Governo não esfria ímpeto grevista e vê aliado engrossar coro pró-caminhoneiros

Por Vasconcelo Quadros , iG São Paulo |

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"Contem comigo. Fé em Deus e pé na estrada", escreveu o deputado federal do PP Covatti Filho nas redes sociais

Além de insuficientes para acabar com a greve dos caminhoneiros ou afastar os riscos de desabastecimento, as medidas anunciadas pelo governo dividiram o movimento entre motoristas autônomos –  que controlam cerca de 80% dos caminhoneiros – e sindicalizados. “As estradas vão permanecer bloqueadas”, avisou o líder do Comando Nacional do Transporte, Ivar Luiz Schimidt, responsável pela paralisação que promete levar mais desgaste ao governo no momento mais crítico do segundo mandado da presidente Dilma Rousseff.

Covatti Filho, do PP, partido que integra a base aliada do governo Dilma Rousseff
Reprodução

O movimento se diz suprapartidário, mas seu líder está recebendo apoio ostensivo da bancada ruralista, das entidades que representam os produtores rurais e da Frente Parlamentar da Micro e Pequena Empresa, cujo presidente, Covatti Filho (PP-RS), o ciceroneou por Brasília e, depois do anúncio das medidas, postou nas redes sociais uma mensagem no mínimo estranha para quem integra um partido da base aliada do governo.

“Não houve acordo. Os caminhoneiros não aceitaram as propostas do governo. Agora é a hora de agregarmos forças e buscarmos as nossas reivindicações. Contem comigo. Fé em Deus e pé na estrada”, escreveu o parlamentar, que também integra a bancada ruralista. Seu pai e assessor, ex-deputado, líder do grupo pepista do norte gaúcho, disse que o governo ainda não percebeu que “a agricultura do País abraçou o movimento dos caminhoneiros”. Vilson Covatti, pai, previu que as paralisações vão antecipar a mobilização prevista para o próximo dia 15, atraindo a adesão de outras entidades e unificando a pressão sobre Dilma.

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No entendimento do governo, embora motivada por causa justa, a greve não é espontânea como dizem os políticos que dão suporte aos grevistas. Uma fonte ligada à Secretaria Geral da Presidência da República disse ao iG que o governo suspeita que a ala gaúcha do PP, adversária ferrenha do PT no Rio Grande do Sul e indiferente a indicação do ministro Gilberto Occhi (Integração Nacional), está na origem do movimento que teria a intenção de gerar instabilidade para agravar a crise política.

À espera dos protestos que estão sendo organizados e vista como um movimento potencialmente explosivo em função dos riscos de desestabilização pelo possível desabastecimento, a paralisação era tudo o que a oposição esperava.

A continuidade da greve não só criará transtornos à população como também riscos políticos. “O movimento é perigoso e violento”, afirmou o senador Blairo Maggi (PR-MT), que fez questão de lembrar que o ex-presidente do Chile, Salvador Allende, foi derrubado no início da década de 1970 na efervescência provocada por uma greve de caminhoneiros.

Veja imagens da greve dos caminhoneiros:

Caminhoneiros fazem manifestação na BR-116 Norte, em Feira de Santana
. Foto: Fotos PúblicasCaminhoneiros fazem manifestação na BR-116 Norte, em Feira de Santana
. Foto: Fotos PúblicasCaminhoneiros fazem manifestação na BR-116 Norte, em Feira de Santana
. Foto: Fotos PúblicasCaminhoneiros fazem manifestação na BR-116 Norte, em Feira de Santana
. Foto: Fotos PúblicasCaminhoneiros fazem manifestação na BR-116 Norte, em Feira de Santana
. Foto: Fotos PúblicasCaminhoneiros tomam banho em córrego ao lado da Rodovia BR 040, em Minas, durante paralisação da categoria. Foto: Flávio Tavares/Hoje em Dia/Futura PressCaminhões parados na BR 040, em Belo Horizonte, nesta terça-feira (24), sexto dia de greve. Foto: Flávio Tavares/Hoje em Dia/Futura PressJustiça determina desocupação de rodovias no RS. Foto: Futura PressOs estados mais prejudicados pelos caminhoneiros são Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Foto: Valter Campanato/Agência BrasilCaminhoneiros mantêm bloqueios de rodovias federais. Foto: Fotos PúblicasCaminhoneiros mantêm bloqueios de rodovias federais. Foto: Fotos PúblicasCaminhoneiros mantêm bloqueios de rodovias federais. Foto: Fotos PúblicasCaminhoneiros mantêm bloqueios de rodovias federais. Foto: Fotos PúblicasCaminhoneiros mantêm bloqueios de rodovias federais. Foto: Fotos PúblicasCaminhoneiros mantêm bloqueios de rodovias federais. Foto: Fotos PúblicasCaminhoneiros mantêm bloqueios de rodovias federais. Foto: Fotos PúblicasCaminhoneiros mantêm bloqueios de rodovias federais. Foto: Fotos PúblicasCaminhoneiros mantêm bloqueios de rodovias federais. Foto: Fotos Públicas

“O almoço de domingo está em cima do caminhão”, alertou Maggi que, mesmo depois do anúncio das medidas, achava que o desbloqueio total das estradas “é outro departamento”. Se o transporte de cargas não voltar ao normal, ele acha que o País não aguenta uma semana. O senador diz que a paralisação tem componentes explosivos e, embora não veja partido por trás, acha que pode ser usada pela oposição para agravar a crise.

