Cardozo relativiza crime de caixa dois em depoimento ao juiz Moro na Lava Jato

Ex-ministro do governo Dilma, José Eduardo Cardozo disse que prática é recorrente e por vezes o candidato não sabe origem do dinheiro; Emílio Odebrecht também foi ouvido em ação sobre caixa dois pago pela empresa
Foto: Reprodução
Ex-ministro José Eduardo Cardozo participou de videoconferência com o juiz federal Sérgio Moro, da Lava Jato

O juiz federal Sérgio Moro, da 13ª Vara Federal de Curitiba, ouviu nesta segunda-feira (13) o ex-ministro José Eduardo Cardozo e o empresário Emílio Odebrecht, dono da maior construtora do País. Eles foram arrolados, respectivamente, como testemunhas de defesa do ex-ministro Antonio Palocci e do ex-presidente da empreiteira Marcelo Bahia Odebrecht, ambos réus em ação penal da Lava Jato.

Os depoimentos se deram por videoconferência e tanto Palocci quanto Marcelo Odebrecht, que estão presos em Curitiba, foram levados à sede da Justiça Federal na capital paranaense para acompanhar as oitivas. Os dois são, ao lado de mais 13 pessoas, acusados  pelos procuradores da força-tarefa da Lava Jato de cometer os crimes de corrupção e lavagem de dinheiro.

Segundo a denúncia, o ex-ministro da Fazenda dos governos Lula e Dilma era identificado em planilha da Odebrecht pelo codinome "italiano" e teria movimento R$ 128 milhões recebidos como caixa dois para campanhas do PT entre 2008 e 2013.

No início deste mês, Marcelo Odebrecht disse à Justiça Eleitoral, no âmbito da ação contra a chapa Dilma-Temer, que repassou cerca de R$ 150 milhões a campanhas do PT .

Depoimento

Respondendo a perguntas feitas pelos advogados de Antonio Palocci, Cardozo confirmou ter participado da equipe de campanha que elegeu Dilma Rousseff em 2010. O ex-ministro negou ter conhecimento sobre irregularidades na campanha, mas disse que a função que Palocci desempenhava na equipe pressupunha um "diálogo permanente" com o setor empresarial. 

Ao falar sobre acusações de caixa dois, Cardozo relativizou o crime.

"Nosso sistema eleitoral é atrasado. Devido à forma como se faz as doações, criou-se uma cultura histórica do caixa dois – que é ilegal sim. Mas isso cria duas situação: as vezes, no caixa dois, são drenados recursos oriundos da corrupção. As vezes não", discorreu o ex-ministro. "Se um empresário chega e diz que quer doar para uma campanha, você verifica se ele tem condição jurídica para isso e aceita. Se isso é fruto de uma situação lesiva, o candidato não sabe. É uma prática perversa."

"Eu não sei quando começou a prática do caixa dois no Brasil. Mas a corrupção começou quando Pedro Álvares Cabral aqui chegou", pontuou.

O ex-ministro negou ainda conhecer qualquer apelido associado a Antonio Palocci e disse que nunca ouviu ninguém chamá-lo de "italiano", como aponta a planilha da Odebrecht.

Ao deixar a sede da Justiça Federal em São Paulo, onde participou da videoconferência com o juiz Sérgio Moro, o ex-ministro da Justiça e ex-advogado-geral da União do governo Dilma Rousseff, José Eduardo Cardozo, disse que o caixa dois deve ser "dissociado de outros crimes".

"O caixa dois é uma prática recorrente e nem sempre agasalha a corrupção. As vezes, ele é desenvolvido de uma maneira em que o empresário doa e você registra no caixa dois", minimizou Cardozo.

O depoimento de Emílio Odebrecht está sob sigilo. Ainda nesta segunda-feira, o juiz Sérgio Moro deve ouvir mais oito testemunhas no âmbito da ação da Lava Jato, entre elas o vice-governador do Rio de Janeiro, Francisco Dornelles (PP).

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