Vaccari Neto promete 'responder tudo' para não se transformar em novo Delúbio

Por Anderson Passos - iG São Paulo | - Atualizada às

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Réu em ação originada na Lava Jato, tesoureiro do PT presta depoimento nesta quinta-feira na CPI da Petrobras

Alçado à condição de réu com a Operação Lava Jato, da Polícia Federal, sob a acusação de corrupção, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha, o tesoureiro do PT João Vaccari Neto atua para não se transformar em um novo Delúbio Soares. 

O tesoureiro do PT João Vaccari Neto depõe nesta quinta na CPI da Petrobras
Agência Brasil
O tesoureiro do PT João Vaccari Neto depõe nesta quinta na CPI da Petrobras

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Delúbio foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no processo do Mensalão (Ação Penal 470). O tesoureiro foi acusado de negociar doações fora das instâncias partidárias, o que enfureceu o o partido. Ele chegou a ser expulso da sigla, para ser reabilitado recentemente. Atualmente cumpre pena em regime semi-aberto.

Delúbio enfrentou uma via crucis sendo visto pelos colegas do próprio PT como um dos mentores do escândalo que quase impediu a reeleição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2006.

Relembre os políticos citados na Operação Lava Jato:

Antes de aparecer na lista de Janot, Renan Calheiros disse que não conhecia Youssef ou envolvidos na Lava Jato. Foto: Câmara dos Deputados/Gustavo LimaO ex-presidente e senador pelo PTB de Alagoas, Fernando Collor, é acusado de ter recebido dinheiro de Yousseff. Foto: ReproduçãoPresidente da Câmara, Eduardo Cunha está entre os que serão investigados na Lava Jato. Foto: Gustavo Lima / Câmara dos DeputadosSenador pelo PMDB do Maranhão e ex-ministro das Minas e Energia de Dilma, Edison Lobão é investigado em inquérito que envolve a ex-governadora do Maranhão, Roseana Sarney (PMDB). Foto: CÉLIO AZEVEDO/AGÊNCIA SENADO - 15.5.2007Senadora pelo PT do Paraná ex-ministra da Casa Civil de Dilma, Gleisi Hoffman foi citada em delação premiada da Lava Jato. Foto: FacebookAlvo de inqúerito, Antônio Anastasia é senador pelo PSDB de Minas Gerais,  ex-governador do Estado e foi coordenador de campanha de Aécio à Presidência. Foto: daniel de cerqueira - 7.11.2014Senador pelo PP do Piauí, Ciro Nogueira teve dois inquéritos arquivados, mas é alvo de um terceiro, que envolve outras 36 pessoas. Foto: Agência BrasilLindberg Farias, senador pelo PT do RJ, é suspeito de ter pedido dinheiro a Paulo Roberto Costa. Foto: Futura PressEx-governadora do Maranhão, Roseana Sarney (PMDB) é citada também no inquérito contra o senador Edison Lobão (PMDB-MA). Foto: BETO BARATA/AGência ESTADO - 4.1.2011Deputado pelo PP da Paraíba, Aguinaldo Ribeiro fio ministro das Cidades durante o governo Dilma. Foto: DivulgaçãoVilson Covatti foi deputado federal pelo PP do Rio Grande do Sul até janeiro de 2015. Foto: Facebook/ReproduçãoDeputado federal pelo PT de São Paulo e ex-líder do governo Lula, Cândido Vaccarezza teria recebido R$ 400 mil em propina. Foto: Agência BrasilAlvo de inquérito, Humberto Costa é senador pelo PT de Pernambuco e foi ministro da Saúde durante o governo Lula. Foto: DivulgaçãoSenador pelo PMDB de Roraima, Romero Jucá foi líder dos governos FHC e Lula. Foto: Agência SenadoSenador pelo PMDB de Rondônia, Valdir Raupp foi governador de Rondônia e líder do partido. Foto: DivulgaçãoEx-ministro da Casa Civil de Dilma Rousseff, Antônio Palocci terá suas condutas investigadas pela Polícia Federal no Paraná, para onde o STF mandou o inquérito. Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil - 2.1.11Tesoureiro do PT, João Vaccari Neto é alvo do processo que envolve 37 pessoas. Foto: Agência BrasilDeputado federal pelo PP de Mato Grosso, Pedro Henry foi condenado no processo do mensalão. Foto: Agência BrasilDeputado federal pelo PMDB do Ceará, Aníbal Gomes é investigado no inquérito que envolve 37 pessoas. Foto: Divulgação/Governo Municipal de AcaraúDeputado federal pelo PP do Rio de Janeiro, Simão Sessim ocupa o cargo desde a década de 1970. Foto: Agência CâmaraEx-deputado federal pelo PP de Pernambuco, teve seu mandato cassado na esteira do escândalo do mensalão. Foto: Agência BrasilDeputado federal pelo Solidariedade da Bahia, Luiz