"Quem prega volta à ditadura não tem visão do que a sociedade precisa", diz Apeles Pacheco

Com orgulho, Apeles Pacheco exibe seu exemplar do discurso da promulgação Constituição Federal de 1988. No livro, uma dedicatória: “Ao amigo Apeles, o primeiro a conhecer este texto, com os agradecimentos de Ulysses Guimarães”. Funcionário da Câmara dos Deputados até hoje, o então assessor do presidente da Assembleia Nacional Constituinte ainda não tinha a dimensão exata do peso político que aquele momento teria nos anos seguintes. Para ele, era apenas mais um manuscrito a ser datilografado e, em seguida, lido por Ulysses Guimarães.

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“Nesse tempo todo em que eu estou na Câmara, esse foi o momento mais marcante do Parlamento. Foi uma ruptura de um regime para o outro. Depois, a democracia foi implementada”, avalia Apeles, que hoje é funcionário da Corregedoria da Casa. Frequentador assíduo da casa de Guimarães, o servidor se recorda de uma faixa estendida à época, na entrada da residência, contra a ditadura militar.

“Ele queria mesmo que o Brasil fosse democrático. Agora, não tem como voltar, estamos num caminho sem volta. Não se inventou um regime melhor do que a democracia. Daqui pra frente é participação popular. Quem prega a volta à ditadura não tem visão do que a sociedade precisa. Brasileiro é muito sem memória”, avalia.

Ulisses Guimarães exibe exemplar da Constituição de 1988
Fotos Públicas/Célio Azevedo
Ulisses Guimarães exibe exemplar da Constituição de 1988

Apeles compara ainda as diferentes correlações de força existentes naquela época e nos dias atuais. “Forças das mais variadas influenciaram – ruralistas, evangélicos, empresários – o lobby era muito grande. Todo mundo queria botar um pedaço ali. Hoje, você vê forças que vêm aqui para se manter, mas não é tão intenso. Lá, você só tinha um ano para fazer uma nova carta”, diz o servidor.

Segundo Apeles, Ulysses Guimarães era uma pessoa “ao mesmo tempo simples e grandiosa”. “Ele realmente queria chegar ao poder – todo político quer chegar ao poder –mas ele chegou lá de uma forma natural, de uma forma política e sendo aceito. Lógico, ele não foi aceito pela ditadura, mas acabou sendo aceito depois como um grande líder”, afirma o ex-assessor, em meio a manuscritos, jornais da época, fotografias e outros documentos históricos.

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Entre as recordações, está um dia em que Apeles datilografava um manuscrito na sala do então presidente da Câmara quando, de repente, o deputado surgiu enrolado numa toalha de banho, para fazer alterações no texto. “Para você ver como que ele era, deixava a gente tão à vontade”, brinca o ex-assessor.

O deputado Ulysses Guimarães conduz o processo de discussão e votação das emendas do texto constitucional, ao lado do então senador Fernando Henrique Cardoso
Fotos Públicas/Célio Azevedo
O deputado Ulysses Guimarães conduz o processo de discussão e votação das emendas do texto constitucional, ao lado do então senador Fernando Henrique Cardoso


Em 1990, na sua última eleição para deputado federal, Ulysses Guimarães foi surpreendido com uma redução de 590 mil votos, em 1986, para 46 mil votos naquele ano. De acordo com Apeles, o baixo desempenho foi motivado pelo tom da campanha, cujo mote adotado foi “bote fé no velhinho”. “Era uma contra-campanha”, afirma.

Parlamentares durante a votação do texto da Constituição, conduzida por Ulisses Guimarães (1988)
Fotos Públicas/Célio Azevedo
Parlamentares durante a votação do texto da Constituição, conduzida por Ulisses Guimarães (1988)

Naquele ano, o peemedebista perderia o comando do partido para Orestes Quércia e deixaria o posto com um discurso também memorável, conhecido como “Oração do Adeus”. Deste, Apeles ainda guarda os manuscritos. Ele também guarda o jornal “Hoje na Câmara” que circulou pela Casa após o dia 12 de outubro de 1992, quando o parlamentar foi morto por um acidente de helicóptero.

“Ulysses era uma pessoa que realmente mereceu todas as homenagens”, elogia, nostálgico, o datilógrafo do presidente da Assembleia Nacional Constituinte de 1988.

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