Tamanho do texto

Crise política e piora na economia do País contribuíram para aumentar a rejeição do ex-presidente; para especialistas, reversão é improvável

Nas eleições de 2006, Lula venceu o tucano Geraldo Alckmin no segundo turno, com quase 58,3 milhões de votos
Marcello Casal Jr/Agência Brasil - 2.1.2007
Nas eleições de 2006, Lula venceu o tucano Geraldo Alckmin no segundo turno, com quase 58,3 milhões de votos

O dia 29 de outubro de 2016 marca os dez anos da reeleição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Entretanto, uma década após a vitória sobre Geraldo Alckmin (PSDB) nas eleições de 2006, o petista tem pouco a comemorar: réu em três ações penais decorrentes das investigações da Operação Lava Jato, ele observa a queda na sua popularidade e o declínio do partido que ajudou a criar.

LEIA MAIS:  Com futuro político incerto, Lula faz 71 anos e militância é quem faz 'festa'

Nas eleições de 2006, o PT teve o desafio de superar a crise política gerada após o escândalo do mensalão, o esquema de compra de apoio parlamentar que foi denunciado em 2005 pelo então deputado federal Roberto Jefferson (PTB-RJ). Apesar de o partido ter tido a imagem arranhada perante a opinião pública, Lula conseguiu passar incólume às críticas e às acusações e foi eleito com quase 58,3 milhões de votos no segundo turno, o equivalente a 60,8% do total. Apesar de ter vencido o pleito, não conseguiu repetir o resultado de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), que foi reeleito no primeiro turno em 1998 com 53,06% dos votos válidos.

De lá para cá, entretanto, a situação do primeiro líder de esquerda a chegar ao Palácio do Planalto é bem diferente. Segundo pesquisa do Datafolha divulgada em março, Lula tinha 32% de rejeição em julho de 2006, pouco antes de encarar as urnas. Em março deste ano, o percentual subiu para 57%.

“A Lava Jato foi o que atingiu em cheio o Lula. Diferentemente do que ocorreu no mensalão, quando ele passou para a história como alguém que não sabia de nada. E de fato nada chegou ao gabinete dele”, comenta o cientista político Marco Antônio Carvalho Teixeira, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Outro fator que contribuiu para arranhar ainda mais a imagem de Lula e do PT foi o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff , no fim de agosto. Antes mesmo de ser destituída do cargo, Dilma já apresentava índices baixos de popularidade.

Ex-presidente Dilma perdeu o mandato em agosto, o que contribuiu para o desempenho ruim do PT nas eleições de 2016
Marcelo Camargo/Agência Brasil - 29.8.2016
Ex-presidente Dilma perdeu o mandato em agosto, o que contribuiu para o desempenho ruim do PT nas eleições de 2016

Dos partidos que apoiavam Lula em 2006, apenas o PDT e o PCdoB permanecem como aliados do PT. O PMDB, que compunha a base do governo e integrou a chapa vitoriosa em 2010, liderou as articulações pelo impeachment de Dilma, com o presidente da sigla, Michel Temer , assumindo a Presidência da República.

Economia

Além da crise política, o professor Rui Tavares Maluf, da Fesp-SP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo ), destaca que as diferenças entre as situações macroeconômicas do País em 2006 e 2016 contribuem para a queda drástica na popularidade de Lula.

Em 2005, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Produto Interno Bruto ( PIB ) do País teve um crescimento de 3,2%. Nos dois primeiros anos do governo do petista, foram registradas altas de 1,1% (em 2003) e 5,8% (em 2004). Em 2015, durante a gestão de Dilma, sucessora de Lula, houve retração de 3,8%. Para este ano, a expectativa do mercado financeiro é de que haja nova queda, de 3,22%, segundo o Relatório Focus, do Banco Central.

Outro indicador negativo da economia brasileira é o desemprego. Em dezembro de 2010, último mês em que Lula esteve à frente da Presidência da República, a taxa de pessoas desocupadas era de 5,3% na média das seis regiões metropolitanas pesquisadas pelo IBGE.  No terceiro trimestre deste ano, a taxa chegou a 11,8%. A inflação também aumentou de lá para cá. Em setembro de 2006, o acumulado do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador oficial do País, estava em 6,04%. Em setembro deste ano, bateu 8,48%  – 1,98 ponto percentual acima da meta definida pelo Banco Central . Em novembro de 2015, a inflação voltou a atingir o patamar de dois dígitos, o que não acontecia desde novembro de 2003.

