Manifestação marcada para esta quarta-feira (18) pede o início da terceira fase do Minha Casa Minha Vida e tenta enfraquecer pauta direitista incorporada após êxito de atos do dia 15

Três dias após a realização dos atos que reuniram centenas de milhares de pessoas contra o mandato de Dilma Rousseff no Brasil, o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto prepara para esta quarta-feira (18) sua resposta contra os movimentos de direita em território nacional.

Marcha pela água realizada pelo MTST em 26 de fevereiro: grupo volta às ruas 20 dias depois
Facebook/Reprodução
Marcha pela água realizada pelo MTST em 26 de fevereiro: grupo volta às ruas 20 dias depois

Protagonista dos maiores protestos de rua do Estado de São Paulo em 2014, o grupo pretende atrair entre 15 mil e 20 mil militantes, espalhados por diversos pontos da capital paulista, para discursar contra a direita, além de exigir atenção do governo em relação às pautas que abraça desde sempre – de direitos sociais aos trabalhadores, como habitação, saúde e educação.

"De algum modo, o ato desta quarta-feira se tornou uma resposta aos protestos de domingo porque, embora existam vários motivos para a população estar indignada com o governo, nenhuma reivindicação social de fato foi feita naquele dia", diz ao iG Guilherme Boulos, um dos coordenadores nacionais do movimento. "O que vimos na Avenida Paulista no fim de semana foi um espetáculo de preconceito, fascismo, de discursos de ódio. Então precisamos dar uma resposta para frear o avanço da direita em todo o País."

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Diferente de outros grandes atos do MTST realizados no ano passado, especialmente no período pré-Copa do Mundo, a manifestação desta quarta-feira será descentralizada. Somente em São Paulo haverá 11 pontos de concentração diferentes pela manhã, entre 6h e 8h, em sua maioria em terminais de ônibus e metrô dos quais os grupos sairão com o objetivo de bloquear um total de dez vias na capital paulista e na Região Metropolitana da cidade, como Guarulhos e Taboão da Serra.

"A ideia de nos espalharmos é justamente para chamar mais atenção da população e das autoridades. É para demonstrar que, se em algum período conseguiram parar São Paulo com a indicação de um golpe [referência ao protesto de domingo], conseguiremos parar a cidade com reivindicações sociais justas, não gritando em prol dos militares ou por uma tentativa de impeachment."

Às 6h, o primeiro grupo parte do Terminal Guarapiranga, na zona sul, em direção à Marginal Pinheiros, onde ocorrerá um bloqueio. A partir das 8h, outras concentrações ocorrem para chegar às Avenidas Giovanni Gronchi, Radial Leste, Aricanduva e Sumaré; e às rodovias Raposo Tavares, Régis Bittencourt, Anchieta e Dutra.

Veja fotos dos protestos contra Dilma realizados no último domingo:

Também estão confirmados protestos em outras 12 capitais brasileiras: Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba, Salvador, João Pessoa, Belém, Palmas, Boa Vista, Vitória, Teresina, Florianópolis e Fortaleza. Todos são organizados por movimentos parceiros da Frente de Resistência Urbana, que inclui, além de versões estaduais do MTST, grupos como Terra Livre (Paraíba), MSTB (Bahia), Resistência Camponesa e Urbana (Piauí), Brigadas Populares (Santa Catarina), Fórum das Ocupações (Minas Gerais) e MPM (Paraná).

As cidades de Uberlândia (MG), São José dos Campos (SP) e Campinas (SP) também terão manifestações. Em todas a previsão é bloquear trechos de vias e rodovias por no mínimo meia hora.

Independente
Parceiro histórico do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), o MTST não critica apenas os atos de domingo, mas também os protestos puxados pelo grupo liderado por João Pedro Stédile e pela Central Única dos Trabalhadores (CUT) que foram realizados na sexta-feira (13) em defesa do governo Dilma Rousseff e da Petrobras. Isso apesar de os Sem-Teto terem apoiado publicamente a reeleição da petista ao longo do processo eleitoral no ano passado.

"Ser contra a intervenção militar não é apoiar a Dilma. E em hipótese nenhuma nos arrependemos de apoiá-la em 2014, pois o Aécio Neves [candidato tucano na eleição presidencial] estaria fazendo ainda pior do que ela", avalia Guilherme Boulos.

Guilherme Boulos (à direita) e Luciana Genro (PSOL) em no ato do MTST realizado em fevereiro
Fernando Zamora/Futura Press
Guilherme Boulos (à direita) e Luciana Genro (PSOL) em no ato do MTST realizado em fevereiro

"O apoio do MTST foi mais anti-Aécio do que qualquer outra coisa, pois no primeiro turno apoiamos os candidatos que sempre estiveram presentes nas lutas do movimento, como a Luciana Genro (PSOL) e os petistas Adriano Diogo [ex-deputado estadual pelo PT] e Eduardo Suplicy [candidato petista ao Senado Federal derrotado pelo tucano José Serra]", continua José Afonso, secretário nacional do movimento.

"No segundo turno as coisas mudaram um pouco, porque houve uma campanha de um setor (PSDB) que se expressava com preconceitos, atacando benefícios sociais, fortalecendo a população reacionária. Não havia ilusões com a Dilma, mas acabamos fazendo um voto crítico em defesa do 'menos pior' dos candidatos."

Além de exigir o início da terceira fase do Minha Casa Minha Vida e do recuo do ajuste fiscal recentemente anunciado por Dilma, o ato desta quarta-feira também pretende criticar a Polícia Militar, em mais uma clara divergência em relação aos ideais daqueles que demonstraram apoio à corporação durante a manifestação de domingo. Na ocasião, PMs acabaram se tornando alvos de fotos, aplausos e elogios de muitos dos presentes, que cumprimentaram agentes militares ao longo do evento.

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"A sociedade está claramente dividida. Imagina se em algum ato com pessoas da periferia a PM seria aplaudida. Isso não existe. Em áreas pobres a PM é uma corporação que só gera insegurança, que tem um papel nefasto em áreas onde os mais carentes vivem", analisa José Afonso.

"É uma realidade que desconhecemos na periferia. Policiais não tiram fotos com a população e esta não tem como aplaudi-los. É uma lógica elitista, um claro abismo entre as classes sociais. Uma lógica de segregação racial e social. É isso o que estamos vendo acontecer. E é também contra isso que iremos lutar", concorda Basso.

O protesto desta quarta-feira é o terceiro grande ato do MTST em 2015. O grupo promete intensificar os protestos de rua em 2015, a exemplo do que já foi feito no ano passado, enquanto suas reivindicações não forem atendidas.

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