Dirigentes do PT lançam manifesto pedindo volta do partido aos anos 1980

Por Anderson Passos , iG São Paulo | - Atualizada às

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Assinado pelos diretórios do partido e pela executiva nacional, documento pede maior interlocução com movimentos sociais

A Executiva do PT e 27 diretórios estaduais do partido lançaram, nesta segunda-feira (30), um manifesto que defende uma espécie de volta às origens com uma atuação militante diária e não restrita a períodos eleitorais, bem como uma reaproximação com os movimentos sociais.

O presidente nacional do PT, Rui Falcão: documento foi apresentado em coletiva do político
Divulgação PT Nacional
O presidente nacional do PT, Rui Falcão: documento foi apresentado em coletiva do político

O documento foi aprovado em reunião da Executiva da legenda realizada em um hotel na zona sul da capital paulista com a presença do ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva. O ex-presidente não conversou com os jornalistas.

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Depois de apresentar um diagnóstico no qual o PT é associado a irregularidades desde o sequestro do empresário Abílio Diniz, em 1989, até as denúncias de irregularidades na gestão da Petrobras dos dias de hoje, o texto classifica os que defendem a derrubada de Dilma como maus perdedores. 

"Maus perdedores no jogo democrático tentam agora reverter, sem eleições, o resultado eleitoral. Em função dos escândalos da Petrobras, denunciados e investigados sob nosso governo -– algo que não ocorria em governos anteriores – querem fazer do PT bode expiatório da corrupção nacional e de dificuldades passageiras da economia em um contexto adverso de crise mundial prolongada."

A seguir, destaca que o quinto Congresso do partido, a ser realizado entre os dias 11 e 13 de junho, em Salvador (BA), deve ter como objetivo fazer com que o PT promova o encontro com suas origens.

"Caberá promover um reencontro com o PT dos anos 1980, quando nos constituímos num partido com vocação democrática e transformação da sociedade – e não num partido do 'melhorismo'. Quando lutávamos por formas de democracia participativa no Brasil, cuja ausência, entre nós também, é causa direta de alguns desvios que abalaram a confiança no PT."

Ainda seguindo o tom de mea culpa, o texto reconhece que o partido não pode se fazer presente apenas durante o período eleitoral, a cada dois anos e, sim, resgatar uma participação militante cotidiana na sociedade.

"Queremos um partido que pratique a política no cotidiano, presente na vida do povo, de suas agruras e vicissitudes."

Dentre as posturas a serem adotadas num futuro próximo estão na pauta a defesa do PT e de suas bandeiras, bem como a do governo Dilma Rousseff, além da articulação com movimentos sociais e partidos de esquerda que tenha como foco a ampliação dos direitos dos trabalhadores, reforma política, a democratização da mídia e a reforma tributária.

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No campo das propostas, o PT definiu como prioridades o apoio de matérias em tramitação no Congresso Nacional que defendem desde a criação de um imposto sobre grandes fortunas até um projeto de direito de resposta de autoria do peemedebista Roberto Requião (PR).

Leia a íntegra do manifesto:
Manifesto dos Diretórios Regionais,

Nunca como antes, porém, a ofensiva de agora é uma campanha de cerco e aniquilamento. Como já propuseram no passado, é preciso acabar com a nossa raça. Para isso, vale tudo. Inclusive, criminalizar o PT — quem sabe até toda a esquerda e os movimentos sociais.

Condenam-nos não por nossos erros, que certamente ocorrem numa organização que reúne milhares de filiados. Perseguemnos pelas nossas virtudes. Não suportam que o PT, em tão pouco tempo, tenha retirado da miséria extrema 36 milhões de brasileiros e brasileiras. Que nossos governos tenham possibilitado o ingresso de milhares de negros e pobres nas universidades.

Não toleram que, pela quarta vez consecutiva, nosso projeto de País tenha sido vitorioso nas urnas. Primeiro com um operário, rompendo um preconceito ideológico secular; em seguida, com uma mulher, que jogou sua vida contra a ditadura para devolver a democracia ao Brasil.

Maus perdedores no jogo democrático, tentam agora reverter, sem eleições, o resultado eleitoral. Em função dos escândalos da Petrobrás, denunciados e investigados sob nosso governo -– algo que não ocorria em governos anteriores –, querem fazer do PT bode expiatório da corrupção nacional e de dificuldades passageiras da economia, em um contexto adverso de crise mundial prolongada.

Como já reiteramos em outras ocasiões, somos a favor de investigar os fatos com o maior rigor e de punir corruptos e corruptores, nos marcos do Estado Democrático de Direito. E, caso qualquer filiado do PT seja condenado em virtude de eventuais falcatruas, será excluído de nossas fileiras.