Argôlo chegou a ter sua cassação aprovada pelo Conselho de Ética da Câmara. Foto: Agência CâmaraDeputado federal pelo PP do Paraná, Nelson Meurer é presidente do partido no Estado. Foto: Agência CâmaraDeputado pelo PP do Acre, Gladson Cameli é investigado no inquérito que envolve 37 pessoas. Foto: Agência CâmaraDeputado federal pelo PP de Goiás, Roberto Balestra é investigado no maior inquérito, que envolve 37 pessoas. Foto: DivulgaçãoDeputado federal pelo PP de Goiás, Sandes Júnior, é alvo do maior inquérito da Operação, com 37 investigados. Foto: DivulgaçãoDeputado federal pelo PT do Mato Grosso, Vander Loubet é investigado em inquérito que inclui o deputado Cândido Vaccarezaa (PT-SP). Foto: DivulgaçãoSenador pelo PP do Piauí, Ciro Nogueira teve dois inquéritos arquivados, mas é alvo de um terceiro, que envolve outras 36 pessoas. Foto: DivulgaçãoDeputada federal pelo PP de São Paulo, Aline Corrêa consta da lista de 37 investigados de um dos inquéritos da Lava Jato. Foto: Agência CâmaraSenador pelo PP de Alagoas, Benedito de Lira iniciou sua carreira política no extinto Arena, que apoiava a ditadura militar. Foto: DivulgaçãoDeputado federal pelo PT de São Paulo, José Mentor foi líder estudantil contrário à ditadura militar. Foto: DivulgaçãoDeputado federal pelo PP do Rio Grande do Sul, José Otávio Germano é alvo de dois pedidos de instauração de inquérito. Foto: DivulgaçãoDeputado federal pelo PP do Ceará, José Linhares Ponte foi padre e usa a experiência de sacerdócio nas campanhas eleitorais. Foto: ReproduçãoDeputado federal pelo PP de Pernambuco até janeiro  de 2015, Roberto Teixeira é investigado no inquérito que envolve 37 pessoas. Foto: DivulgaçãoDeputado federal pelo PP de Santa Catarina até janeiro de 2015, João Alberto Pizzolatti Junior é alvo do inquérito que envolve outras 36 pessoas. Foto: Facebook/ReproduçãoDeputado federal pelo PP da Bahia até janeiro de 2015, Mário Negromonte foi ministro das Cidades durante o governo Dilma. Foto: WikimediaDeputado pelo PP do Maranhão, Waldir Maranhão é investigado no inquérito que envolve outras 36 pessoas. Foto: Facebook/ReproduçãoVice-governador da Bahia, comandada por Rui Costa (PT), João Leão foi deputado federal pelo PP do Estado. Foto: ReproduçãoDeputado federal pelo PP de Rondônia até janeiro de 2015, Carlos Magno Ramos foi secretário da Casa Civil do ex-governador  e hoje senador Ivo Cassol (PP). Foto: DivulgaçãoDeputado federal pelo PP da Bahia, Roberto Britto é investigado no inquérito que envolve outras 37 pessoas. Foto: Facebook/ReproduçãoDeputado federal pelo PP do Rio Grande do Sul, Renato Molling é investigado no inquérito que envolve 37 pessoas. Foto: Facebook/ReproduçãoDeputado federal pelo PP do Rio Grande do Sul, Luis Carlos Heinze é investigado no inquérito que envolve 37 pessoas. Foto: Facebook/ReproduçãoDeputado federal pelo PP do Tocantins, Lázaro Botelho é investigado no inquerito que envolve 37 pessoas. Foto: Facebook/ReproduçãoDeputado federal pelo PP de São Paulo, José Olímpio se apresenta como missionário da Igreja Mundial do Poder de Deus. Foto: Facebook/ReproduçãoDeputado federal pelo PP do Rio Grande do Sul, Afonso Hamm é investigado no inquérito que envolve outras 37 pessoas. Foto: Facebook/ReproduçãoDeputado federal pelo PP, Jerônimo Goergen foi vice-líder da bancada do PP na Câmara dos Deputados. Foto: Facebook/ReproduçãoDeputado federal pelo PP do Paraná, Dilceu Sperafico é investigado no inquérito que envolve outras 37 pessoas. Foto: Twitter/ReproduçãoDeputado federal pelo PP de Alagoas, Arthur Lira é filho de Benedito de Lira, também investigado na Lava Jato. Foto: Twitter/ReproduçãoDeputado pelo PP de Minas Gerais, Luiz Fernando Faria é investigado no inquérito que envolve 37 pessoas. Foto: ReproduçãoDeputado federal pelo PP de Pernambuco, Eduardo da Fonte foi segundo vice-presidente da Câmara e líder do PP na Casa. Foto: Divulgação




Um dos argumentos utilizados por Vaccari Neto para evitar a comparação com Delúbio: ele nega ter intermediado doações à campanha de Dilma Rousseff, em 2010, longe dos olhos do partido.

O primeiro capítulo da ofensiva para evitar a fritura do atual tesoureiro do PT será o depoimento de hoje à CPI da Petrobras. "Ele responderá a todas as perguntas. Não tem nada a esconder", diz o advogado Luiz Flávio Borges D'Urso.

