Desafeto do governo, o presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB), promete dar prosseguimento à instalação do processo contra a presidente nesta quinta-feira

Boneco inflável que representa o ex-presidente Lula como presidiário é erguido em São Paulo
Renato Ribeiro Silva/Futura Press - 13.03.2016
Boneco inflável que representa o ex-presidente Lula como presidiário é erguido em São Paulo

Em uma mudança de estratégia em relação a protestos anteriores, os grupos que pedem o impeachment de Dilma Rousseff decidiram aguardar novidades sobre o processo contra a presidente da República na Câmara dos Deputados para definir seus próximos passos. 

A decisão foi confirmada ao iG  pelas lideranças do Movimento Brasil Livre (MBL) e do Vem Pra Rua, os principais protagonistas dos atos pelo impeachment da presidente, logo após a maior série de protestos  já registrada no País, no domingo (13). De acordo com a Polícia Militar, 3,3 milhões de pessoas compareceram aos atos em território nacional – para os organizadores, o número de participantes chegou a 6,6 milhões. 

"Ainda precisamos digerir o que aconteceu hoje [domingo] e esperar até quinta-feira (17), quando esperamos que se inicie a análise do processo de impeachment", afirmou Renato Oliveira, um dos coordenadores nacionais do MBL, depois de o ato em São Paulo ter reunido 1,4 milhão de pessoas na Avenida Paulista, de acordo com a Polícia Militar – 500 mil, segundo o Datafolha. 

Veja fotos dos protestos de domingo contra o governo federal:

A expectativa dos grupos é que a aguardada instalação da comissão especial responsável por analisar o impeachment de Dilma seja retomada no final da semana, conforme prometeu o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), desafeto do governo cujo mandato é ameaçado por um processo no Supremo Tribunal Federal e na própria Casa que preside devido à suspeita de envolvimentos em crimes investigados na Operação Lava Jato. 

A alternativa escolhida pelos movimentos casa com a estratégia que os grupos já vinham traçando desde dezembro, quando realizaram protestos com baixa adesão de público em comparação a manifestações anteriores. Na ocasião, os líderes do MBL, Kim Kataguiri e Renan Santos, admitiram à reportagem que, caso fosse instalado naquela época, o impeachment não seria aprovado na Câmara.

Para eles, a partir de então, mais importante do que mobilizar as pessoas nas ruas era incentivar sua rede de apoiadores a pressionar deputados federais, os responsáveis por votar o processo de cassação, a aderirem ao movimento pró-impeachment.

"Fizemos atos gigantes ao longo de 2015 e outros protestos mais focados, como no Tribunal de Contas da União (TCU), no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), para pressionar por questões específicas. Mas, agora que as coisas estão realmente acontecendo, tudo ficou mais fácil: o leque passa a se restringir somente aos deputados, aqueles que vão definir se Dilma cai ou não", explicou em dezembro Renan.

Além disso, os líderes do grupo anti-Dilma viam com temor a possibilidade de fazerem um novo ato com público abaixo do esperado, reforçando a tendência de seguidores a desacreditarem no poder das ações nas ruas e dando uma arma ao governo para rebater seus detratores devido à baixa adesão popular das manifestações, vistas como termômetro concreto da insatisfação da população com seus governantes.

Assim, apostavam as lideranças, o hiato entre um protesto e outro seria necessário para que o impeachment fosse abraçado por mais parlamentares e, dependendo do desenrolar da operação que investiga esquema de propina na Petrobras, a Lava Jato, novos fatos poderiam elevar a indigação pública, reforçando as manifestações. 

Manifestantes erguem bandeira do Brasil durante o maior ato da história do País, em São Paulo
Peter Leone/Futura Press - 13.03.2016
Manifestantes erguem bandeira do Brasil durante o maior ato da história do País, em São Paulo

A aposta foi acertada. Menos de duas semanas antes dos atos de domingo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi obrigado a prestar depoimento  (condução coercitiva) à Polícia e ao Ministério Público Federal a mando do juiz Sérgio Moro, com o objetivo de explicar suposto favorecimento a ele de empreiteiras envolvidas no esquema de corrupção da estatal, relacionadas a um apartamento no litoral paulista e a um sítio no interior do Estado de São Paulo.

Réu em processo de cassação no Supremo Tribunal Federal, Cunha quer agilizar ação contra Dilma
Charles Sholl/Futura Press - 24.02.16
Réu em processo de cassação no Supremo Tribunal Federal, Cunha quer agilizar ação contra Dilma

A delação premiada do petista Delcídio do Amaral, ex-líder do governo no Senado, que acusou Dilma de tentar interferir nas investigações da Lava Jato, aliada à súbita saída de José Eduardo Cardozo do Ministério da Justiça e do convite feito a Lula para assumir um ministério no Planalto – supostamente para lhe garantir foro privilegiado para o caso de algum julgamento –, ajudou a acirrar ainda mais os ânimos. E impulsionou como nunca a população contrária ao governo a aderir às ruas.

"Vamos avaliar conjuntamente sobre os atos e também aguardar os protestos da militância petista marcados para sexta-feira. Mas o nosso objetivo hoje era enterrar a Dilma e conseguimos fazê-lo", comemorou Kataguiri no domingo. "Talvez nem haja mais a necessidade de fazermos uma nova convocação para protestos como este. Afinal, é possível que a Dilma caia antes disso."


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