Analistas nos EUA descartam risco de 'venezuelização' após ação contra Lula

Por BBC | - Atualizada às

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Avaliação de especialistas ouvidos pela BBC, Brasil não tem o tipo de divisão social como o país vizinho

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Nova fase da Operação Lava Jato teve início nesta sexta-feira (4) e Lula foi principal alvo
THIAGO RIBEIRO/FRAMEPHOTO - 3.3.16
Nova fase da Operação Lava Jato teve início nesta sexta-feira (4) e Lula foi principal alvo

A operação da Polícia Federal contra Luiz Inácio Lula da Silva nesta sexta-feira (4) deverá acirrar os ânimos entre críticos e apoiadores do ex-presidente, mas o Brasil não corre os riscos de mergulhar numa crise política comparável à da Venezuela, segundo analistas ouvidos pela BBC Brasil em Washington.

Após Lula ser conduzido para depor sobre sua relação com empreiteiras investigadas pela Operação Lava Jato, manifestantes favoráveis e contrários ao petista brigaram em frente à casa do ex-presidente e no aeroporto de Congonhas. O PT convocou um protesto em solidariedade a Lula e o Movimento Brasil Livre (MBL), que defende o impeachment da presidente Dilma Rousseff, marcou um ato a favor da Lava Jato.

Presidente emérito do Inter-American Dialogue, um centro de debates e pesquisas em Washington, Peter Hakim diz que apesar da polarização o Brasil não deve seguir os passos da Venezuela, onde confrontos entre defensores e críticos do governo têm provocado mortes e agravado a crise econômica.

"O Brasil não tem o tipo de divisão (radical) que vemos na Venezuela entre chavistas linha-dura, grupos de baixa renda que se beneficiaram enormemente de programas sociais e uma classe média e alta que sente que o país foi tomado de assalto", ele diz à BBC Brasil.

Para Hakim, a relação entre governo e oposição no Brasil sempre foi mais fluida. "Mesmo a transição do regime militar para o civil foi feita com facilidade".

Analistas afirmam, no entanto, que a operação contra Lula dificulta ainda mais a posição de Dilma no governo.

A consultoria Eurasia divulgou um comunicado em que diz considerar provável a queda da presidente. Até quinta-feira, a consultoria avaliava que Dilma tinha mais chances de ficar no cargo que de cair.

Para a Eurasia, a detenção de Lula "deve gerar uma mobilização maior para o protesto pró-impeachment em 13 de março, ao qual congressistas serão bem sensíveis".

Leia também: 'Legado de Lula não pode justificar corrupção', diz Transparência Internacional

'Conflitos pontuais'
Diretor de América Latina da Eurasia, João Augusto de Castro Neves afirma que a ação contra Lula deve gerar apenas conflitos pontuais e reverberar positivamente entre investidores estrangeiros.

"Como aumentou o risco de Dilma cair, eles passam a achar que a solução da crise política e econômica no Brasil está mais próxima", diz Neves. "Se eles estão certos ou não, isso é outro debate."

Nesta sexta, o real se valorizou e a Bolsa de São Paulo opera em alta.

Para Kellie Meimam Hock, sócia-diretora da consultoria McLarty Associates e que serviu como diplomata no Brasil, a operação contra Lula sinaliza que "as instituições estão funcionando e isso está levando o Brasil para uma nova era".

"Temos um grupo de promotores jovens e bem agressivos que estão mirando o que querem para o Brasil e usando as instituições para chegar lá".

Para Hock, o desafio de Dilma será convencer investidores e governos estrangeiros de que os rumos da Lava Jato indicam que o Brasil "é uma democracia funcional, com Judiciário funcional e instituições com um nível sofisticado, e não o contrário".

Para Harold Trinkunas, diretor de América Latina do Brookings Institution, outro centro de pesquisas e debates em Washington, a diferença entre Brasil e Venezuela é que, no Brasil, "as pessoas estão operando dentro das instituições para ampliar o alcance da lei e não reduzi-lo".