Segundo o inquérito em que é apontado, João Vaccari Neto teria recebido doações de empreiteiras na campanha para, em troca, garantir que essas empresas fechassem contratos polpudos com a Petrobras.

Pressão

Arredio à imprensa, o homem das finanças do PT resiste como pode. Exceto pelo econtro da Executiva Nacional do último dia 30 de março, ele tem participado de todas as reuniões do Diretório Nacional do partido.

Cobrado sobre as acusações, argumenta que todas as doações que recebeu são legais e que as contas do partido foram aprovadas na Justiça Eleitoral. A versão é ecoada também pelo presidente nacional do PT, Rui Falcão. 

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"Ele [Vaccari] está sendo investigado há um ano, já teve os sigilos fiscal, bancário e telefônico quebrados. Já depôs na Polícia Federal, não está preso. Ele é acusado. Acusado não necessariamente é culpado”, argumenta o presidente petista em defesa do atual Secretário de Finanças do partido. 

Falcão emenda ainda que o tratamento dado pela grande mídia ao caso tem por objetivo criminalizar a legenda. “Para a grande mídia, o PT recebe propina enquanto os outros recebem contribuições legais”, criticou, após reunião do partido na semana passada em São Paulo.

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Em conversas com interlocutores, o ex-presidente Lula teria recomendado o afastamento de Vaccari do cargo. No próximo dia 17 de abril, o Diretório Nacional volta a se reunir em São Paulo e o caso deve ingressar na pauta do encontro.

A corrente Mensagem ao Partido, predominante nos diretórios de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, vai apresentar uma proposta para que qualquer integrante do partido citado em desvios seja afastado preventivamente de suas funções. A Mensagem ocupa entre 16% e 20% dos assentos no diretório nacional. 

No último dia 30 de março, em reunião da Executiva Nacional petista em São Paulo, os mesmos diretórios do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina defenderam em carta o afastamento de Vaccari. Como a reunião não tinha caráter deliberativo, o tema não avançou.

"Com a verdade"

João Vaccari Neto diz estar com a verdade e garante que ela aparecerá no depoimento à CPI da Petrobras. A convocação foi aprovada num cochilo governista. Se aproveitando de uma viagem do presidente Hugo Motta (PMDB-PB), o vice-presidente da CPI, o tucano Antonio Imbassahy (BA) assumiu o primeiro posto da Comissão e conseguiu antecipar a oitiva.

Para o cientista político do Insper, Carlos Melo, é preciso compreender a dimensão do financiamento de campanhas eleitorais antes de se tirar conclusões precipitadas.

"O financiamento de uma campanha eleitoral é, no mínimo, decidido coletivamente. Dinheiro é vital para uma campanha e para qualquer organização financeira. O Vaccari não fez nada sozinho. Há sempre um núcleo formal como um Diretório ou Executiva ou até um núcleo informal. Nós não temos todas as informações para explicar porque o Vaccari permanece no cargo. É preciso cautela. Se houve alguma ilegalidade é a Justiça quem vai dizer", aponta. 

Para o cientista, Vaccari e sua relação com o PT podem estar se pautando por conta da decisão coletiva a que ele provavelmente devia se submeter ou mesmo por pactos políticos firmados anteriormente. Ele acrescenta que a experiência de 12 anos de poder do PT não pode ser desprezada.

"Tem que ver qual tipo de pacto ou acordo PT e Vaccari fizeram. Outro ponto é que nós estamos falando de um partido que está há 12 anos no poder. Não podemos dizer que o PT não sabia como a campanha era financiada".

Melo entende o esforço do tesoureiro para não ser o "Delúbio da vez". "O Delúbio apanhou como o diabo. Houve uma pressão muito grande", reconhece.

Bancoop

Não é a primeira vez que o nome de João Vaccari Neto é associado a desvios. Ele presidiu a Cooperativa Habitacional dos Bancários do Estado de São Paulo (Bancoop) e uma parte dos cooperados adquiriu imóveis via financiamento junto à entidade. Pagaram, mas não receberam os imóveis contratados: 32 prédios resultaram inacabados e 3,5 mil mutuários foram prejudicados.

Uma CPI foi criada na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp). Os trabalhos transcorreram entre março e outubro de 2010. Presidida pelo tucano Samuel Moreira, hoje deputado federal, e relatada pelo colega de bancada Bruno Covas (também eleito deputado federal em 2014), foi palco de embates entre tucanos e petistas.

Naquela época, mutuários prejudicados, peritos e ex-dirigentes da Bancoop foram ouvidos. O rombo financeiro estimado era de R$ 100 milhões. Vaccari jamais apareceu para prestar depoimento à CPI. No relatório final, encaminhado ao Ministério Público paulista, foi sugerida a intervenção do órgão na Bancoop.

Vaccari Neto é um dos cinco réus ligados à Bancoop e responde a processo na 5ª Vara Criminal do Judiciário paulista pela prática de estelionato, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica.

O promotor do caso no MP paulista, José Carlos Blat, é categórico. “O dinheiro usado na Bancoop abasteceu campanhas eleitorais petistas”, escreveu em seu relatório que baseou a denúncia acatada pelo Judiciário.

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