Redes sociais
Catarinense de Palmito, com 25 anos dedicados ao transporte, o caminhoneiro Ivar Luiz Schimidt articulou de Mossoró (RN) todo o movimento, usando as redes sociais e um aplicativo de celular, o WhatsApp. Controlou a categoria e parou as estradas, numa mobilização que, apesar de negociações que estão sendo travadas, ainda tem desfecho imprevisível. Segundo ele, o movimento não se encerra com o desbloqueio parcial. “Vai emendar com as manifestações do dia 15”, diz o líder, que promete novas dores de cabeça ao governo.

O Comando Nacional do Transporte é apenas um endereço na internet que, para espanto do governo, soube usar as redes sociais com poder de articulação tão eficaz como o Movimento Passe Livre na jornada de manifestações de junho de 2013.

As semelhanças com o MPL não param no uso competente das redes sociais: com pauta focada num único item, nascida da espontaneidade, sem líderes conhecidos até então e avessos a sindicatos, federações e associações habituadas a sentar em volta da mesa de negociações oficiais, os caminhoneiros também brigam por redução de alguns centavos nas tarifas. Só que em vez de passagens de ônibus ou metrô, é no custo do litro de óleo diesel (R$ 2,651 em São Paulo, R$ 2,858 no distrito Federal e R$ 3,19 no Acre), que representa, segundo Schimidt, 60% das despesas de uma viagem.

“Se não cair 50 centavos no preço do diesel, estaremos trabalhando com lucro zero. É melhor ficar parado. Sem a redução não há acordo”, diz o líder, que tentou, sem sucesso, participar das intensas rodadas de negociações envolvendo os ministros Miguel Rossetto (Secretaria Geral da Presidência) Kátia Abreu (Agricultura) e Antônio Carlos Rodrigues (Transportes), na quarta-feira.

“Fui expulso da reunião. Me ‘intimaram’ e tive de sair. Lá não havia pessoas que representassem o movimento. São os mesmos de sempre, que nada resolvem”, cutucou Schimidt. Ele afirma ter o controle de 100 dos 128 pontos de paralisação (uma média de 450 caminhões em cada um deles) esparramados pelos bloqueios em nove estados.

Depois de deixar o Ministério dos Transportes, já no início da noite, o líder foi recebido por Rossetto no Palácio do Planalto, mas não aceitou a oferta e nem os apelos para ajudar a evitar os riscos de desabastecimento: o ministro, segundo ele, pediu que aceitasse por seis meses as medidas anunciadas e suspendesse a greve.

Schimidt considerou um absurdo e, depois de sair deixar o Planalto, disparou mensagens pelo WhatsApp orientando os motoristas autônomos a manterem os bloqueios. O líder acha que Rossetto, ao não permitir que participasse da reunião à tarde no Ministério dos Transportes, tentou desqualifica-lo. O chefe de gabinete do ministro, Robson Almeida, de fato, interrompeu a entrevista de Schimidt, na porta do ministério, para avisar os jornalistas que ele foi convidado a deixar a reunião porque seu nome não estava na agenda. O clima de constrangimento gerado deu o tom da falta de habilidade política dos ministros escalados para debelar a crise. Em vez de improvisar uma solução, chamando o líder, que estava no corredor do quinto andar do Ministério dos Transportes, ele foi afastado do local e Rossetto só aceitou recebe-lo mais tarde no Palácio, em separado, mas para descartar qualquer possibilidade de redução no preço do óleo diesel. Já era tarde para abrir negociação na noite de quarta.

Schmidt crê que o movimento pode ser ampliado, incluindo, nos locais sob controle da entidade, o bloqueio também da faixa por onde estavam passando veículos de passeio. “Só trafegarão ambulâncias e veículos com produtos perecíveis”, disse. Diumar Bueno, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores Autônomos, considerou boas as propostas do governo, disse que as encaminharia aos caminhoneiros, mas não garantiu o desbloqueio das rodovias.

“Não assumimos esse compromisso com os ministros”, lembrou, resumindo a conclusão de uma reunião em que participaram mais de 50 pessoas, representantes das categorias organizadas e da cadeia do agronegócio, toda ela amarrada ao óleo diesel e ao transporte rodoviário. “É uma arapuca complicada de desarmar. Não sei se tem movimento político por trás, mas pode se tornar viral”, disse o presidente da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), Márcio Lopes de Freitas.

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