O PT precisa identificar melhor e enfrentar a maré conservadora em marcha. Combater, com argumentos e mobilização, a direita e a extrema-direita minoritárias que buscam converter-se em maioria todas as vezes que as 2 mudanças aparecem no horizonte. Para isso, para sair da defensiva e retomar a iniciativa política, devemos assumir responsabilidades e corrigir rumos. Com transparência e coragem. Com a retomada de valores de nossas origens, entre as quais a ideia fundadora da construção de uma nova sociedade.

Ao nosso 5º Congresso, já em andamento, caberá promover um reencontro com o PT dos anos 80, quando nos constituímos num partido com vocação democrática e transformação da sociedade – e não num partido do “melhorismo”. Quando lutávamos por formas de democracia participativa no Brasil, cuja ausência, entre nós também, é causa direta de alguns desvios que abalaram a confiança no PT.

Nosso 5º Congresso, cuja primeira etapa será aberta, a fim de recolher contribuições, críticas e novas energias de fora, deverá sacudir o PT. A fim de que retome sua radicalidade política, seu caráter plural e não- dogmático. Para que desmanche a teia burocrática que imobiliza direções em todos os níveis e nos acomoda ao status quo.

O PT não pode encerrar-se em si mesmo, numa rigidez conservadora que dificulta o acolhimento de novos filiados, ou de novos apoiadores que não necessariamente aderem às atuais formas de organização partidária.

Queremos um partido que pratique a política no quotidiano, presente na vida do povo, de suas agruras e vicissitudes, e não somente que sai a campo a cada dois anos, quando se realizam as eleições.

Um PT sintonizado com nosso histórico Manifesto de Fundação, para quem a política deve ser “ atividade própria das massas, que desejam participar, legal e legitimamente, de todas as decisões da sociedade”.

Por isso, “o PT deve atuar não apenas no momento das eleições, mas, principalmente, no dia-a-dia de todos os trabalhadores, pois só assim será possível construir uma 3 nova forma de democracia, cujas raízes estejam nas organizações de base da sociedade e cujas decisões sejam tomadas pelas maiorias”.

Tal retomada partidária há de ser conduzida pela política e não pela via administrativa. Ela impõe mudanças organizativas, formativas, de atitudes e culturais, necessárias para reatar com movimentos sociais, juventude, intelectuais, organizações da sociedade – todos inicialmente representados em nossas instâncias e hoje alheios, indiferentes ou, até, hostis em virtude de alguns erros políticos cometidos nesta trajetória de quase 35 anos.

Dar mais organicidade ao PT, maior consistência política e ideológica às direções e militantes de base, afastar um pragmatismo pernicioso, reforçar os valores da ética na política, não dar trégua ao “cretinismo” parlamentar – tudo isso é condição para atingir nossos objetivos intermediários e estratégicos.

Em concordância com este manifesto, nós, presidentes de Diretórios Regionais de 27 Estados, propomos:

1. Desencadear um amplo processo de debates, agitação e mobilização em defesa do PT e de nossas bandeiras históricas;

2. Defesa do nosso legado político-administrativo e do governo Dilma;

3. Participar e ajudar a articular uma ampla frente de partidos e setores partidários progressistas, centrais sindicais, movimentos sociais da cidade e do campo, unificados em torno de uma plataforma de mudanças, que tenha no cerne a ampliação dos direitos dos trabalhadores, da reforma política, da democratização da mídia e da reforma tributária;

4. Apoiar o aprofundamento da reforma agrária e do apoio à agricultura familiar;

5. Orientar nossa Bancada a votar o imposto sobre grandes fortunas e o projeto de direito de resposta do senador Roberto Requião, ambos em tramitação na Câmara dos Deputados;

6. Apoiar iniciativas para intensificar investimentos nas grandes e médias cidades, a fim de melhorar as condições de saneamento, habitação e mobilidade urbana;

7. Buscar novas fontes de financiamento para dar continuidade e fortalecimento ao Sistema Único de Saúde;

8. Apoiar uma reforma educacional que corresponda aos objetivos de transformar o Brasil numa verdadeira Pátria Educadora;

9. Levar o combate à corrupção a todos os partidos, a todos os Estados e Municípios da Federação, bem como aos setores privados da economia;

10. Lutar pela integração política, econômica e cultural dos povos da América, por um mundo multipolar e pela paz mundial. O momento não é de pessimismo; é de reavivar as esperanças. A hora não é de recuo; é de avançar com coragem e determinação. O ódio de classe não nos impedirá de continuar amando o Brasil e de continuar mudando junto com nosso povo. Esta é a nossa tarefa, a nossa missão. É só querer e, amanhã, assim será! 

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