'Exército de Stédile', MST vira alvo de críticas de manifestantes anti-PT

Por Bárbara Libório - iG São Paulo | - Atualizada às

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Depois de MST liderar ato em defesa da democracia no dia 13 junto a centrais sindicais, cresce antipatia ao movimento

As pessoas que foram às ruas na manifestação do último domingo (15), na Avenida Paulista, em São Paulo, não se limitaram a pedir a saída da presidente Dilma Rousseff e de seu partido, o Partido dos Trabalhadores, do governo. Muitos manifestantes carregavam cartazes com duras críticas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) que, no dia 13, liderou um ato a favor da democracia e da reforma política e contra os pedidos de impeachment da população. 

Aos gritos de "eu vim de graça!", os manifestantes lembravam as acusações da imprensa de que os integrantes do MST foram pagos para comparecer ao ato da última sexta-feira.

"Está muito na cara que eles todos são comprados. Eles são o exército do Lula e o Stédile [coordenador nacional do MST] é o general. Vive na Venezuela. Eu não estou aqui por dinheiro", afirmou a vendedora Claudia Ferreira, de 44 anos, que levou um dos cartazes que critivam o movimento sem-terra.

Cartaz contra o MST e Stedile
Barbara Liborio/iG
Cartaz contra o MST e Stedile

A alusão a palavra "exército" também não foi gratuita. Nas últimas semanas, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que queria "paz e democracia", mas que também "sabia brigar", ainda mais quando o João Pedro Stédile "colocasse o exército dele nas ruas".

Stedile respondeu e pediu: “Engraxem as botas e as chuteiras, que o jogo só está começando. Quem não tiver barraca compre uma. Compre um tênis. Estamos aqui no vestiário, só nos preparando”, apontou.

"Isso fez com que essa proximidade tenha se estreitado mais na mente dos que veem algo o PT e o MST como algo coeso. Esse discurso crítico pode ter sido incendiado por essa declaração. Algo como 'precisamos defender o Brasil do exército do Stedile'", diz Leandro Consentino, professor de sociologia e política no Insper-SP.

"O que vivemos hoje não é uma democracia. Quero uma democracia de verdade, não a do Lula, que toda vez que recebe críticas convoca o exército vermelho dele, o MST", disse, no domingo, outra manifestante que não quis se identificar.

Gilmar Mauro, outro coordenador nacional do MST, afirma que o ex-presidente usou uma "força de linguagem". "Não existe isso. O MST trabalha com a ideia do convencimento. Combatemos a militarização da polícia e somos contra a venda de armas. O MST sempre defendeu uma postura de rua, a luta de massas. O termo do exército não cabe nisso", explica.

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Para o dirigente, a antipatia de certos setores da sociedade ao MST não é novidade, assim como a frequente associação do movimento ao Partido dos Trabalhadores. "O MST tem uma autonomia, mas parece que a sociedade tem essa ideia que bandeira vermelha é tudo igual", diz Mauro.

Ele explica que o MST é um movimento social que tem aliados em diversos partidos. "O MST é um movimento social que luta pela questão da reforma agrária. Temos aliados em amplo espectro de partidos, não só o PT ou o PMDB. Eu diria que tem gente até no PSDB que defende a reforma e que são aliados. O que acontece é que, historicamente, os partidos que mais estiveram perto foram o PT e outros menores de esquerda."

Erro de estratégia

"O Palácio do Planalto estava desaconselhando que existisse essa manifestação no dia 13 porque imaginava que ela fosse dar combustível ao ato domingo. Foi o que aconteceu. Pelo MST ser uma das entidades que se identificam com o PT, talvez, de alguma forma, isso tenha feito com que eles tenham entrado nesse grupo de insatisfação geral", explica Consentino.

No entanto, ainda que haja, historicamente, uma aproximação entre o partido e o movimento sem-terra, Mauro afirma que o MST tem uma série de críticas ao governo da presidente Dilma Rousseff e que o grupo não foi às ruas a favor dela. "Faço questão de diferenciar que fomos defender democracia. Não se trata de PT ou Dilma. Temos muitas críticas no quesito reforma agrária: a Dilma tem uma dívida imensa se compararmos com outros governos, até do PSDB." O dirigente afirma que, para combater a corrupção no País, a única solução é a reforma política. 

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"MST questiona com um dos principais alicerces do capitalismo"

Para a socióloga Luci Praun, professora da Universidade Metodista de São Paulo, o repúdio ao MST também pode vir do fato de o grupo questionar um dos principais alicerces do capitalismo: a propriedade privada.

