Edição da "Época" desta semana revela esquema sistemático de repasse de dinheiro a políticos de todo o país, em quase 10 anos, realizado pela JBS

Foram apontados pagamentos fraudulentos feitos pela JBS a empresas indicadas por Temer durante a campanha
Ayrton Vignola/ Estadão Conteúdo 14.03.2011
Foram apontados pagamentos fraudulentos feitos pela JBS a empresas indicadas por Temer durante a campanha

A revista “Época” desta semana traz, com exclusividade, informações sobre o esquema de corrupção realizado entre os empresários da JBS e os políticos de todo o país em quase dez anos. A reportagem teve contato com os documentos dos delatores e, segundo revela, existem “planilhões de propina – da eleição municipal de 2006 à eleição presidencial de 2014; comprovantes bancários, notas fiscais frias e contratos fraudulentos”. Além disso, existem depósitos em contas secretas no exterior.

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Segundo a revista, os pagamentos ilícitos feitos pela JBS a políticos atinge uma escala que nem mesmo a Odebrecht conseguiu. Entre os anos de 2006 a 2017, a contabilidade da propina da JBS – e outras empresas dos irmãos Joesley e Wesley Batista – a políticos chega a nada menos que R$ 1,1 bilhão. Desse volume, R$ 301 mil ocorreram em dinheiro vivo e R$ 395 mil por meio de empresas indicadas por políticos.

Na distante campanha de 2010, foram apontados pagamentos fraudulentos a empresas indicadas por Temer durante a campanha presidencial; na mesma campanha, a JBS teria repassado dinheiro ilicitamente para empresas apontadas pelo tucano José Serra. Já nas eleições de 2014, os irmãos Batista colocaram quase R$ 600 milhões em campanha, sendo que R$ 433 milhões foram doações oficiais, R$ 145 milhões entre pagamentos a empresas indicadas por políticos e dinheiro vivo – isso com a Operação Lava Jato já sendo realizada.

Ainda segundo registros internos da empresa, houve um salto de 4,900% nos gastos com corrupção, ou seja, de R$ 12,5 milhões em 2006, ano da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, para R$ 617 milhões em 2014, na reeleição de Dilma Rousseff. Em 2006, a JBS pagou propina para políticos de 11 partidos em seis estados; mas, em 2014, integrantes de 27 partidos de todos os estados do País foram beneficiados pelos esquemas corruptos.

Beneficiários

Algumas manobras ilícitas foram apontadas pela reportagem. Entre elas estão os extratos de duas contas mantidas por Joesley nos Estados Unidos com saldo de propina no BNDES, por combinação com o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega . Essas contas são apontadas como sendo aquelas cujo saldo, de R$ 150 milhões, foi utilizado para financiar a campanha de Dilma em 2014.

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Contudo, o grande destaque são casos inéditos de propinas, até então desconhecidas: como a propina de US$ 1 milhão paga a Antonio Palocci , em 2010, através de uma conta nos EUA. Além disso, foram descobertos pagamentos em dinheiro realizados ao presidente do Senado, Eunício Oliveira .

Ministros do governo Temer também foram apontados na reportagem, como Bruno Araújo, Gilberto Kassab, Helder Barbalho e Marcos Pereira. Kassab, por exemplo, foi beneficiado com propinas de R$ 18 milhões até o ano passado.

Esquema de pagamentos

Ao contrário da Odebrecht, os irmãos Batista repassavam as propinas por meio de dois funcionários, Demilton e Florisvaldo. O acerto com os políticos era, geralmente, feito por Joesley e, raramente, Wesley ou Ricardo Saud (lobista e colaborador da Procuradoria) faziam esse trabalho.

O esquema na região Nordeste era intermediado pelo publicitário André Gustavo, preso nesta semana na 42ª fase da Operação Lava Jato , acusado de ajudar o ex-presidente do Banco do Brasil e da Petrobras Aldemir Bendine a chantagear a Odebrecht. Ele foi apontado pela revista como sendo uma “espécie de Marcos Valério do Pernambuco”, encarregado de entregar o dinheiro da JBS aos políticos. “Foi André quem, segundo a JBS, organizou a entrega de propina em dinheiro vivo ao presidente do Senado, Eunício Oliveira, ao senador Jader Barbalho e a seu filho, o ministro Helder Barbalho, todos do PMDB”, diz a reportagem.

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