“A credibilidade do Lula estava alta em 2006, muito em razão do panorama macroeconômico da época. A perspectiva da população em relação à economia contribui para manter ou mudar um presidente. Se as coisas vão bem na economia, a tendência é de que o governo seja mantido, mesmo que haja ressalvas em outras áreas”, comenta Maluf.

Resgate da popularidade

Diante da situação negativa, os especialistas avaliam que dificilmente o ex-presidente Lula voltará a exercer o protagonismo e a liderança que tinha há uma década. “Vai ser difícil recuperar popularidade. A menos que ele seja absolvido em todos os processos que responde e a história mostre que ele sofreu grande injustiça, que saia como vítima explícita de uma armação”, opina Marco Antônio Carvalho Teixeira.

LEIA MAIS:  Em quatro anos, partidos políticos ganharam 1,4 milhão de novos filiados

No entanto, o cientista político afirma que a retórica utilizada pelo PT , de que Lula é vítima de ataques “midiáticos” e da “burguesia” não tem potencial para alavancar a imagem do ex-presidente. “O efeito é nulo se não houver o entendimento da Justiça de que ele é realmente inocente.”

O cientista político Rui Tavares Maluf, da Fesp-SP, comenta que dificilmente o petista terá chance de se eleger novamente em 2018. Ele avalia que as pesquisas eleitorais antecipadas que mostram Lula à frente nas intenções de voto ainda não têm grande importância. “Isso pouco prevê. É o chamado ‘recall’, ou seja, o nome que é lembrado pela população em razão da exposição”, destaca.

Levantamento do Datafolha publicado em julho deste ano mostra que, no primeiro turno de 2018, Lula teria 22% da preferência do eleitorado, seguido por Marina Silva (17%), Aécio Neves (14%), Jair Bolsonaro (7%) e Ciro Gomes (6%). Num cenário com Alckmin e Michel Temer, o petista passaria para 23%, mesmo percentual que obteria em uma simulação envolvendo José Serra e Temer.

Segundo o Datafolha, Aécio Neves venceria Lula no segundo turno das eleições de 2018 por 38% a 36%
Geraldo Magela/Agência Senado - 5.11.2014
Segundo o Datafolha, Aécio Neves venceria Lula no segundo turno das eleições de 2018 por 38% a 36%

No segundo turno, entretanto, Lula perderia para Aécio Neves por 38% a 36%. Contra Alckmin , seria derrotado por 38% a 36%. A ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva (Rede) venceria Lula por 44% a 32%. Serra também levaria a melhor contra o petista: 40% a 35%.

Lava Jato

O ex-presidente é réu em três processos da Operação Lava Jato. O primeiro deles, aberto em julho, é decorrente de uma denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR). Ele, o ex-senador Delcídio do Amaral, o empresário José Carlos Bumlai e mais quatro pessoas são acusados tentar obstruir as investigações da Lava Jato.

A segunda denúncia, apresentada pelo Ministério Público Federal (MPF), foi aceita em setembro pelo juiz Sérgio Moro , da 13ª Vara Federal do Paraná. Ele é acusado de ter recebido propina da empreiteira Odebrecht no caso do tríplex no Guarujá, Litoral de São Paulo. E ex-primeira-dama Marisa Letícia e outras seis pessoas também estão no processo.

Em outubro, o juiz Vallisney de Souza Oliveira, da 10ª Vara Federal de Brasília, abril ação penal contra o ex-presidente e mais dez pessoas. O grupo é acusado pelo MPF de ter participado de fraudes no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social.

Na madrugada do último dia 17, apoiadores de Lula fizeram vigília em frente ao prédio onde o petista mora, em São Bernardo do Campo, para impedir uma eventual prisão dele. A mobilização foi feita após surgirem na internet boatos de que o ex-presidente seria preso naquele dia, o que não ocorreu.

Perda de espaço

Como consequência da crise política e dos resultados ruins na economia, o PT perdeu espaço em 2016. No primeiro turno, o partido perdeu três das quatro capitais que governava, ganhando apenas em Rio Branco (AC). A derrota mais simbólica foi a de Fernando Haddad , de São Paulo, que sequer foi para o segundo turno.

LEIA MAIS:  Articulador do impeachment, PMDB é o partido com mais candidatos no País

Para Maluf, o partido só teria alguma chance de manter alguma relevância no cenário político se assumir os erros cometidos e se retratar politicamente. “O PT não acredita para razões profundas de autocrítica. Não será mudando de nome ou de sigla que a situação irá facilitar”, comenta o especialista, que ressalta que o PSOL  está herdando parte do espaço do PT nas eleições. A equipe do iG procurou o Instituto Lula para comentar a reportagem, mas não obteve retorno.

    Leia tudo sobre: Lula
    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.