Empenhado em voltar aos holofotes, Feliciano prepara projetos para novo mandato

Por Mel Bleil Gallo - iG Brasília |

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Admitindo decepção na votação obtida nas urnas em 2014, pastor pretende patrocinar criação de cadastro de condenados por crimes sexuais e intensifica ação contra políticas de combate à discriminação por gênero e orientação sexual

Em baixa no partido e na Câmara dos Deputados diante do resultado das últimas eleições, o pastor da Assembleia de Deus Marco Feliciano (PSC-SP) prepara projetos polêmicos para segurar a popularidade em seu segundo mandato. Após uma temporada de férias nos Estados Unidos com a família, Feliciano diz ter se inspirado para a elaboração de novos projetos de lei - alguns bastante polêmicos.

Um deles, por exemplo, cria um mecanismo policial para alertar interessados em alugarem ou adquirirem imóveis em determinadas regiões sobre a existência moradores anteriormente condenados por crimes sexuais nas proximidades. “Assim, todo mundo poderia escolher se quer ou não morar perto de alguém que já foi condenado por estupro ou pedofilia”, diz o pastor, que defende a castração química em casos de crimes sexuais.

Outra ideia importada pelo pastor é a criação de um sistema de alertas sobre veículos procurados pela polícia. Assim, todas as pessoas com GPS ativo naquela região seriam avisadas durante buscas policiais para ajudarem a identificar carros com as características informadas, envolvidos em crimes como assaltos ou sequestros. Neste mês, Feliciano também apresentou um projeto que torna obrigatório o uso de carros blindados pela polícia.

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Durante escolha do novo presidente da Comissão dos Direitos Humanos, Feliciano reclamou que sofreu preconceito no cargo
Zeca Ribeiro/Câmara dos Deputados
Durante escolha do novo presidente da Comissão dos Direitos Humanos, Feliciano reclamou que sofreu preconceito no cargo


Além disso, Feliciano tem fortalecido a ofensiva contra políticas de combate à discriminação por gênero e orientação sexual desenvolvidas pelo governo federal. Na última semana, ele apresentou dois projetos de decreto legislativo, para sustar resoluções da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Uma delas, garante o acesso de pessoas travestis e transexuais nas instituições de ensino, estabelecendo orientações para o “reconhecimento institucional da identidade de gênero e sua operacionalização”. A outra “estabelece os parâmetros para a inclusão dos itens ‘orientação sexual’, ‘identidade de gênero’ e ‘nome social’ nos boletins de ocorrência emitidos pelas autoridades policiais no Brasil”.

Divulgados pelo próprio deputado nas redes sociais, os projetos foram criticados por internautas que o acusaram de “transfobia” e “caça aos LGBTs”. “Qual é o problema da pessoa que não se identifica com seu gênero de nascença poder usar o nome social? No que isso afeta a vida dos outros? Porque na vida dela afeta diariamente e você corta esse direito dela. Um retrocesso. Vergonha total”, questionava um dos comentários.

Neste ano, o Feliciano também promete retomar a articulação para aprovação do projeto de sua autoria que inclui a obrigatoriedade do ensino do criacionismo nas escolas. “Nós não somos tão tapados, não achamos que a Bíblia tem de ser interpretada de maneira literal. Mas as coisas são complementares. Quando você fala no Big Bang, nessa grande explosão, nós podemos interpretá-la como o ‘grito de Deus’. Podemos somar grandes ensinamentos, dá um bom debate”, explica o pastor. O PL 8099/2014 defende que as escolas ensinem que “a vida tem sua origem em Deus, como criador supremo de todo universo e de todas as coisas que o compõe”, paralelamente às teorias evolucionistas.

Toda a atuação de Feliciano é constantemente publicizada aos 2,1 milhões de seguidores do Facebook e 346 mil do Twitter. Virtualmente, a mais recente batalha do pastor tem sido contra a novela da Globo, Babilônia, que estreou neste mês com um beijo lésbico entre as atrizes veteranas Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg. “Essa novela esbofeteia a família brasileira com uma subliminar mensagem anti-cristã”, diz o pastor em seu perfil no Facebook, ao pedir que seus fieis e seguidores boicotem a marca Natura - patrocinadora oficial do programa. Feliciano aproveitou o momento para criticar a luta pela criminalização da homofobia e publicou uma foto ao lado do ex-presidenciável Levy Fidélix (PRTB), condenado pelo Tribunal de Justiça de São Paulo a pagar uma multa de R$ 1 milhão por declarações homofóbicas feitas durante as últimas eleições. “Este senhor, cidadão de bem, pai, avô, tem meu respeito e minha admiração”, disse o pastor.

Disputa interna

Na última eleição, Feliciano alcançou 398 mil votos na disputa à cadeira de deputado federal - número abaixo do alardeado por entusiastas do PSC em 2013, quando o pastor presidiu a Comissão de Direitos Humanos da Câmara e alguns dirigentes falavam em ultrapassar a marca de Tiririca (PR-SP), eleito em 2010 com 1,35 milhões de eleitores. Ele próprio não nega a decepção, mas atribui a responsabilidade ao partido.

Ainda em 2013, Feliciano chegou a sondar o PSC sobre a possibilidade de concorrer à Presidência. Na época, entretanto, prevaleceu o nome do Pastor Everaldo - vice-presidente nacional do partido. Internamente, o Feliciano acusa correligionários de boicotarem sua campanha na reta final da disputa, dividindo seu tempo de TV com outros candidatos, entre eles o presidente estadual do PSC em São Paulo, Gilberto Nascimento. O argumento de Feliciano é que a direção do partido teria tido receio de que sua votação fosse mais expressiva do que a de Everaldo, que obteve na corrida presidencial e, por isso, quis diminuir seus holofotes.

Até o momento, Feliciano tem evitado falar abertamente sobre a possibilidade de deixar o partido, mas não nega a insatisfação com os correligionários. Na Câmara, ele pretendia voltar à presidência de alguma comissão neste ano, mas teve de se contentar com a titularidade nas comissões de Direitos Humanos, Constituição e Justiça e na que discutirá o Estatuto da Família (PL 6583/2013). Para assumir o comando da Comissão de Integração Nacional, Desenvolvimento Regional e da Amazônia, o PSC acabou indicando Júlia Marinho (PA), esposa do ex-deputado federal Zequinha Marinho, do mesmo partido. Entre parte de seus colegas, entretanto, as reclamações de Feliciano são vistas como uma tentativa do pastor de se cacifar para a disputa ao Senado, em 2018.

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