Com caixa apertado, Planalto tenta vencer crise no discurso

Por Luciana Lima , iG Brasília | - Atualizada às

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Desgastado por protestos, o governo empacota ideias antigas que não envolvem gastos públicos, investe no esclarecimento de medidas impopulares e tenta azeitar a articulação

A presidente Dilma Rousseff inicia nova fase na comunicação com foco na melhoria da articulação política. Ela participou hoje do anúncio de Medidas de Modernização do Futebol, em Brasília
Roberto Stuckert Filho/ PR
A presidente Dilma Rousseff inicia nova fase na comunicação com foco na melhoria da articulação política. Ela participou hoje do anúncio de Medidas de Modernização do Futebol, em Brasília

Com a necessidade de cortes profundos nos gastos do Estado, o governo está de mãos atadas para dar uma resposta eficaz à crise de imagem que atinge principalmente à presidente Dilma Rousseff. Em crises anteriores, o governo petista apoiou-se no lançamento programas sociais e de infraestrutura, desonerou ou até mesmo zerou impostos. Agora, sem recursos disponíveis para medidas como estas, Dilma busca outra receita para arrefecer os ânimos principalmente da classe média.

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A presidente lançou mão de dois pontos que sempre foram considerados problemáticos em seu governo: o discurso e a articulação política. As manifestações mostraram que a crise de imagem da presidente é ainda maior que em momentos anteriores e com um poder de contaminação forte. Outros protestos já estão sendo organizados para o próximo mês. No último domingo, após as manifestações que tomaram várias capitais do País, o governo precisou limitar as respostas ao conjunto de ideias já lançadas e não executadas, todas sem envolvimento de aumento dos gastos.

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A estratégia de usar o “verbo” em substituição à “verba” foi um conselho do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, afirmam interlocutores. Lula, que sempre foi considerado mestre no discurso, contou com um orçamento capaz de rebater o desgaste em tempos de crise.

Diante da “marolinha”, apelido dado por ele aos efeitos da crise financeira no Brasil em 2008, Lula reduziu IPI de carros e eletrodomésticos da linha branca, incentivando o consumo e garantindo a preservação de empregos na indústria. Em meio às turbulências causadas pela denuncia do mensalão, Lula pode lançar o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Os discursos sobre esses programas e ainda sobre o Minha Casa, Minha Vida serviram para alimentar as duas campanhas de Dilma.

Agora, o governo aposta em explicar os motivos da paralisação dos gastos e enaltecer a responsabilidade em se tomar as medidas de austeridade na economia, postura diferente da adotada por Dilma antes das eleições, quando adotou como lema: “para o País seguir mudando”. Após os protestos, a presidente chegou a reconhecer que podem ter ocorridos erros na dosagem de otimismo em relação ao desempenho da economia e tentou explicar sua escolha, feita no ano passado, de preservar os empregos, persistindo nas políticas anticíclicas.

“É possível discutir se podia ser um pouco mais ou um pouco menos, é possível discutir. Agora, isto não explica porque que nós estamos nessa situação. O que explica o porquê que nós estamos nessa situação é um fato constatável, a economia não reagiu. Ninguém pode negar que nós fizemos de tudo para a economia reagir, ninguém pode negar esse fato. Podem falar o seguinte: então era melhor deixar quebrar, deixar quebrar? Eu não acredito nisso”, justificou Dilma em sua primeira entrevista após os protestos.

Pacotes

Dilma mandou seus ministros darem um ar de “novidade” a um pacote de ideias anunciado na campanha, quando precisou responder sobre o envolvimento de aliados e petistas nas investigações sobre o suposto esquema de propina instalado na Petrobras. Foi o caso do pacote anticorrupção anunciado oficialmente ontem, em cerimônia no Palácio do Planalto. Outro pacote que deve ganhar espaço na estratégia é o da reforma política. Nesse caso, o governo aponta o “sistema político” e não os políticos, como causa de grande parte da corrupção.

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Em meio à falta de recursos, os ministros de Dilma têm se esmerado em viagens, sem, no entanto, anunciar um tostão sequer para programas do governo. A ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Tereza Campello, que coordena o maior programa social do governo, o Bolsa Família, tem se esmerado no discurso de melhoria da qualidade do gasto público.

O programa que beneficia atualmente cerca de 14 milhões de pessoas tende à estabilidade no que se refere ao seu custo. Isso porque, ao longo de sua vigência cerca de 3,5 milhões de famílias deixaram de receber o benefício por terem melhorado seus níveis de renda, dando lugar para outras famílias identificadas pela chamada busca ativa. O governo calcula que, em abril próximo, quando haverá a atualização cadastral, passem a ser beneficiadas mais 400 mil famílias.

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