Cartaz nas redes sociais pede João Pedro Stedile, do MST,
Reprodução
Cartaz nas redes sociais pede João Pedro Stedile, do MST, "vivo ou morto"

"Tem a ver com uma questão de fundo, que é o direito a propriedade. Esses movimentos sem-terra colocam em discussão o direito à propriedade e sua função social, que é uma máxima do capitalismo. Ela é questionada na prática quando eles ocupam prédios e ocupam terras para reforma agrária", explica.

Luci também afirma que a tentativa de associar o PT ao marxismo ou ao comunismo é falha. "É uma associaçãoo absurda. Exceto por agum posicionamento individual, a linha oficial do partido não tem nada a ver com marxismo. Mas o MST questiona um ponto crucial do liberalismo. Parece que como as pessoas não podem atribuir isso ao PT, atribuem a um grupo que é ligado a ele de certa forma, já que uma parcela significativa do movimento é militante do partido."

Já para Consentino, o problema não são os objetivos do movimento, mas os meios empregados para conquistá-los. "Tem a ver com os métodos, não com o objetivo. Muita gente se solidariza com a quesão da não reforma agrária, mas isso não traduz o apoio automático ao movimento pelos meios empregados, as invações de propriedades privadas", diz.

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"Stédile circula bem e sabe barganhar com o governo"

Sobre Stédile, que chegou a ser ameaçado de morte nas redes sociais na última semana, quando foi disseminado pela rede um cartaz que o procurava "vivo ou morto", Consentino afirma que ele é um líder que sabe transitar bem pelas pautas.

"Ele lê a conjuntura bem e sabe barganhar com o governo. Ele foi extremo crítico com o governo quando declarou que Fernando Henrique Cardoso tinha feito mais reforma agrária que o PT, mas agora se aproxima de Lula deixando que ele fale dele", diz.

O professor explica que a aproximação do partido e do movimento ficou estremecida com a chegada do PT ao poder. "A ligação sempre existiu, com algumas lideranças que compartilham os dois lados, mas essa identidade se perdeu um pouco porque o PT chegou ao governo e, em um sistema de coalizão como o nosso, começa a ser mais difícil para o PT se compatibilizar com movimentos sociais. Talvez a gente nunca tenha tido no governo uma figura tão identificada com o agronegócio como Kátia Abreu, o que causa um ruído."

Da parte do MST, Mauro afirma que o movimento deve continuar se articulando com outros movimentos sociais em defesa da democracia, sem deixar de tecer críticas ao governo, como aquelas sobre as medidas provisórias que tiram direitos dos trabalhadores. "Nós vamos fazer novos atos e continuar as mobilizações. Estamos conversando com outras entidades para discutir melhor um balanço de tudo e gerar uma agenda comum. Vão ser votadas as MPs que afetam os direitos dos trabalhadores e, em detrimento dessa agenda do governo, pode haver mobilização em Brasília."

