Último dos ‘três porquinhos’ da campanha de 2010 a se manter entre os conselheiros da presidente, ministro da Justiça assume papel de destaque como representante do governo

Em meio à maior crise de imagem que viveu desde que assumiu o cargo, em 2010, a presidente Dilma Rousseff lançou mão do único sobrevivente no governo do grupo apelidado de “os três porquinhos”, formado pelos três coordenadores de sua primeira campanha, em 2010. Desde os protestos que ganharam as ruas no fim de semana passado, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, voltou a circular ao lado de Dilma, ganhou assento em reuniões internas e embarcou numa maratona de entrevistas, com a missão de ser a “cara” do governo diante das manifestações.

A rotina intensa de trabalho tem levado o ministro a reclamar da dieta que o fez perder quase 17 quilos. “Ainda faltam cinco”, disse o ministro. “Nestes dias estou cometendo pequenas transgressões. De vez em quando, como um chocolatinho”, disse o ministro, após detalhar o conjunto de medidas lançadas pelo governo como resposta às manifestações com o objetivo de dar mais eficiência ao combate à corrupção.

Antes da entrevista coletiva que concedeu na noite de domingo, dia dos protestos, Cardozo passou horas acertando os pontos da defesa com Dilma e com os demais ministros do Planalto. A escolha de seu nome para representar o governo neste momento deu-se muito mais pelo temperamento e pela defesa ponderada da reação que o Planalto teria de ter, do que pelas especificações da pasta que ocupa.

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Nas reuniões do chamado núcleo duro do governo, Cardozo se diferenciou ao adotar o “caminho do meio” na busca dos argumentos para construir o discurso de reação. De acordo com interlocutores, o ministro ponderou opiniões dadas pelo chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, que relativizava o impacto dos protestos,  e as considerações do ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Miguel Rossetto, que falava em golpe ao criticar os pedidos de saída da presidente.  Quem acompanhou o assunto diz que Cardozo soube dar o tamanho real dos movimentos e embarcou no discurso da “humildade” em ouvir a voz das ruas, defendido principalmente pelo vice-presidente Michel Temer.

Na primeira entrevista pós-protestos, as divergências dentro do governo ficaram expostas. Rossetto acabou escorregando ao dizer que as pessoas que estavam nas ruas não votaram em Dilma. Cardozo, por sua vez, permaneceu fiel ao combinado. Repetiu a ideia de que a presidente não governava só para os que votaram nela, apostando no discurso de respeito às manifestações. Resultado: na segunda-feira que sucedeu as manifestações, Rossetto foi substituído pelo peemedebista Eduardo Braga, ministro de Minas e Energia. A partir de então, Cardozo conduziu uma entrevista atrás da outra e chegou a falar com jornalistas até três vezes em um só dia.

Nas reuniões internas, o ministro também vem se mostrando afinado com o PMDB, justamente num momento em que a sigla aliada anda torcendo o nariz para Rossetto e Mercadante, e não aceita a articulação conduzida pelo ministro da Secretaria de Relações Institucionais (SRI), Pepe Vargas.

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Cardozo é o único “porquinho” de Dilma com cargo no governo. O grupo contava ainda com o ex-ministro da Casa Civil no primeiro mandato de Dilma, Antonio Palocci, que deixou o governo sob suspeitas de enriquecimento ilícito.  Já o ex-senador José Eduardo Dutra, que comandou a Petrobras Distribuidora no governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, não chegou a assumir cargo no governo de Dilma.

A atual rotina do ministro nada tem a ver com a caracterização de cada um dos porquinhos que ele fazia na época da campanha. Gentil, ele se dizia o porquinho mais preguiçoso, o Cícero, que construiu sua casa de palha. Palocci, em sua opinião, era o Prático, mais precavido e trabalhador, que construiu sua casa de tijolos. Já Dutra, tinha a posição intermediária do porquinho Heitor, que construiu sua casa de madeira.

Antes das manifestações, o ministro da Justiça amargou situações difíceis no governo. Ele chegou a cultivar a esperança de ser indicado por Dilma para a vaga de ministro do Supremo Tribunal Federal, deixada pelo ex-presidente da Corte Joaquim Barbosa. No entanto, a indicação ainda não ocorreu e coube a ele permanecer na pasta no segundo mandato.

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Além disso, suas entrevistas e sua casa, em São Paulo, passaram a ser alvo dos panelaços. No mês passado, após ser apontado por Joaquim Barbosa de tentar controlar as investigações da Operação Lava Jato, por ter recebido advogados de defesa dos acusados em seu gabinete, um panelaço foi marcado para a porta do seu prédio, no bairro Bela Vista, em São Paulo. O panelaço ocorreu, no entanto, o ministro não ouviu. Estava em Brasília, às voltas com as  explicações sobre a autonomia da Polícia Federal.

Agora, Cardozo tem sido visto por muitos aliados como ministro em ascensão, capaz de ser uma das figuras centrais da problemática articulação política do governo.

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