Parte da bancada do partido do ministro das Cidades, Gilberto Kassab, não descarta votar contra novos projetos do governo

O PSD vive seu próprio estigma de PMDB na Câmara dos Deputados. Parte da bancada tem feito reuniões semanalmente e, nesses encontros, a indignação por pertencer à base do governo é manifestada por um número razoável de parlamentares.

Ontem:  Depoimento de Vaccari à CPI vira palco de guerra entre PT e PSDB

PSD reafirma apoio a Dilma e fará parte da base aliada do governo (nov/2014)
Agência Brasil
PSD reafirma apoio a Dilma e fará parte da base aliada do governo (nov/2014)

Hoje: Jogo político e pautas esvaziadas alimentam a lógica da pizza nas CPIs

As críticas parecem emprestadas dos próprios peemedebistas, que no ano passado resolveram adotar uma postura mais altiva na relação com o governo, alegando que o Planalto não os tratava como aliados. A crítica nem adquire uma nova roupagem na boca do PSD e, nos bastidores, a promessa é que o partido pode começar a votar sistematicamente contra o governo.

Deputados do partido do ex-prefeito de São Paulo e hoje ministro das Cidades, Gilberto Kassab, dizem que dificilmente conseguem ser recebidos pelos ministros. Nas poucas opostunidades que uma audiência é marcada, reclamam que os chefes do primeiro escalão do Executivo federal são incapazes de atender às demandas.

“Só quem tem alguma coisa nesse governo é o PT. O governo no PT, se cuida bem de alguém, é do próprio PT. No meu partido não há nenhum tipo de felicidade em ser do governo”, reclama Sóstenes Cavalcanti (PSD-RJ).

O deputado fluminense é o único que verbaliza abertamente aquilo que o iG ouviu de mais de uma dezena de deputados da bancada, que só concordaram em falar sobre esse momento de insatisfação sob condição de anonimato.

Embora alguns demonstrem insatisfação com Kassab, a maioria alivia para o presidente nacional do PSD. Entretanto, existe entre as fileiras do PSD algum rancor em relação a Kassab. Alguns parlamentares alegam que os deputados não participam de fato do governo, só Kassab.

Perguntado sobre uma possível divisão na bancada, o líder do PSD na Casa, deputado Rogério Rosso (DF), afirma que tal possibilidade é uma “ficção”.

“Não tenho conhecimento disso (insatisfação). Semana passada estivemos com o ministro (Carlos) Gabas (Previdência Social), também estivemos com a Ideli (Salvatti, ex-ministra da secretaria de Direitos Humanos) e com o próprio Kassab, sempre. Não tenho essa percepção de desunião”, afirma Rosso. “A bancada está unida”, completa ele.

Rosso alfineta Cavalcante a respeito de suas críticas abertas ao governo. “Sóstenes tem uma divergência particular com o PT”, resume.

Apesar disso, Rosso reconhece uma certa heterogeneidade no PSD da Câmara. "Temos uma bacada heterogênea, de uma configuração derivada da eleição de 2014 em que parte apoiou Dilma e parte optou pelo apoio a Aécio", avalia. "Tenho procurado ser o mais solidário possível com as demandas de cada um da bancada, mas não tenho essa percepção (de uma possível divisão)", declara o líder.

Espaço no governo

Nas reuniões que a ala descontente tem feito, os parlamentares discutem a possibilidade de melhorar a relação ou até deixar de votar com o governo daqui para frente. “A tônica dos encontros é sempre a mesma: o preço que os parlamentares do PSD pagam por ser da base”, afirma Cavalcante, que é do grupo que alivia para Kassab. “Ele (Kassab) tem se esforçado, mas parece que está engessado no ministério pelo PT”, critica o deputado fluminense.

Além da queixa relacionada ao atendimento na Esplanada dos Ministérios, alguns deputados do PSD reclamam também que não há espaço para participação efetiva nos no governo. Falam de cargos e dizem que é natural que um aliado possa fazer indicações, seja nos escalões mais baixos dos ministérios, seja nas estatais. Alguns deputados citam nomes do PT que não foram eleitos, mas que continuam com suas indicações na máquina federal.

Diante disso tudo, também pesa o sentimento anti-PT, que nasceu no processo eleitoral de 2014 e se cristalizou na Câmara. Essa ala do PSD começa a fazer projeções eleitorais e argumenta que, diante do quadro de escassos espaços na gestão federal, não varia a pena arcar com o ônus eleitoral de estar ao lado do PT e ter de explicar isso ao eleitor no próximo ano. Parte do partido sequer apoiou Dilma Rousseff no ano passado e se sente constrangido em explicar ao eleitor a aliança com a presidente neste segundo mandato.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.