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Manifestante exibe cartaz, durante ato contra governo Dilma. Foto: Orlando kissner/ Fotos PúblicasAlgumas mulheres se destacaram na manifestação em São Paulo pelo visual. Foto: Paulo Lopes/Futura PressNa onda do panelaço do domingo (8), manifestante foi para a Avenida Paulista neste dia 15 com panela de pressão. Foto: Uriel Punk/Futura PressA revista "Veja" também serviu de inspiração para um dos cartazes da manifestação deste domingo, dia 15. Foto: Vilmar Bannach/Futura PressA tampa da caixa de pizza (uma alusão a impunidades?) virou cartaz para um dos manifestantes de São Paulo. Foto: Vilmar Bannach/Futura PressMuitos manifestantes carregaram cartazes para a manifestação paulistana. Foto: Vilmar Bannach/Futura PressMulher posa para foto durante manifestação neste domingo (15). Foto: Barbara Liborio/iGPelo menos 15 integrantes do grupo Carecas do Subúrbio foram presos na manifestação de São Paulo porque carregavam fogos e soco inglês (15/03/2015). Foto: Paulo Lopes/Futura PressVuvuzelas foram distribuídas pelos organizadores da manifestação em São Paulo. Foto: Alberto Wu/Futura PressManifestantes seguram cartaz durante ato neste domingo (15). Foto: Barbara Liborio/iGManifestantes ocupam prédio do Masp, na Avenida Paulista, em São Paulo. Foto: Robson Fernandjes/ Fotos PúblicasEm Brasília, manifestantes penduram bonecos representando a presidente Dilma e o ex-presidente Lula. Na placa no pescoço de um dos bonecos lê-se "Eu não sei de nada". Foto: AP Photo/Eraldo PeresEm Brasília, uma mulher pedala sua bicicleta de camiseta do Brasil e um cartaz com os dizeres "Fora Dilma, Impeachment já". Foto: AP Photo/Eraldo PeresMãe e filho participam de protesto vestido verde e amarelo em Brasília neste domingo dia 15 de março. Foto: AP Photo/Eraldo PeresEm Brasília, uma homem segura um cartaz em inglês durante o protesto. "Sem mais corrupção no Brasil", diz o cartaz, que sublinha as letras do PT, partido da presidente. Foto: AP Photo/Eraldo PeresNo Rio de Janeiro, manifestantes tomaram a praia de Copacabana para reclamar do governo federal. Foto: AP Photo/Felipe DanaCrianças pintam cartaz em manifestação em São Paulo, no domingo (15). Foto: Barbara Liborio/iGManifestantes levam cruz com nome de Dilma no protesto deste domingo (15), em São Paulo. Foto: Bárbara Libório/iG São PauloAmbulantes aproveitam movimento para vender artigos verde amarelos. Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São PauloAmbulantes vendem artigos na avenida Paulista. Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São PauloManifestantes saindo do metrô. Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São PauloProtestantes vestidos com as cores da bandeira. Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São PauloProtestantes escolheu o metrô como meio de locomoção. Foto: Bárbara Libório/iG São PauloProtestantes pedem a saída da presidente Dilma Rousseff. Foto: David Shalom/iG São PauloManifestação em São Paulo neste domingo (15). Foto: David Shalom/iG São Paulomanifestação. Foto: David Shalom/iG São PauloManifestantes contra o governo Dilma se reúnem em frente ao Masp, em São Paulo. Foto: Ricardo ChisteManifestantes contra o governo Dilma se reúnem em frente ao Masp, em São Paulo. Foto: Ricardo ChistePolícia faz cordão de isolamento durante protestos na Avenida Paulista, em São Paulo. Foto: Ricardo ChisteManifestante ergue cartaz, durante protestos contra o governo Dilma, na Avenida Paulista, em São Paulo. Foto: Robson Fernandjes/ Fotos PúblicasManifestantes contra o governo Dilma se reúnem em frente ao Masp, em São Paulo. Foto: Ricardo ChisteManifestação contra o governo Dilma enche a Avenida Paulista, em São Paulo. Foto: Robson Fernandjes/ Fotos PúblicasManifestação contra o governo Dilma enche a Avenida Paulista, em São Paulo. Foto: Robson Fernandjes/ Fotos PúblicasMarcelo Madureira, ex-Casseta & Planeta, participa do protesto anti-Dilma, em Copacabana, Rio de Janeiro. Foto: Marcello Sá Barretto / AgNewsManifestantes pedem o impeachment da presidente Dilma Rousseff, em Copacabana, Rio de Janeiro
. Foto: Tasso Marcelo/ Fotos PúblicasMarcelo Madureira, ex-Casseta & Planeta, participa do protesto anti-Dilma, em Copacabana, Rio de Janeiro. Foto: Marcello Sá Barretto / AgNewsManifestantes pedem o impeachment da presidente Dilma Rousseff, em Copacabana, Rio de Janeiro