Já na Venezuela, opina ele, a crise é alimentada por um governo que tem se valido de ações inconstitucionais para se manter no poder.

Trinkunas diz considerar que, embora no curto prazo a Lava Jato tenda a agravar a turbulência política no Brasil, no longo prazo a operação poderá ser vista como um marco no combate à impunidade, problema em que o país custa a avançar apesar da redução da pobreza e melhorias em outras áreas.

Todos os analistas disseram considerar improvável que os Estados Unidos tentem interferir na crise política brasileira.

"O Brasil não está pedindo a ajuda dos Estados Unidos", diz Hakim, do Inter-American Dialogue. "E na verdade os Estados Unidos não têm capacidade de ajudar o Brasil, não há muito que o governo aqui possa fazer."

Para Hakim, a postura da Casa Branca diante da crise no Brasil reflete um menor envolvimento da Casa Branca em toda a América Latina, à exceção da América Central e da Colômbia.

"O Brasil está muito distante hoje."

Operação Lava Jato - Lula

Nesta 24ª fase da Operação Lava Jato, ex-presidente Lula foi alvo de um dos mandados de condução coercitiva e foi obrigado a prestar esclarecimentos. Foto: Newton Menezes/Futura Press - 04.03.16Policia Federal fez buscas na sede do Instituto Lula, no bairro do Ipiranga, em São Paulo. Foto: Newton Menezes/Futura Press - 04/03/16Ação da PF no Instituto Lula foi feita na manhã desta sexta-feira (4). Foto: ESTADÃO CONTEÚDO/ MARCELO GONCALVES -04/03/16Policia Federal isolou rua do Instituto Lula, no bairro do Ipiranga, durante a operação Aletheia, desdobramento da Lava Jato. Foto: ESTADÃO CONTEÚDO/NELSON ANTOINE/FRAMEPHOTO - 04/03/16Polícia Federal também fez buscas na sede da Odebrecht, em São Paulo. Foto: Marcos Bezerra/Futura Press - 04.03.16Houve movimentação na sede da Polícia Federal, no bairro da Lapa, zona oeste de São Paulo. Foto: ESTADÃO CONTEÚDO/FELIPE RAUAção da PF nesta sexta-feira chegou ao ex-presidente Lula. Foto: ESTADÃO CONTEÚDO/FELIPE RAU - 04/03/16Após deflagração da 24ª fase da Lava Jato, agentes chegaram com malotes à sede da Polícia Federal, em São Paulo . Foto: Leonardo Benassatto/Futura Press - 04.03.16O assessor especial do presidente Lula, Rogério Pimentel, prestou depoimento na sede da Polícia Federal, no Bairro do Lapa, na zona oeste de São Paulo (SP). Foto: Márcio FERNANDES/ESTADÃO CONTEúDOAgentes da Polícia Federal fizeram buscas no Condomínio Solaris, na praia das Astúrias, no Guarujá (SP). Foto: Motta Jr./Futura Press - 04.03.16Fachada do Condomínio Solaris, no Guarujá (SP); MP-SP investiga se apartamento teve a reforma de R$ 700 mil paga pela construtora OAS e se seria de Lula e Marisa Letícia. Foto: Motta Jr./Futura PressHelicóptero sobrevoa à residência do ex-presidente após ação da PF contra Lula. Foto: Rodrigo Robatini/Futura Press - 04.03.16Movimentação em frente à residência do ex-presidente, onde houve buscar da Polícia Federal. Foto: Rodrigo Robatini/Futura Press - 04.03.2016Entrada do Condomínio Solaris, no Guarujá, litoral sul de São Paulo. Foto: Motta Jr./Futura Press A ação também ocorre no prédio do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de seu filho Fábio Luiz Lula da Silva,. Foto: Estadão Conteúdo/Marcelo Gonçalvessítio lula -a atibaia. Foto: CARLOS NARDI/WPP/ESTADÃO CONTEÚDO


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