Escândalos levam PT a projetar dificuldades nas eleições até no berço do partido

Por Nicolas Iory - iG São Paulo | - Atualizada às

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Coordenador do partido no ABC paulista classifica bombardeio crescente contra o partido como delicado, mas ainda aposta na força da imagem do ex-presidente Lula para angariar votos

O presidente do PT, Rui Falcão, ao lado de Lula nas comemorações dos 36 anos do partido
José Lucena/Futura Press - 27.2.16
O presidente do PT, Rui Falcão, ao lado de Lula nas comemorações dos 36 anos do partido

Em 1980, um mar de trabalhadores tomou as ruas de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, para pedir a liberdade de um líder sindicalista preso pelo Departamento de Ordem Política e Social (Dops) – o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas o cenário é bastante diferente quase 36 anos depois. Hoje, a legenda surgida a partir daquele movimento vê sucessivas acusações colocarem em risco suas pretensões eleitorais mesmo na região que serviu de berço para o petismo.

Nos bairros centrais de São Bernardo, Santo André e São Caetano do Sul, por exemplo, houve registros de panelaços durante os últimos pronunciamentos de Lula e de Dilma Rousseff na TV aberta, situações impensáveis até pouco tempo atrás em uma área dominada pela militância petista.

Conhecido como Claudinho da Geladeira, o coordenador regional do PT no ABC paulista, Cláudio Manoel Melo, reconhece que notícias como a prisão do marqueteiro do PT, João Santana, e as investigações contra o ex-presidente Lula representam dificuldades extras para o partido nas eleições de outubro.

“Estamos sofrendo um bombardeio nacional todo dia. É um cenário delicado em que cada candidato do PT vai precisar ser muito estratégico dentro da sua cidade", avalia ele. "A eleição deste ano será dura, mas muito importante para o partido."

A queda na popularidade da sigla na região já pôde ser notada na última eleição presidencial, quando o candidato tucano Aécio Neves obteve mais votos dos eleitores do ABC do que a petista Dilma Rousseff.

Para o sociólogo Marcelo Buzetto, integrante do Núcleo de Formação Cidadã da Universidade Metodista de São Paulo, os candidatos que disputarão as eleições municipais contra o PT vão usar as notícias negativas que afetam o partido em âmbito nacional para tentar fragilizar a candidatura de seus concorrentes.

“Eles vão explorar esses fatos, apesar de muitos desses candidatos da oposição também terem telhado de vidro por estarem envolvidos em governos que também enfrentam denúncias", analisa Buzetto. "A situação do PT é hoje bastante delicada e isso é agravado pela perda de parte da base social do partido."

O desafio de fazer o PT reconquistar essa base recairá sobre os ombros dos candidatos escolhidos pela legenda para a disputa eleitoral de outubro. O próprio coordenador do PT-ABC concorrerá em Rio Grande da Serra, uma das sete cidades que compõem o ABC paulista – também formado por São Caetano do Sul, Diadema, Ribeirão Pires, Santo André, São Bernardo do Campo e Mauá, essas três últimas atualmente administradas por petistas.

Frente a multidão de trabalhadores, Lula discursa em assembléia de metalúrgicos do ABC, em 1979
CLOVIS CRANCHI/ESTADÃO CONTEÚDO - 13.5.79
Frente a multidão de trabalhadores, Lula discursa em assembléia de metalúrgicos do ABC, em 1979

Desafio na terra de Lula
Surpreendentemente, na cidade onde Lula vive em uma luxuosa cobertura, o caminho para o candidato do PT chegar ao Paço Municipal se mostra um dos mais difíceis até o momento. Maior cidade da região, São Bernardo é administrada pelo ex-ministro de Lula Luiz Marinho, que encerra em 2016 o segundo mandato na cidade e tenta agora eleger seu sucessor, o secretário de Serviços Urbanos, Tarcísio Secoli.

As únicas pesquisas disponíveis até o momento, realizadas pelo setor de pesquisas do jornal “Diário do Grande ABC”, colocam o deputado federal Alex Manente (PPS) na liderança da corrida eleitoral na cidade. E a crise petista é celebrada pelo candidato, que a vê como um importante fator para enfrentar o adversário na disputa de outubro, aliada ao fato de já ter promovido seu nome quatro anos atrás, nas eleições municipais de 2012. 

“O candidato do PT ainda é desconhecido da população, mas acho que a margem de crescimento dele é bastante reduzida por tudo isso que ocorre com o partido", afirma Manente. "O PT tinha uma militância muito voluntariosa aqui, mas hoje esse entusiasmo tem diminuído de maneira significativa. Acredito que o partido terá muitas dificuldades na região."

Para o sociólogo Marcelo Buzetto, o encolhimento da ala de apoiadores do PT se dá pela dificuldade que os partidos políticos encontram para renovar os seus quadros como consequência de "a juventude ter atualmente mais interesse em se envolver em questões específicas, como os movimentos contra o aumento das tarifas do transporte pública, do que se juntarem a legendas".  "Mas não podemos atribuir essa crise de representatividade somente ao PT”, ressalta ele.

Curiosamente, se os petistas já não contam com uma militância tão numerosa, um dos trunfos das campanhas do partido no ABC poderá ser a presença do próprio Lula, cada vez mais acuado por investigações da Polícia Federal, como cabo eleitoral. O coordenador Manoel Melo avalia que, apesar de a imagem do ex-presidente ter sido atingida por denúncias a respeito de supostos favorecimentos de construtoras investigadas na Operação Lava Jato, seu apoio ainda pode decidir um pleito a favor do PT na região.

A julgar pelo que ocorreu nas eleições de 2012, a afirmação do coordenador se mostra verdadeira. Lula participou naquele ano de comícios em quatro cidades da região: Santo André, São Bernardo, Mauá e Diadema. O PT saiu derrotado apenas na última.

Ex-presidente é recebido com festa organizada pelo diretório municipal do PT em São Bernardo
ROBSON FERNANDJES/ESTADÃO CONTEÚDO - 1.1.11
Ex-presidente é recebido com festa organizada pelo diretório municipal do PT em São Bernardo


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