito meses, apenas.

Ainda sobre as declarações de Palocci, o ex-presidente diz não ter raiva do ex-colega. “Ele tem o direito de querer ser livre (...). O que não pode é, se você não quer assumir a tua responsabilidade pelos atos ilícitos que você fez, não jogue em cima dos outros”, acrescentou.

O ex-presidente explicou as razões pelas quais considerou o terreno inadequado para o instituto que leva seu nome. “Primeiro, porque era numa área perto do aeroporto, que não é visitada e onde não transita o povo de São Paulo. Segundo, porque era um prédio inadequado, velho, que precisaria ser demolido se fosse adquirido. Como nós decidimos não adquirir, fomos procurar um lugar mais adequado, onde transita realmente o povo de São Paulo, que é ali próximo da Estação da Luz na Cracolândia”, contou.

Segundo a denúncia do MPF, a Odebrecht adquiriu o terreno para o petista como compensação pelos benefícios recebidos em contratos com a Petrobras. O ex-presidente disse a Moro que não tinha conhecimento do envolvimento da empreiteira, do advogado Roberto Teixeira, do pecuarista José Carlos Bumlai ou de Glauco Costamarques, primo de Bumlai, nas tratativas pelo imóvel.

Cobertura

Sobre a cobertura vizinha ao apartamento onde mora em São Bernardo do Campo, o ex-presidente disse que aluga o imóvel desde 1998 para abrigar sua segurança pessoal e, posteriormente, a segurança presidencial. “Agora, ele é um apartamento que está à minha disposição. Se permitirem que eu seja candidato em 2018, ele voltará a ter uma função política muito forte”, disse o petista.

Após a morte do proprietário da cobertura, em 2010, o imóvel foi adquirido por Glauco Costamarques, primo de José Carlos Bumlai. Ele disse que ficou sabendo do fato quando sua a esposa, Marisa Letícia, que faleceu, acertou com Costamarques o aluguel do imóvel.

O ex-presidente explicou a necessidade de manter o apartamento alugado. “Por eu ser uma figura de projeção nacional, era preciso que aquele apartamento não fosse ocupado por um terceiro, porque tinha muita facilidade de ver o apartamento onde eu moro. Inclusive, tem uma mesma laje que, se alguém subir na laje, vai poder ver o meu apartamento”.

Em depoimento a Moro, Costamarques afirmou que só passou a receber o aluguel do imóvel a partir do final de 2015, após a prisão de Bumlai. Esta versão foi contestada por Lula.

“Fiquei surpreso com o depoimento dele, porque nunca chegou a mim qualquer reclamação de que não se estava pagando aluguel. Porque ele declarava no Imposto de Renda dele que estava recebendo aluguel, e eu declarava no meu Imposto de Renda, que a dona Marisa mandava para o procurador, o pagamento do aluguel. Então, para mim nunca chegou”, ressaltou o petista.

“Processo ilegítimo”

Logo no início do interrogatório, Sérgio Moro questionou o ex-presidente se ele optaria por permanecer calado, direito que é garantido aos réus pela legislação brasileira. O petista disse que não ficaria em silêncio, mesmo dizendo que, em sua opinião, “o processo é ilegítimo e injusto”. “Eu talvez seja a pessoa que mais queira a verdade neste processo”, acrescentou.

Em seguida, o advogado Cristiano Zanin Martins, que defende o ex-presidente, cobrou de Moro o acesso a documentos que estão em poder do MPF, como informações referentes a sistemas da Odebrecht. Segundo ele, o pedido é “para que o depoente possa realizar sua auto-defesa conhecendo tudo aquilo que a acusação dispõe”.

Questionado pelo juiz se pretendia fazer alguma retificação em relação ao depoimento prestado em maio, o petista negou. Pouco depois, fez uma ironia: “Se bem que eu deveria mudar tudo, porque o senhor me acusou. Precisaria fazer um novo depoimento.” O depoimento anterior é referente ao processo envolvendo o tríplex no Guarujá, ação em que foi condenado a nove anos e seis meses de prisão .

Lula voltou a fazer críticas à Lava Jato, dizendo que a operação funciona como uma “caça às bruxas” e que o objetivo da força-tarefa é encontrar alguém para criminaliza-lo. Novamente ele fez críticas à atuação da mídia, dizendo que a Lava Jato se tornou “refém da imprensa”.

Veja os vídeos do depoimento do ex-presidente:

Vídeo 1:




Vídeo 2:

Vídeo 3:

Vídeo 4:

Vídeo 5:


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