Coordenadora dos Sem-Teto afirma que grupo é contra ações do governo, mas diz ver passeata de domingo como "golpista"

Previsto para ser o maior protesto de rua do País desde os grandes atos realizados em 2013, a manifestação contra o governo Dilma Rousseff terá uma característica bem diferente daquela que costuma pautar passeatas semelhantes no País. Normalmente promovidos por pessoas acostumadas a organizar protestos para fazer reivindicações, o movimento contra Dilma deve contar mais com a presença de novatos nesse tipo de ação do que com aqueles acostumados à mobilização social. Ilustrativo disso é o fato de não haver previsão da presença de integrantes de nenhum dos movimentos protagonistas das manifestações em grandes centros urbanos brasileiros.

Ato mais recente do MTST em SP: coordenadora diz que domingo será dia como outro qualquer
Facebook/Reprodução
Ato mais recente do MTST em SP: coordenadora diz que domingo será dia como outro qualquer


Às vésperas dos atos que prometem reunir dezenas de milhares de pessoas pedindo pela saída de Dilma da presidência e, no limite, até a intervenção de militares no poder, o iG procurou lideranças do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), do Movimento Passe Livre e de outras organizações para conhecer seus posicionamentos em relação à passeata. E constatou, entre declarações e posts em redes sociais, que, ao menos oficialmente, nenhum dos tradicionais movimentos estará presente no ato deste domingo, já apelidado por alguns de Dia Nacional dos "Coxinhas", em referência ao conservadorismo ideológico de boa parte dos participantes das manifestações.

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"Vamos nos mobilizar em relação aos cortes na política social do governo, como no Minha Casa Minha Vida, que atinge diretamente a nossa luta. Mas não vamos nos unir a esses grupos que pedem o impeachment, pois entendemos que isso é uma tentativa de golpe disfarçado", afirma Jussara Basso, coordenadora nacional do MTST. "Deixamos claro que não estamos satisfeitos com o governo de Dilma, mas não acreditamos que a queda dela vá gerar mudanças no Brasil. Não conseguimos ver motivo para ir a este protesto, não apoiamos, e nosso posicionamento é este."

Veja imagens do mais recente protesto pelo impeachment, em 31 de janeiro:

A postura adotada é semelhante à do Movimento Passe Livre, grupo composto por estudantes universitários que ficou famoso nacionalmente por sua luta pela tarifa zero no transporte público, responsável por atrair milhares de simpatizantes às ruas em junho de 2013. O grupo, no entanto, prefere não opinar sobre seu posicionamento político. "Esta manifestação não tem nada a ver com o movimento. Não temos por que nos juntar a ela", afirma uma das lideranças do MPL, que pediu para não ter seu nome divulgado pela reportagem. "Nossa próxima atividade é no dia 19 de março, uma aula pública sobre a licitação de ônibus em São Paulo. É a única informação que temos para passar."

O iG tentou conversar com lideranças do Território Livre, movimento que também engrossou as "Jornadas de Junho", em 2013, e os atos contra a Copa do Mundo, no ano passado, mas não obteve contato até o fechamento desta reportagem. No entanto, em sua página no Facebook, o grupo parece deixar claro que não estará presente nos protestos de domingo por divergir da opinião de seus organizadores.

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"Não defendemos a Dilma nem o PT. Melhor que saiam mesmo e levem consigo PMDB, PSDB e todo esse lixo. Somos contra eles não só pela corrupção, mas também pela crise, desemprego, inflação e miséria crescente do povo", escreveu o grupo.

"Mas há quem defenda tirar a Dilma para colocar no lugar os militares, porque eles seriam, supostamente, 'não-corruptos'. Esse argumento é totalmente falso: os militares, na última ditadura brasileira, foram tão corruptos quanto estas porcarias de hoje [...] Se é pra derrubar a Dilma, que seja em nome do povo trabalhador, auto-organizado nos seus locais de trabalho, estudo e moradia. Não podemos deixar essa pauta da corrupção ser monopolizada pela direita!"

Porta-voz do Advogados Ativistas, movimento que mobiliza profissionais do Direito para garantir a realização de manifestações em capitais brasileiras, Daniel Biral também rechaça a possibilidade de integrantes do grupo estarem presentes no domingo. "Mas é porque os atos desta semana foram convocados por organizações que pediram autorização até da Polícia Militar para ir para a rua. Quando atuamos, é com grupos que evitam isso, e acabamos comparecendo para dialogar com as autoridades e garantir o direito de protesto, o que não me parece necessário desta vez", afirma o advogado. "Talvez acompanhemos à distância."

Viatura é incendiada por adeptos da tática black bloc em protesto no interior paulista, em 2013
Alex Falcão/Futura Press
Viatura é incendiada por adeptos da tática black bloc em protesto no interior paulista, em 2013

Black blocs
Ativistas mascarados com paus e pedras nas mãos podem até dar as caras no protesto, mas dificilmente isso vai ocorrer da forma que habitualmente é vista em manifestações como as do MPL em São Paulo e no Rio de Janeiro. Apoiadoras do uso da tática black bloc na capital fluminense e Salvador (BA), duas páginas no Facebook com um total de mais de 102 mil curtidas afirmam que adeptos da prática não comparecerão aos atos de domingo contra Dilma. E não cita apenas ela. 

Dois dias antes dos protestos anti-governo, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) realiza ao lado do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), ambas organizações historicamente ligadas ao PT, na sexta-feira (13), manifestação em defesa da Petrobras e da reforma política, fazendo frente aos atos de domingo. Protesto que adeptos da tática, ao menos por meio das redes sociais, pretendem estar longe. 

"Nem dia 13 com os governistas, nem dia 15 com a classe média coxinha. Todos os dias contra o Estado, o Capitalismo e todas as formas de opressão", postaram na quinta-feira (12) as páginas defensoras da tática, normalmente praticadas por adeptos do anarquismo. "Nós, apartidários, que não votamos e nem acreditamos nessa política partidária, sistema socioeconômico, estamos comendo pipoca, dando gargalhada e assistindo de camarote a uma direita bipolar, esquizofrênica, revoltada (online), com apoio da mídia e dos EUA, tentando aplicar um golpe do tipo 'criança que não aceita perder o jogo e leva a bola pra casa.'"

Apesar de um pouco menos enfático, o posicionamento em relação ao ato desta sexta-feira é o mesmo entre todos os grupos que atraíram às ruas do País, especialmente das grandes metrópoles, protestos de rua abarrotados nos dois últimos anos. "Sinceramente, eu nem estava sabendo deste protesto de sexta. E com certeza não iremos", resume Jussara Basso, do MTST.

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