. Foto: Tasso Marcelo/ Fotos PúblicasManifestante ergue cartaz, durante protesto contra o governo Dilma, em Copacabana, Rio de Janeiro. Foto: Marcello Sá Barretto / AgNewsManifestante levou faixa com suástica desenhada em protesto no Rio de Janeiro. Foto: Reprodução/Globo NewsAtivista José Júnior postou imagem da orla da Maceió (AL). Foto: Reprodução/Facebook José JúniorFamosos vão para as ruas em manifestações pelo Brasil. Foto: Reprodução/InstagramFamosos vão para as ruas em manifestações pelo Brasil. Foto: Reprodução/InstagramFamosos vão para as ruas em manifestações pelo Brasil. Foto: Reprodução/InstagramFamosos vão para as ruas em manifestações pelo Brasil. Foto: Reprodução/InstagramFamosos vão para as ruas em manifestações pelo Brasil. Foto: Reprodução/InstagramFamosos vão para as ruas em manifestações pelo Brasil. Foto: Reprodução/InstagramFamosos vão para as ruas em manifestações pelo Brasil. Foto: Reprodução/InstagramFamosos vão para as ruas em manifestações pelo Brasil. Foto: Reprodução/InstagramManifestação contra o governo Dilma e corrupção na Petrobras, enche a praça da liberdade, em Belo Horizonte. Foto: Marcelo Sant Anna/Fotos PúblicasManifestação contra o governo Dilma e corrupção na Petrobras, enche a praça da liberdade, em Belo Horizonte. Foto: Marcelo Sant Anna/Fotos PúblicasManifestação contra o governo Dilma e corrupção na Petrobras, enche a praça da liberdade, em Belo Horizonte. Foto: Marcelo Sant Anna/Fotos PúblicasManifestação contra o governo Dilma e corrupção na Petrobras, enche a praça da liberdade, em Belo Horizonte. Foto: Marcelo Sant Anna/Fotos PúblicasManifestação contra o governo Dilma e corrupção na Petrobras, enche a praça da liberdade, em Belo Horizonte. Foto: Marcelo Sant Anna/Fotos PúblicasManifestação contra o governo Dilma e corrupção na Petrobras, enche a praça da liberdade, em Belo Horizonte. Foto: Marcelo Sant Anna/Fotos PúblicasManifestação contra o governo Dilma e corrupção na Petrobras, enche a praça da liberdade, em Belo Horizonte. Foto: Marcelo Sant Anna/Fotos PúblicasManifestação contra o governo Dilma e corrupção na Petrobras, enche a praça da liberdade, em Belo Horizonte. Foto: Marcelo Sant Anna/Fotos PúblicasManifestação contra o governo Dilma e corrupção na Petrobras, enche a praça da liberdade, em Belo Horizonte. Foto: Marcelo Sant Anna/Fotos PúblicasManifestações nas ruas do Recife pedem impeachment da presidente Dilma Rousseff. Foto: Rodrigo Lôbo / Fotos PúblicasManifestações nas ruas do Recife pedem impeachment da presidente Dilma Rousseff. Foto: Rodrigo Lôbo / Fotos PúblicasManifestações nas ruas do Recife pedem impeachment da presidente Dilma Rousseff. Foto: Rodrigo Lôbo / Fotos PúblicasManifestações nas ruas do Recife pedem impeachment da presidente Dilma Rousseff. Foto: Rodrigo Lôbo / Fotos PúblicasNo Recife, a manifestação do dia 15 não registrou incidentes. Foto:  Rodrigo Lôbo/ Fotos PúblicasManifestante engrossa pauta da manifestação no Rio de Janeiro. Foto: Reprodução FacebookEm Salvador, manifestantes pediram o impeachment da presidente Dilma. Foto: João Alvarez/ Fotos PúblicasManifestantes pedem a saída da presidente Dilma no posto 5, em Copacabana, no Rio de Janeiro. Foto: Nina Ramos/iG Rio de JaneiroManifestantes pedem a saída da presidente Dilma no posto 5, em Copacabana, no Rio de Janeiro. Foto: Nina Ramos/iG Rio de JaneiroBelém (PA) também registrou manifestações em protesto contra a presidente Dilma. Foto: Igor Mota/Futura PressRio de Janeiro também se mobilizou nesta manhã de domingo (15) para protestar contra o governo e cobrar o impeachment de Dilma Rousseff. Foto: Nina Ramos/iG RioEm Salvador, a concentração do protesto aconteceu no Farol da Barra. Foto: iG BahiaRio de Janeiro também se mobilizou nesta manhã de domingo (15) para protestar contra o governo e cobrar o impeachment de Dilma Rousseff. Foto: Nina Ramos/iG RioRio de Janeiro também se mobilizou nesta manhã de domingo (15) para protestar contra o governo e cobrar o impeachment de Dilma Rousseff. Foto: Nina Ramos/iG RioNo Rio, assim como em outras cidades onde ocorreu o protesto deste domingo (15), o amarelo predominou nas roupas dos manifestantes. Foto: Nina Ramos/iG RioManifestantes começam a se concentrar em Brasília neste domingo (15) para pedir afastamento da presidente Dilma. Foto: CHARLES SHOLL/FUTURA PRESSManifestantes se concentram em Brasília a espera do protesto em defesa do afastamento da presidente Dilma Rousseff do cargo. Foto: CHARLES SHOLL/FUTURA PRESS


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