A carreira internacional de João Santana, marqueteiro do PT alvo da Lava Jato

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Publicitário que teve prisão decretada nesta segunda-feira já foi responsável por eleger cinco presidentes na América Latina

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João Santana (à esquerda de Lula) foi responsável pelas campanhas vitoriosas de Dilma Rousseff
Ricardo Stuckert/ Instituto Lula - 5.3.14
João Santana (à esquerda de Lula) foi responsável pelas campanhas vitoriosas de Dilma Rousseff

A influência de João Santana, marqueteiro da presidente Dilma Rousseff, não se deu apenas no Brasil. Em cinco anos, ele ajudou a eleger cinco presidentes na América Latina. O baiano teve a prisão decretada nesta segunda-feira (22) na 23ª fase da Operação Lava Jato, intitulada “Acarajé”. O Ministério Público Federal e a Polícia Federal investigam o suposto pagamento de cerca de US$ 7 milhões pela Odebrecht ao publicitário em contas secretas no exterior. Santana tem negado as acusações de ter valores não declarados.

O marqueteiro foi responsável pelas campanhas vitoriosas da presidente em 2010 e 2014, e atuou como uma espécie de conselheiro de Dilma durante 2013, sendo chamado de “ministro” nos bastidores. Santana também foi o marqueteiro da campanha de Lula em 2006, quando o ex-presidente venceu o atual governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, no segundo turno.

Além da influência no Brasil, onde também ajudou a eleger Lula em 2002 – ainda como sócio de Duda Mendonça – e 2006, Santana exerceu um importante papel na eleição de candidatos da esquerda na América Latina, e se tornou um dos nomes por trás das eleições de presidentes do movimento que ficou conhecido como “onda rosa”.

Campanhas vitoriosas

Somente entre 2009 e 2014, assinou as campanhas vitoriosas de presidentes de esquerda latino-americanos. Antes disso, entre 2003 e 2007, já como sócio da empresa Pólis, ao lado de sua mulher, Mônica Moura, a carreira internacional começou na Argentina, e ele coordenou o marketing político de sete campanhas legislativas, municipais e governamentais entre 2003 e 2007.

Em 2009, foi o marqueteiro da vitória de Mauricio Funes, em El Salvador, que encerrou 20 anos da hegemonia da direita no país. Nessa campanha, Santana usou como uma das ferramentas a música brasileira, relembrando a década de 70, período em que atuou como compositor e agitador cultural ao lado de nomes como Caetano Veloso, Tom Zé e Gilberto Gil. Para Funes, Santana usou uma versão da música Canta Canta, Minha Gente, de Martinho da Vila, que logo se tornou a marca da vitória do então candidato.

No intervalo entre 2009 e 2012, além de ser o marqueteiro da campanha de Dilma Rousseff, ele também foi peça importante na eleição do primeiro mandato de Fernando Haddad (PT), na prefeitura de São Paulo, que colocou o Partido dos Trabalhadores de volta à liderança da principal capital do País depois de sete anos.

Em 2012, foram três campanhas: ajudou a reeleger Hugo Chávez, na Venezuela, e atuou como principal articulador da eleição de Danilo Medina na República Dominicana, que derrotou o ex-presidente do país, Hipólito Mejía. Fora da América Latina, ainda assinou a campanha de José Eduardo Santos, em Angola.

Santana teve um papel importante na vitória de Hugo Chávez para Presidência da Venezuela e, usando mais uma vez sua trajetória como músico, produziu a propaganda e o jingle da campanha, que exaltava o sentimento patriótico e emocional que também davam o tom das candidaturas assinadas por ele no Brasil.

Em 2013, João Santana voltou a atuar na Venezuela e contribuiu para a vitória do sucessor de Chávez, Nicolás Maduro. Em um vídeo assinado por ele, se evocava uma espécie de ressurreição do presidente morto, anunciando que ele “nasceria novamente”.

Naquele mesmo ano, ficou conhecido como uma espécie de “ministro” da presidente Dilma Rousseff e presente como conselheiro em momentos decisivos do mandato da petista, como a postura da líder frente à onda de manifestações nas ruas em 2013.

A primeira derrota

Em 2014, veio o primeiro revés depois de ter se tornado uma espécie de “guru” do marketing político na região. Apesar de manter uma equipe de mais de 30 pessoas na Cidade do Panamá e trabalhar por seis meses na campanha de José Domingos Arias, Santana não conseguiu eleger o candidato da esquerda, que perdeu a campanha para Juan Carlos Varela.

A derrota no Panamá seguiu uma vitória apertada na campanha presidencial no Brasil, quando Dilma Rousseff derrotou o candidato tucano Aécio Neves em segundo turno, com 51,64% dos votos.

Polícia Federal em ação da Lava Jato; marqueteiro teve prisão decretada nesta segunda-feira
Rovena Rosa/ Agência Brasil
Polícia Federal em ação da Lava Jato; marqueteiro teve prisão decretada nesta segunda-feira

“O desejo é forte, mas não salva”

Conhecido pela personalidade ágil e inquieta, João Santana foi, antes de atuar como marqueteiro, jornalista e compositor, seguidor do músico experimental Walter Smetak e um dos fundadores da banda Bendengó. Ele é autor de uma frase muito usada entre compositores baianos, que virou uma espécie de dito popular: “o desejo é forte, mas não salva”.

No jornalismo, João Santana, que tanto ajudou a eleger presidentes, também foi autor de uma matéria que contribuiu para o impeachment de Fernando Collor. Ele era repórter da revista "IstoÉ" e entrevistou o motorista Eriberto França, conseguindo então declarações que ajudaram a derrubar o então presidente. Pela reportagem, ele foi vencedor do Prêmio Esso naquele ano. Antes da revista, Santana também havia atuado nas redações do "Jornal da Bahia", "O Globo" e "Veja".

É também autor do romance "Aquele Céu Negro Azulado", ficção de 2002 que conta a história de um casal brasileiro que retorna ao País depois de uma temporada nos Estados Unidos.

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