Cúpula do PMDB define hoje como será o futuro ao lado do governo

Por Nicolas Iory - iG São Paulo |

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Parcela significativa do partido cobra ruptura com o Planalto e aproximação com o PSDB; desembarque do governo pode implicar no apoio da legenda ao impeachment da presidente

Michel Temer busca permanência na presidência do PMDB, posto que ocupa desde 2001
TARSO SARRAF/ESTADÃO CONTEÚDO
Michel Temer busca permanência na presidência do PMDB, posto que ocupa desde 2001

Às vésperas dos protestos que prometem tomar centenas de cidades contra a presidente Dilma Rousseff neste domingo (13), os olhos da política nacional se voltam para o Centro de Eventos Brasil 21, em Brasília, onde o PMDB realiza sua convenção nacional neste sábado (12).

Para além da definição dos nomes que ocuparão a executiva nacional do partido – objetivo primário do evento –, o encontro da cúpula peemedebista gera expectativa devido à possibilidade de uma definição sobre o futuro da legenda em relação ao governo Dilma. Ao longo desta semana, foram realizadas diversas conversas e movimentos indicando que o PMDB poderá desembarcar da base aliada.

Bandeira antiga do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (RJ), a proposta de deixar o governo ganhou força após a crise política no Planalto se agravar ainda mais nas últimas semanas devido à prisão do marqueteiro João Santana, à delação do senador Delcídio do Amaral (PT-MS) e à ação da Polícia Federal contra o líder petista Luiz Inácio Lula da Silva.

Diante desses episódios, diretores das sedes do PMDB no Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul, Santa Catarina e Paraná decidiram redigir juntos, em reunião na capital gaúcha, um documento intitulado "Carta de Porto Alegre", no qual os dirigentes cobram que o partido se afaste do governo federal.

"O PMDB participa do governo, mas é meramente decorativo. Não somos ouvidos para nada. O País está afundando e a gente vai ter que afundar junto?", critica o deputado federal Osmar Terra, vice-presidente estadual do PMDB no Rio Grande do Sul.

Além das denúncias contra o governo, os argumentos do grupo na defesa pelo distanciamento do Planalto passam pela situação econômica do Brasil e pela "condução errática" e "desacreditada" da política do País.

Os peemedebistas condenam ainda o "rendimento do governo ao jogo político pautado pela pressão por cargos". Esse fenômeno, no entanto, passa justamente pelo próprio PMDB, que detém atualmente seis ministérios, sendo três deles considerados de primeiro escalão – Saúde, Minas e Energia e Agricultura.

A "Carta de Porto Alegre" que será entregue durante a convenção deste sábado ao presidente do partido, Michel Temer, defende que a legenda entregue as posições no Executivo para descolar do governo.

"[Deixar o governo] não é uma coisa simples, até pelo número de cargos, mas precisamos entregá-los para ter um discurso livre", defende Terra.

TSE analisa pedido de cassação da chapa que elegeu Dilma Rousseff e seu vice, Michel Temer
Fotos Públicas
TSE analisa pedido de cassação da chapa que elegeu Dilma Rousseff e seu vice, Michel Temer

Partido repartido

Diante das manifestações pelo rompimento com o governo, o vice-presidente Michel Temer procurou nesta semana o ministro da Casa Civil, Jaques Wagner, para antecipar que o PMDB daria um passo no sentido de se distanciar de Dilma, conforme reportagem do jornal "O Globo".

A proposta, no entanto, divide o partido e ainda enfrenta resistência de alas importantes do partido. Os diretórios do PMDB no Rio de Janeiro, no Maranhão e em Minas Gerais, por exemplo, defendem a permanência do grupo na base aliada.

Visto como um dos principais apoiadores de Dilma no Congresso, o presidente do Senado, Renan Calheiros (AL), evitou no início desta semana se posicionar a respeito de um possível rompimento com o governo. "Não é papel do presidente do Congresso Nacional botar fogo na crise. O papel do presidente do Congresso é, mais do que nunca, trabalhar pela serenidade, pelo bom senso, pelo equilíbrio", disse Calheiros.

