"Lula tinha pleno conhecimento de tudo", diz Renato Duque em depoimento a Moro

Responsável pela diretoria de Serviços da Petrobras, cujos contratos envolviam repasses ao PT, Duque diz que Lula era chamado de 'chefe' e 'nine'; ex-presidente teria nomeado Palocci para tratar de propina de estaleiros
Foto: Agência Brasil
Renato Duque se disse arrependido de ter cometido crimes e de ter permitido que eles ocorressem na Petrobras

O ex-diretor de Serviços da Petrobras Renato Duque afirmou nesta sexta-feira (5) em depoimento ao juiz Sérgio Moro  que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva "tinha pleno conhecimento" e "comandava" o esquema criminoso investigado pela Operação Lava Jato.

O depoimento desta sexta-feira se deu no âmbito da ação penal na qual ele, o ex-ministro Antonio Palocci, o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, o empresário Marcelo Odebrecht e mais 11 pessoas são réus. A audiência foi realizada na sede da Justiça Federal em Curitiba a pedido do próprio Renato Duque , que está negociando um acordo de delação premiada. 

Segundo o ex-diretor da Petrobras, Lula teria encarregado o ex-ministro Antonio Palocci em 2012 para tratar da propina em contratos com estaleiros que iriam construir sondas para a exploração do pré-sal pela estatal. Vaccari Neto teria consultado Palocci e depois comunicado o ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco de que, nesse caso específico, a propina seria repartida na proporção de "um terço para a casa [agentes da estatal] e dois terços para o partido".

Duque afirma que parte dessa propina foi direcionada a Lula. "Os 'dois terços', o Vaccari me informou, iriam para o Partido dos Trabalhadores, para José Dirceu e para Lula, sendo que a parte do Lula seria gerenciada pelo Palocci".

Diante dessa informação, segundo o depoente, ele procurou Pedro Barusco (que havia ficado incomodado com a divisão proposta por Vaccari) para alertá-lo. "Na época eu conversei com ele e disse que ele não estava lidando com peixe pequeno. A gente estava falando de peixe graúdo."

O ex-diretor da estatal também disse que, em 2007, o então presidente Lula determinou que João Vaccari começasse a atuar na arrecadação de valores para o PT em contratos da Petrobras. Antes de Vaccari, teriam desempenhado a mesma função os ex-tesoureiros do partido Delúbio Soares e Paulo Ferreira.

Lula, ainda de acordo com o depoente, era chamado pelos apelidos de 'chefe', 'grande chefe' e 'nine', além de ser identificado com um gesto que faz alusão à sua barba. 

De acordo com Duque, na ocasião em que Lula optou pela atuação de João Vaccari, o ex-ministro de Planejamento Paulo Bernardo foi o responsável por informá-lo da decisão.

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José Dirceu

Renato Duque confirmou ao juiz da Lava Jato que foi apadrinhado pelo ex-ministro José Dirceu para assumir o cargo de diretor na Petrobras.

"Até onde sei, quando houve o processo da minha escolha, houve um debate entre Delúbio [Soares] e o Silvio Pereira. O José Dirceu, então ministro, foi chamado para tomar uma decisão. Ele disse: 'O PSDB já está contemplado na diretoria da Petrobras e eu não vou atender a um pedido do doutor Aécio Neves, então vou colocar o Renato Duque'", explicou.

Responsável no período de 2003 a 2012 pela área de Serviços da Petrobras, diretoria cujos contratos envolviam repasses para o Partido dos Trabalhadores, Duque garantiu que "todos" no partido tinham conhecimento do esquema. "Todos sabiam. Desde o presidente, tesoureiro, secretário, deputados, senadores... Todos sabiam."

"Quando existia um contrato, seja ele qual fosse, o tesoureiro do partido geralmente procurava a empresa pedindo uma contribuição em cima de contratos da Petrobras. Era algo institucionalizado já. Hoje, vendo o que aconteceu, devo dizer que me arrependo de ter cometido e permitido irreguridades", declarou ainda.

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Assista à íntegra do depoimento de Renato Duque:



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