Réu em ação originada na Lava Jato, tesoureiro do PT presta depoimento nesta quinta-feira na CPI da Petrobras

Alçado à condição de réu com a Operação Lava Jato, da Polícia Federal, sob a acusação de corrupção, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha, o tesoureiro do PT João Vaccari Neto atua para não se transformar em um novo Delúbio Soares. 

O tesoureiro do PT João Vaccari Neto depõe nesta quinta na CPI da Petrobras
Agência Brasil
O tesoureiro do PT João Vaccari Neto depõe nesta quinta na CPI da Petrobras

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Delúbio foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no processo do Mensalão (Ação Penal 470). O tesoureiro foi acusado de negociar doações fora das instâncias partidárias, o que enfureceu o o partido. Ele chegou a ser expulso da sigla, para ser reabilitado recentemente. Atualmente cumpre pena em regime semi-aberto.

Delúbio enfrentou uma via crucis sendo visto pelos colegas do próprio PT como um dos mentores do escândalo que quase impediu a reeleição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2006.

Relembre os políticos citados na Operação Lava Jato:




Um dos argumentos utilizados por Vaccari Neto para evitar a comparação com Delúbio: ele nega ter intermediado doações à campanha de Dilma Rousseff, em 2010, longe dos olhos do partido.

O primeiro capítulo da ofensiva para evitar a fritura do atual tesoureiro do PT será o depoimento de hoje à CPI da Petrobras. "Ele responderá a todas as perguntas. Não tem nada a esconder", diz o advogado Luiz Flávio Borges D'Urso.

Segundo o inquérito em que é apontado, João Vaccari Neto teria recebido doações de empreiteiras na campanha para, em troca, garantir que essas empresas fechassem contratos polpudos com a Petrobras.

Pressão

Arredio à imprensa, o homem das finanças do PT resiste como pode. Exceto pelo econtro da Executiva Nacional do último dia 30 de março, ele tem participado de todas as reuniões do Diretório Nacional do partido.

Cobrado sobre as acusações, argumenta que todas as doações que recebeu são legais e que as contas do partido foram aprovadas na Justiça Eleitoral. A versão é ecoada também pelo presidente nacional do PT, Rui Falcão. 

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"Ele [Vaccari] está sendo investigado há um ano, já teve os sigilos fiscal, bancário e telefônico quebrados. Já depôs na Polícia Federal, não está preso. Ele é acusado. Acusado não necessariamente é culpado”, argumenta o presidente petista em defesa do atual Secretário de Finanças do partido. 

Falcão emenda ainda que o tratamento dado pela grande mídia ao caso tem por objetivo criminalizar a legenda. “Para a grande mídia, o PT recebe propina enquanto os outros recebem contribuições legais”, criticou, após reunião do partido na semana passada em São Paulo.

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Em conversas com interlocutores, o ex-presidente Lula teria recomendado o afastamento de Vaccari do cargo. No próximo dia 17 de abril, o Diretório Nacional volta a se reunir em São Paulo e o caso deve ingressar na pauta do encontro.

A corrente Mensagem ao Partido, predominante nos diretórios de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, vai apresentar uma proposta para que qualquer integrante do partido citado em desvios seja afastado preventivamente de suas funções. A Mensagem ocupa entre 16% e 20% dos assentos no diretório nacional. 

No último dia 30 de março, em reunião da Executiva Nacional petista em São Paulo, os mesmos diretórios do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina defenderam em carta o afastamento de Vaccari. Como a reunião não tinha caráter deliberativo, o tema não avançou.

"Com a verdade"

João Vaccari Neto diz estar com a verdade e garante que ela aparecerá no depoimento à CPI da Petrobras. A convocação foi aprovada num cochilo governista. Se aproveitando de uma viagem do presidente Hugo Motta (PMDB-PB), o vice-presidente da CPI, o tucano Antonio Imbassahy (BA) assumiu o primeiro posto da Comissão e conseguiu antecipar a oitiva.

Para o cientista político do Insper, Carlos Melo, é preciso compreender a dimensão do financiamento de campanhas eleitorais antes de se tirar conclusões precipitadas.

"O financiamento de uma campanha eleitoral é, no mínimo, decidido coletivamente. Dinheiro é vital para uma campanha e para qualquer organização financeira. O Vaccari não fez nada sozinho. Há sempre um núcleo formal como um Diretório ou Executiva ou até um núcleo informal. Nós não temos todas as informações para explicar porque o Vaccari permanece no cargo. É preciso cautela. Se houve alguma ilegalidade é a Justiça quem vai dizer", aponta. 

Para o cientista, Vaccari e sua relação com o PT podem estar se pautando por conta da decisão coletiva a que ele provavelmente devia se submeter ou mesmo por pactos políticos firmados anteriormente. Ele acrescenta que a experiência de 12 anos de poder do PT não pode ser desprezada.

"Tem que ver qual tipo de pacto ou acordo PT e Vaccari fizeram. Outro ponto é que nós estamos falando de um partido que está há 12 anos no poder. Não podemos dizer que o PT não sabia como a campanha era financiada".

Melo entende o esforço do tesoureiro para não ser o "Delúbio da vez". "O Delúbio apanhou como o diabo. Houve uma pressão muito grande", reconhece.

Bancoop

Não é a primeira vez que o nome de João Vaccari Neto é associado a desvios. Ele presidiu a Cooperativa Habitacional dos Bancários do Estado de São Paulo (Bancoop) e uma parte dos cooperados adquiriu imóveis via financiamento junto à entidade. Pagaram, mas não receberam os imóveis contratados: 32 prédios resultaram inacabados e 3,5 mil mutuários foram prejudicados.

Uma CPI foi criada na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp). Os trabalhos transcorreram entre março e outubro de 2010. Presidida pelo tucano Samuel Moreira, hoje deputado federal, e relatada pelo colega de bancada Bruno Covas (também eleito deputado federal em 2014), foi palco de embates entre tucanos e petistas.

Naquela época, mutuários prejudicados, peritos e ex-dirigentes da Bancoop foram ouvidos. O rombo financeiro estimado era de R$ 100 milhões. Vaccari jamais apareceu para prestar depoimento à CPI. No relatório final, encaminhado ao Ministério Público paulista, foi sugerida a intervenção do órgão na Bancoop.

Vaccari Neto é um dos cinco réus ligados à Bancoop e responde a processo na 5ª Vara Criminal do Judiciário paulista pela prática de estelionato, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica.

O promotor do caso no MP paulista, José Carlos Blat, é categórico. “O dinheiro usado na Bancoop abasteceu campanhas eleitorais petistas”, escreveu em seu relatório que baseou a denúncia acatada pelo Judiciário.

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