Outro aliado de Dilma no PMDB é o líder do partido na Câmara, Leonardo Picciani (RJ), que minimizou as movimentações dos colegas de legenda ao longo desta semana.

"Essa divisão no partido não é nova, acredito que só aumentou a intensidade do debate. Numericamente, eu noto que não houve crescimento daqueles que são contrários à permanência do partido na base aliada", diz o deputado.

Além das discussões internas, integrantes do PMDB se reuniram ao longo desta semana com lideranças do PSDB, sinalizando uma reaproximação entre as duas siglas.

Na quarta-feira (9), Renan Calheiros (AL), o líder do PMDB no Senado, Eunício Oliveira (CE), e o senador Romero Jucá (RR) jantaram com expoentes do PSDB em Brasília, entre eles o presidente do partido, o senador Aécio Neves.

De acordo com o líder tucano no Senado, Cássio Cunha Lima (PB), que também participou do encontro, a reaproximação entre as duas legendas não significa que haverá uma aliança entre os partidos.

"Conversamos sobre a possibilidade de abreviar o mandato da presidente Dilma, o que pode acontecer pelo processo de impeachment, que já deverá ter uma comissão formada no Câmara na próxima semana, ou pelos julgamentos no TSE [Tribunal Superior Eleitoral]", relata o senador.

Essa segunda via, no entanto, significaria também uma derrota para o próprio PMDB, já que o processo analisado pelo tribunal pode cassar a chapa que elegeu a presidente Dilma, o que inclui o peemedebista Michel Temer.

"O Temer está bastante sereno quanto a isso e quanto aos gestos de alas do partido cobrando a saída do governo", conta Picciani, que esteve com o vice-presidente no Palácio do Jaburu também na quarta-feira (9).

O líder peemedebista na Câmara minimiza a possibilidade de o partido definir já neste sábado o rompimento com o governo. "Não creio que isso acontecerá. Haverá a escolha do novo diretório e os dirigentes colocarão seus discursos, mas não creio que isso já será definido."

"Sair ou não do governo será uma decisão muito apertada. Mas a vida vai levar a essa decisão, inevitavelmente. O protesto deste domingo vai ser bem maior que o do fim do ano passado e isso vai levar a um desastre. Será um desastre total para qualquer partido", afirma Terra.

O deputado Leonardo Picciani é um dos principais aliados de Dilma no PMDB
Marcelo Camargo/ Agência Brasil
O deputado Leonardo Picciani é um dos principais aliados de Dilma no PMDB

Teto de vidro

Embora dirigentes do partido critiquem a "crise ética que avilta a nação e chega ao centro do poder" (conforme diz a Carta de Porto Alegre") , o PMDB não sai ileso quando o assunto são denúncias. Nesta sexta-feira (11), o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pediu a abertura de mais um inquérito contra o senador Renan Calheiros. O pedido será analisado pelo STF, que já tornou o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, réu na Operação Lava Jato.

"É claro que o partido está fragilizado por esses processos, mas temos menos desgaste que o PT. O PMDB é a única alternativa de poder que aponta para o futuro em consonância com o cenário brasileiro atual. É a solução menos dramática para o País", teoriza o deputado Osmar Terra.

Caso se confirme o rompimento entre PMDB e o Planalto, um dos efeitos práticos dessa decisão deve recair sobre o andamento do pedido de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff.

Embora seja cauteloso quanto a um possível apoio do partido ao fim do mandato de Dilma, o líder peemedebista na Câmara sugere que poderá repensar o apoio à presidente caso o partido opte pela ruptura.

"Não dá para tratar dessa forma, porque isso [o rompimento] é só uma tese. Mas todo filiado, havendo uma decisão partidária, está sujeito a acompanhar a executiva nacional. Vamos aguardar", pondera Picciani.

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