Ex-ministro Calero define gravação de conversa com Temer como burocrática

Em entrevista ao Fantástico, da TV Globo, diplomata conta detalhes dos fatos que culminaram em seu pedido de demissão do Ministério da Cultura

O ex-ministro Marcelo Calero inicia a entrevista, neste domingo (27), dizendo que cumpriu seu papel de cidadão, visto que o país vive um momento de passar o Brasil a limpo. Diplomata, um dos últimos ministros a assumir a tão conturbada pasta que corria o risco de ser rebaixada, o ex-ministro explica que teve três conversas com o presidente da República Michel Temer.

 “A primeira conversa foi em um jantar no (Palácio) do Alvorada. Descrevi o que estava acontecendo, que eu estava sendo alvo de pressão do Geddel”. Ele (Temer) disse que não me preocupasse”, relembra Calero. Geddel Vieira Lima era ministro-chefe da Secretaria do Governo da Presidência. “Saí muito satisfeito da conversa pois achei que contava com o respaldo dele (Temer)”.

A inquietação começou no dia seguinte, quando Calero recebeu uma ligação do Planalto. “O presidente queria falar comigo com urgência. Quando cheguei, a abordagem foi diferente”. Calero estava no gabinete do presidente Temer. “O presidente estava sozinho”, diz sobre a conversa em que estavam somente os dois presentes.

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil - 30.07.2016
Marcelo Calero fala sobre as gravações feitas


Calero diz que entrou muito rápido na sala de Temer. Ele disse: “Marcelo, tenho muito apreço por você, mas essa decisão do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) nos causou estranheza, nos causou dificuldades operacionais”, em referência ao fato de Geddel ter ficado muito irritado com a decisão do órgão.

“Michel falou da ministra Grace. Em menos de 24 horas, aquele respaldo que ele me deu, me orientou a criar uma chicana, como diz no mundo jurídico, para levar o caso à AGU (Advocacia Geral da União)”, relata. Ao final, ao se despedir, o presidente Temer chamou a atenção do então ministro da Cultura ao dizer: “Marcelo, a política tem dessas coisas, tem esse tipo de pressão como se fosse um conselho para quem chegava na política”.

"Eu não estava patrocinando interesse privado", afirma Temer sobre caso Geddel

Calero diz que acompanhou muitas declarações de que havia sido desleal. Segundo o ex-ministro, “o servidor público tem que ser leal, mas não cúmplice”.

Vítima de campanha difamatória
 “Começaram com essa boataria vinda o Planalto de que eu teria pedido encontro com o presidente para gravar a audiência. Ou seja, entrar no gabinete com alguma ferramenta de gravação”, comenta o ex-ministro sobre a gravação. “Isso é um absurdo. Só serve para alimentar essa campanha difamatória. Acho que essa conduta seria típica dos políticos tradicionais de Brasília que se gravam mutuamente as conversas presenciais”.

 Calero diz que “jamais entraria no gabinete presidencial, por ser diplomata, por respeitar a liturgia dos lugares que frequento com um ardil, com uma ferramenta sorrateira dessa natureza”. Para ele, espalhar o boato seria uma estratégia para desviar o foco de atenções.

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Gravações de ligações recebidas
“O que eu fiz, é importante dizer, até por sugestão de amigos que tenho na PF (Polícia Federal) nos momentos finais para me proteger e dar um mínimo de lastro probatório a tudo que relatei em depoimento”, relata. “Fiz algumas gravações das ligações, inclusive do presidente, mas foi absolutamente burocrática, inclusive fiz questão de que ela fosse protocolar, pois se tratava da minha demissão”.

Ao ser questionado se havia outra gravação do presidente da República, Calero nega. “Não gravei nenhuma outra conversa com o presidente”. O ex-ministro da Cultura alega que todas as gravações efetuadas são de ligações recebidas.

Sobre o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, o diplomata alega que em três momentos foi abordado sobre esse tema. Em uma das ocasiões, “ele disse que por causa de o processo estar judicializado, o Iphan não poderia fazer nada a respeito”, relata. “Mais uma vez ficava patente que altas autoridades da República perdiam tempo para um assunto paroquial e particular de um ministro”.

 “Quando recebi a última ligação a respeito desse assunto, foi do secretário de assuntos jurídicos da Casa Civil, que pediu que eu mandasse o caso para a AGU. Aí eu entendi que o presidente queria que eu interferisse”, relata.

 Já sobre gravações com Geddel e Padilha, o ex-ministro alegou que não pode responder “para não atrapalhar as investigações”. “Eu jamais faria qualquer negócio para preservar cargo nenhum”, finaliza.

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